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Contos Minilua: A Garota do Ônibus #242

Pois é, e lembrando que todos os temas são aceitos: Suspense, mistério, terror, enfim! Sinta-se à vontade ok? O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

A Menina do Ônibus

Por: Kalil Silva

Olá. Venho hoje te contar uma história. Você deve estar se perguntando quem sou eu, mas antes de me apresentar, quero que olhe para trás, veja se não tem ninguém bisbilhotando, não quero que espalhe essa história a ninguém, aquele que a viveu pede sigilo.

Agora vamos às apresentações. Quem sou eu? Nem mesmo eu posso responder. Sou um contador de histórias, isso posso dizer. Observo o ser humano desde sempre, não todos, só aqueles que me interessam, suas vidas, suas histórias. Quem é você? Bom, isso eu também não posso responder, mas quem sabe eu não esteja te observando também?

Observações fora à parte, vamos a história. Contarei a você a história de um jovem simples, monótono, que vivia sua rotina tranquilamente, até que tal rotina foi quebrada. Todo dia, às 5 da manhã, esse jovem pegava o ônibus com as mesmas pessoas, no mesmo ponto, até que um dia, quando ele chegou ao ponto, estava lá sentada uma garota, de mais ou menos sua idade, linda, com seus cabelos encaracolados e ruivos, seus olhos verdes e seu corpo esbelto.

O garoto ficou impressionado com a beleza da menina, e ao perceber que o garoto a olhava, ela o olhou de volta, sorriu e voltou a fazer seja lá o que ela estivesse fazendo, o que desconsertou o garoto.

A garota pagava o mesmo ônibus que ele. Eles nunca se falavam durante a viagem, mas o garoto, sempre que tinha oportunidade, a olhava, e ela, sempre que percebia, sorria. Um dia, a garota, cansada dessa troca de olhares, decidiu falar com ele. ‘Olá’ ela disse. ‘Olá’ ele respondeu. A partir daí a conversa se desenrolou de forma inesperada. Eles eram muito parecidos. Séries, livros, filmes, HQ’s, games, músicas, tudo, eles gostavam das mesmas coisas, e isso foi fazendo eles se aproximarem cada vez mais, quando perceberam, conversavam todo dia durante toda a viagem.

Até que ele, num momento de loucura, a chamou para sair. Homens. Sempre estragando tudo. Essa não foi a melhor decisão que ele podia ter tomado. Muito menos ela. Ela aceitou. O encontro foi perfeito, sem detalhes.

Houve outros tantos. Começaram a namorar e tais. Mas aí que a história começa a ficar estranha. Numa de suas saídas, enquanto conversavam, a garota ficou olhando para o nada e, algum tempo depois ela começou a mexer os lábios, como se estivesse falando, porém som algum saia de sua boca.

‘Amor, algum problema?’ Pergunta o garoto. Ela não diz nada, para o que estava fazendo, olha para o garoto, sorri, dá um tapa na sua cara, grita levanta e sai. O que aconteceu? Eu não sei. Sou um contador de histórias, não adivinho.

O garoto sai atrás dela. ‘O que foi isso?’ Ele pergunta. ‘Me leva para casa’ É só o que ela diz. Ele a leva numa caminhada silenciosa, nenhum dos dois comenta o ocorrido. Ela morava num prédio de 7 andares robusto e antigo. Eles entraram no elevador. O garoto apertou o botão, mas a porta não fechou.

A garota começou novamente a mexer os lábios sem emitir som. Seus olhos iam de um lado a outro de forma assustada. O garoto apertava todos os botões, mas a porta não fechava. Resolveram ir de escada. Assim que saíram, a porta do elevador se fechou.

Enquanto subiam as escadas, a paranoia da garota foi ficando pior. Ela movia as mãos de forma aleatória, e agora, ela dizia algo, mas não fazia sentido algum o que dizia, como uma disposição aleatória de silabas numa frase. A paranoia para quando eles chegam ao apartamento da garota, o que deixa o garoto mais assustado. Ela simplesmente para à porta e o fita por alguns segundos, sorri, e depois corre em sua direção, o abraça lhe agradece por tudo e lhe pede desculpas, não pelo que fez, mas pelo que iria fazer.

Ela o largou. Quando o tocou de novo, ele sentiu sua pele queimar. Ele simplesmente não conseguia se soltar. O que está acontecendo? Por que está acontecendo? Era isso que ele pensava. Mal sabia ele que a garota também não entendia.

Se ele tivesse parado por pelo menos um momento para olha-la, teria visto que ela estava chorando. Não era ela que estava fazendo aquilo. Algo a fazia fazer. Seus braços, suas pernas, seu peito, seu abdômen, seu rosto, seus olhos, tudo queimado, não como fogo, mas como com ácido, com enormes cicatrizes.

Para onde a menina foi? Ele não viu. Claro que não, ela queimou seus olhos. Eu sei para onde ela foi, sei o que ela está fazendo nesse exato momento, sei que queimou seus próprios olhos por remorso, não com suas mãos, como fez com o rapaz, mas com fogo.

Se sei quem a forçou a fazer aquilo? Também sei, eu a criei. Péssima ideia. Achei que podia mantê-la sob controle. Não deu muito certo. Mas ela me dá historias interessantes. Ainda se perguntando quem eu sou certo? Calma, vire-se, se olhe no espelho da vida, sabe que me viu varias vezes.