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Contos Minilua: A menina que queria voar #163

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A menina que queria voar – Inocência e culpa

Por: Garota Infernal

Aconteceu numa cidade qualquer. Um desses lugares que a gente vai para nunca mais voltar. Nem me lembro mais o nome, não é importante… O importante é o que eu vi, ouvi, o que senti…
Eu nunca vou me esquecer. Não me esqueceria nem mesmo se me deixasse de chamar Gustavo, eu poderia esquecer meu nome, minha fisionomia, minha identidade, minha história. Poderia esquecer de mim mesmo, mas nunca desta história. Nunca dela, Do-ra! I-sa-do-ra!

Ela era uma daquelas meninas voadoras. Ela nunca está no chão, sempre acima de sua cabeça, pensando. Isso não quer dizer que ela não era serelepe além da conta. Corria feito uma condenada pelo chão sem piso. É nessas horas que eu penso em como o mundo é miserável. Era doentinha, coitadinha. Ela tinha o que hoje as pessoas gostam de chamar de autismo… Mas naquele tempo era “menina doida” mesmo.

Ela era uma pessoa especial, ela era feliz demais, e parecia uma menina normal, qualquer rapaz que visse uma fotografia dela diria que é um “brotinho”, como dizíamos as meninas bonitas… Mas quando chegava a noite…

– Eu quero voar, quero voar, voar, voar!
– Minha filha.- Dizia o pai, doidinho, coitado.- Por favor, vamos para a cama, lhe contarei uma história.

– Mas papai, eu quero voar…

– Não filha, tira isso da sua cabeça.

Era divertimento dos vizinhos. Eles adorariam ver uma jovem despencar do segundo andar de um uma hospedaria.
– Agora não.- Diz ela, com o olhar de quem está muito fascinado.- Agora não mais. Não é mais a hora. E foi para o quarto.

Era meu segundo dia lá, e havia mais 3, e todos os dias anteriores eram a mesma coisa… Mas nesse foi diferente. O lugar era aconchegante. Cheio de pinturas e cortinas florais. Seu único defeito sério era a escada. Ela era um perigo. Enfim, o que importa é que cheguei sem cair da escada velha e cheia de cupim ao meu quarto. Bem, não era meu, eu divida com uma senhora de 80 anos e seu marido doente.

Eles eram bem bonzinhos comigo, e conversávamos antes de dormir.
– É verdade que não se pode atender a um chamado quando ele não existe?- perguntei, bêbado de sono.
– Sim, meu filho.- Respondeu a sábia senhora.- Não se pode atender a esses chamados… É a morte…E meus olhos se fecharam.

Quando eu acordei percebi que aquela senhora não jazia no quarto com seu marido. Mas não me importei. Coloquei uma roupa apresentável, afinal aquela não era a minha casa e desci aquele lance de escadas que se assemelhava a descer por uma fina escada de gelo. A menina passou por mim como um relâmpago rindo como ela só. Não pude deixar de perceber uma protuberância esquisita em suas costas, mas piscando eu percebi que fora nada mais que uma ilusão.

Cheguei a cozinha e o dono estava lá. Que era um senhor muito trabalhador, ah, isso era. Ele cozinhava para nós. Era sozinho.

– Se eu pegar o desgraçado que pôs essas porcarias de voar na cabeça da minha filha…
– Bom dia, senhor.- Exclamei em alegria e simpatia.
Ele bebia café olhando para o mais fundo horizonte. Se virou com um sorriso cortês.
– Bom dia.
– Eu fiquei preocupado com sua filha.- Menti. Eu queria parecer simpático, não estava nem ai para a menina.
– Ela anda fora do normal.- Disse ele balançando a cabeça em sinal de negação.

Quase deixei escapar um sorriso, afinal, a garota não era normal.
Até que ele fez uma expressão que me fez ver o rosto dele brilhar como uma lâmpada.
– Você tem quase a mesma idade que ela. Ela é muito desconfiada com adultos, tente falar com ela. Minha surpresa que me fez quase rir mais uma vez foi ele dizer isso. Eu tinha mais 20 anos e aquela garota tinha uns 15…
– Por favor!- Suplicou lançando um olhar piedoso.

Os velhinhos me controlam. Eu estou velho, e com meu próprio olhar consigo me convencer de coisas no espelho.

– Eu posso ver o que é que há.- Respondi em simpatia.

Bom, então o fiz. Fui até o quintal onde ela se encontrava cantarolando uma música de uma língua que ela provavelmente inventou enquanto desenhava círculos, e círculos e círculos na terra barrenta. Tal foi minha surpresa perceber que eu tinha essa mesma mania infantil. Ela cantava “Laralara ovi tua iama, iama, imama” ou algo assim, um conjunto de sílabas fáceis em uma melodia doce.

Meus joelhos encostavam nos seus ombros bronzeados. Não parecia ser tão difícil. Fiquei por um tempo olhando seus cabelos loiros(Ruivos? Algo assim, eu era meio ruim ao descrever a cor de cabelos femininos.) e lisos, aquela criatura transitava entre infantilidade e feminidade como se fosse uma linha de violão. Meus devaneios de homem deveriam ser cortados pois meu dever era ajudar essa pobre garota.

– Dora!- Chamei-a.
E ela me surpreendeu levantando seus olhos pretos e me fitando com um olhar de medo… Não, curiosidade… É um olhar infantil.
E então eu comecei a ter medo de mim mesmo.
– Podemos conversar?
– O que eu fiz?- Pergunta com aqueles olhos ainda mais assustados.
– Desculpe minha postura.

Quando me sentei no chão em frente e ela, percebi que a superioridade masculina assustava-a. Como eu tinha um rosto jovem, ao ficar frente a frente com ela o medo ia embora, e ela me fitava como um igual.
– O que há acerca de voar?

É que naquele tempo falávamos um português mais colonial. Ela deu de ombros e não respondeu.
– Eu penso.- Afirmei olhando para o céu.- Que voar é uma dádiva dos anjos, logo, se voamos é por que somos anjos.
– Ela me disse algo sobre anjos…- Disse distraída.
– Ela quem?- Questionei.

Ela olhou pra mim, sorriu e se levantou, dançando e cantarolando rumo ao lago. Era uma vida muito boa, quisera eu ser doente daquele jeito. Dei de ombros e fui cuidar de minha vida. É que, meus amigos, dali em diante era bonde rua, rua caixa, caixas e caixas, tudo para euzinho aqui pegar só. Vida de mascate não é fácil, e eu teria que carregar aquelas caixas até a hospedaria que ficava um demasiado longe da cidade.

Aquela vida estava mesmo me enchendo até o pescoço. Não era nada agradável levar portada nas fuças, não era nada agradável ser caloteado e depois levar sermões de meu chefe. Mas fazer o que?

Eu estava bem perto da hospedeira, e então uma moça parou o meu caminho. Ela era morena, alta, com cabelos cacheados e olhos extremamente negros, daqueles em que você não pode nem mesmo ver a tristeza ou alegria da alma…
– Negar a damas é uma brutalidade.- Disse com sua voz doce e meiga, mas que parecia destilar veneno.

Aquilo me deixava arrepiado, um choque percorreu meu corpo inocente. Eu parecia um idiota… Então me recompus, e precisei de uns bons 20 elefantes para isso, mas tudo bem. Voltei para a hospedeira e arrumei um lugar para guardar a mercadoria nos fundos do quintal. O tempo passou como aquele arrepio, rápido!

Traquinando e já era meio dia, hora do almoço. Eu estava com muita fome e empolgado pois quem faria o almoço era, milagre, uma mulher! A senhora doce que divida o quarto comigo morava lá, e aceitou começar a cozinhar para morar de graça, o dono, Seu Donadom, era um homem muito sofrido e bom, por isso aceitou dando pulos de alegria.

Eu só precisava colocar uma camisa mais confortável, os códigos de vestimenta eram pra lá de exigentes e tediosos. Eu trocava de roupa tranquilo até ouvir a porta grunhir. A maçaneta girava e girava.
– Tem gente aqui!- Gritei para que não abrissem.
E eu ouvi uma carreira… Aquele som de pés… Só podia ser ela, Dora. E ela cozinha tão bem que dava vontade de ficar por lá… Na verdade, tudo me dá vontade de ficar por lá. Eu comecei a pensar se não seria mais feliz lá do que pulando de galho em galho…

O cheiro do do mato. A casa antiga, castigada, tudo certo, mas parece um lugar feliz. O Seu Donadom e sua sabedoria. O fato de haver muita gente… É que eu estava começando a achar que lá seria um bom lugar para começar uma vida.

A verdade é que sempre estive muito só, e todas aquelas pessoas sendo hospitaleiras e respectivas comigo me deixavam muito bem. Era um lugar de paz. Acima de tudo, começava a achar que eu a maior fatia de minha vontade de estar lá seria aquilo que, sem demorar muito, se tornaria meu fascínio, meu amor, minha vida. Mas naquele tempo eu apenas olhava-a com admiração. Olhava-a como uma criança crescida e feliz, e aquilo me fazia acreditar nas pessoas.

Mas nada que aconteceu nesses dias foi importante. Dora continuava a querer voar, mesmo sem asas, e falava sobre anjos. Minha culpa. Em minha tentativa falha de dize-la que a mesma não era nem uma borboleta, nem um pássaro, nem um inseto, muito menos um anjo, e como tal, não podia voar, ela criou a ideia falsa de ser um anjo.

Dois dias se passaram. Duas noites se passaram. E na manhã daquela quinta ensolarada, decidi comunicar a Seu Donadom, que ficaria permanentemente naquela casa. Meu impulso maior era o carinho de todos, pois naquele momento, Dora mal sabia de minha existência.

– Bom dia, Seu Donadom!- Disse no sorriso que me lembrava o de 3 dias atrás.
– Bom dia, meu filho. Estou de saída, e vou logo lhe desejando uma boa viajem.
– Oh, Seu Donadom. Não vai mais ter viajem.- O tom da minha voz era surpreendentemente normal, pois eu achava que iria dizer isso com mais euforia.
– Por que? 

– Eu decidi ficar por aqui. Eu arrumei um emprego melhor aqui, na verdade, estava cansado de pular de cidade em cidade. Esse trabalho está ficando cada vez mais perigoso.

– Eu concordo, meu filho. Também fui mascate. E no meu tempo, era uma profissão muito tranquila, até que começaram a roubar e surrar.
Esse é um dos fatores que me fez ficar por lá. Eu perdi a conta das contas de médico que tive que pagar.

– Bom, então como fiz curso de datilografia quando mais novo, consegui arrumar um emprego no jornal. É um salário confortável para um jovem solteiro como eu viver.
– Acho essa decisão ótima, pois peguei simpatia por você, filho.- Minha mania de ser simpático fazia realmente efeito…- Mas agora estou de saída. Preciso comprar ingredientes para Dona Neide.

Em minha amargura sobre esta história de minha vida, esqueci de revelar o nome da doce senhora de 80 anos, ela se chamava Dona Neide, e seu marido se chamava Seu Zé.- Ela diz que o almoço será um primor.

E saiu porta a fora. Meu trabalho só começaria 3 dias depois, então ficaria sem nada a fazer. Naqueles tempos, ó, meus amigos, não eram como os dias de hoje. Naquele tempo o entretenimento não era lá muito acessível, muito menos em dias de semana. Eu era um jovem elétrico como um menino de 12 anos, não aguentava ficar sem nada para fazer.

Saí rumo ao quintal e vi as possibilidades. Havia o lago, a conversação(mais uma vez usando um termo português, perdoem-me) com os outros hóspedes e Dora. Eu não queria, nunca, não, sem chance em tempo algum me aproximar de Dora, pois começava a considera-la uma mulher. Não podia, é um pecado grotesco, e na noite passada me peguei repreendendo a mim mesmo por me aproveitar de sua distração infantil com o as saias acima da cintura.

Decidi, os outros hóspedes!
Eu procurei por toda a casa alguém para papear, mas todos estavam em seus compromissos. E qual foi meu susto ao concluir que estava sozinho com Dora, que devia estar cantarolando em algum lugar da casa. Aquilo me fez correr para o lago, pois a ideia de estar com ela me arrepiava em êxtase e me dava asas para voar para longe de qualquer coisa que estivesse ligada a ela.

Naquele momento, eu correria até mesmo de uma formiga que poderia ter trilhado pelos pés dela enquanto ela sentava no jardim. Quando vi que estava perto do lago parei minha corrida para me despir, ficando apenas de ceroulas e iniciei uma nova carreira ruma a água.

A água me fez esquecer de Dora, eu amava nadar, mas, sobretudo, ficar debaixo d’agua pensando. Prendi a respiração e mergulhei, vendo o céu e como era lindo ver o mundo de fora dentro da água. Fôlego? Uma mera bobagem perto daquela experiencia visual. Mas eu precisava respirar se não quisesse que aquilo fosse a última coisa a se ver. Quando coloquei a cabeça para fora, vi aquilo que iniciou minha odisseia rumo a loucura total(bom, essa loucura durou uns meses, mas não deixou de ser perturbador).

Era Dora, se despindo, mas não como eu, que fiquei com as roupas debaixo, ela estava completamente nua. Minha cabeça me mandava sair da água com cautela para que ela não vê vesse e ir para a estação de trem comprar uma passagem para São Paulo, Rondônia, Buenos Aires, Tóquio, para fora do Globo, para onde Judas perdeu as botas.

Mas meus instintos masculinos e, de certa forma, adolescentes, me mandavam me esconder entre as folhagens e apreciar aquele milagre dos céus. E, pela primeira vez, me deixei levar por minha vontade e o fiz. Ela nem sabia que eu estava lá pois estava longe de mim. Ela era tão linda, tão perfeita, mais que um broto… O fascínio de qualquer homem.

E hoje, me pego sentindo saudades daqueles tempos nebulosos. Mas voltando aquele momento, quando ela entrava na água, tive uns 2 minutos de a experiencia mais incrível que um homem pode ter. Meu fôlego faltava diante daquela deusa(não mais uma criança). Ar? Uma mera bobagem diante daquilo. Mas eu tinha que sair para poder respirar se eu não quisesse que aquilo fosse a última coisa a se ver.

Eu sai e me vesti de forma que não dava para ela ver e quando cheguei em casa(minha nova casa) me senti um pecador. Eu queria me multiplicar em dois, cinco, dez, apenas para me dar uma boa surra de deixar estraçalhado.

“O que eu fiz?O que eu fiz?O que eu fiz?O que eu fiz?” Me perguntava com as mãos na cabeça. Eu me senti um monstro repelente. Fiquei naquela amargura tremenda e não vi o tempo passar. Só me dei conta quando ouvi doces pancadas na porta.
– O que foi?- Perguntei em tédio externo e ódio próprio interno.
Tudo o que ouvi por 15 segundos foram risinhos e troca de palavras femininas juvenis que não podia entender.

– O almoço.- Disse Isadora, com sua voz doce e meiga, que agora, pra mim,é extremamente erótica. Não pude deixar de dar murros no travesseiro ao perceber que ficava exitado só por ela estar do outro lado da porta e, novamente, me senti um lixo. Como medida punitiva, pensei me privar de alimentos até morrer de fome, mas percebi que não era suficiente, eu deveria me suicidar no mesmo rio onde começou minha ruína.

Muitas formas de dar fim ao meu ser passaram pela minha cabeça naquele momento, pois agora eu meu maior inimigo se chamava Gustavo. Mas então, comecei a tentar ajudar a mim mesmo alimentando o pensamento de que ela era linda e qualquer homem sentiria o mesmo que eu. Não me tranquilizou completamente, mas me deu motivação para levantar e me alimentar depois de horas de auto-tortura. Quando abri a porta vi dois pares de olhos curiosos. Dora e alguma amiguinha de sua idade, e essa amiga parecia muito atiradinha.

– Olá, meu nome é Paola!- Disse estendendo suas mãos brancas e com pintas.
Essa menina era loira e tinha olhos cor-de-mel. Chamaria a atenção de qualquer homem. Meu desejo era olhar para Dora, mas resolvi fixar meus olhos em Paola para disfarçar.
– Oh, meu nome é Gustavo.- E peguei suas mãos delicadas e macias, beijando-as.
Eu parecia um pouco cavalheiro demais, não queria passar essa impressão. Meu objetivo não era seduzir uma menina de 15 anos, droga, não devia trata-la como uma dama! Me arrependi daquele ato…

É que aquela menina se sentiu bem cheia de si, pura falta de desconfiômetro, e saiu correndo, sorrindo e cochichando como todas daquela idade.

Desci ao encontro da mesa de refeições, onde dei de cara com um casal estranho. Isadora e Paola chegaram, e Paola sentou entre o casal abraçando-os, o que me fez concluir que eles não eram outros senão os pais dela.

Eu não olhei Isadora nem por um segundo, só ouvia sua voz, o que me deixava desconfortavelmente encantado. Percebi que, agora, falava como uma adolescente normal sobre os livros que andou lendo e as fotonovelas que achava o mal da sociedade.

– Você vem melhorando bastante, Dorinha.- Disse o pai de Paola, que se chamava Heitor, percebi isso prestando atenção nas conversas.- E, Donadom, sua ideia de transformar a casa em uma estalagem foi ótima, o convívio de Dora com as pessoas está fazendo-a melhorar bastante.

Não pude deixar de perceber que Dora e Paola cochichavam muito, então resolvi parar de me bloquear ao ato de olhar Dora, percebendo que elas olhavam para mim enquanto falavam.
Depois de muito falatório aleatório, e meu silencio que contradizia minha simpatia, eis que vinha Paola com uma caixa cheia de buracos nas mãos.

– Não pode ser! Não pode ser, não pode ser!- Exclamava Minha Doce Dora, com suas mãos delicadas no rosto alegre.

– E como prometido por ter melhorado tanto, aquilo que você pediu, Dorinha.- Disse a mãe de Paolla, Dona Paula. Falou com um tom de “titia”.
Dora pega a caixa e seus olhos negros transbordam inocência e felicidade. Ela abre a mesma e vê uma gata seu filhote.
– Mas a senhora disse que era só um!- Exclamou aos pulos, quase deixando os pobres bichanos caírem.

– Eu achei uma maldade separar mãe e filho…
Nesta hora, Seu Donadom faz uma cara de desgosto e infelicidade, uma nostalgia ruim.
– O que foi, Senhor Donadom?- É a primeira coisa que digo em todo o almoço.
– Nada, meu filho. Depois, depois.- Falou dando a entender que me contaria depois.
Dora se sentou no chão e começou a brincar com seus novos amigos. O filhote fazia cambalhotas desengonçadas com a fita de cabelo que ela acabara de tirar para brincar com eles. E, novamente, me senti um monstro.

Com o passar do tempo, Isadora se mostrava cada vez mais vaidosa e madura. Ela trocou “Três Porquinhos” por “Shakespeare”, e começava a se vestir como uma mulher, e se comportava com mais elegância. Claro que tinha um pouco de dificuldade com algumas coisas devido a sua enfermidade, mas ela estava chegando a cura.

Na chegada do domingo, sou acordado as 6 da manhã com aqueles mesmos doces punhos batendo a porta do quarto (que agora é apenas meu, pois Seu José piorou da tuberculose, o que fez ele ir para o hospital e o casal mudar de quarto para um mais isolado). Era ela, mas o que queria comigo naquela hora?

Eu saí com sono da cama para abrir a porta, me esquecendo de me vestir de forma adequada para ver uma mulher. Estava pouco me lixando, queria dormir e nem mesmo a presença dela me convencia do contrário.

Ao abrir a porta, minha visão está embaçada, e meus sentidos pra lá de lerdos. Hitler poderia passar na minha frente e eu não prestaria nem mesmo para dar-lhe um tiro, que acertaria 50 centímetros longe dele.

– Que tal estou?- Disse com as mãos na barra do vestido balançando o corpo em meia-volta.
E eu pude ver o quanto estava linda, e me senti como naquele dia no lago. Ela usava um vestido rosa com bolinhas pretas, e seu cabelo estava trançado. O que me surpreendeu foi o batom vermelho em seus lábios.

– Está…- Hesitei um pouco em responder. Tinha medo de ser mal interpretado, mas eu tinha que dizer…- Linda.

Ela sorriu e saiu cantarolando, e tal foi a minha decisão: tinha de ir a igreja, pois esse era o rumo deles, esse era o rumo dela.
Me dirigi ao banheiro e molhei o rosto, eu parecia muito saudável e corado, mas depois de secar o rosto percebi que estava corado por que vi ela, logo, ela percebeu! Pânico! Ela sabia… Ou não sabia?

Se bem que naqueles dias eu desconfiava até mesmo que um coelho contasse que eu vi ela no lago, ou que o som da água se tornasse a voz de uma pessoa e dissesse “Gustavo viu-te nua!”. Eu era um medroso.

Escovei meus dentes e coloquei uma roupa de domingo que não usava a anos para ir a igreja, na verdade, a anos não ia a igreja, esqueci até o “Creio”. Que vergonha! Mas algo me dizia para ir. Desci e percebi que todos iam a igreja, e eu ficaria sozinho. Concluí em alívio que Dora foi me chamar para ir para a igreja, do jeito dela, talvez… Ou era uma babaquice da minha parte pensar em tantas possibilidades.

– Bom dia!- Saudei a todos em simpatia, como sempre, aliás. Eu era o tipo de rapaz que tinha sempre um sorriso no rosto(O que mudou depois de uns meses.).
– Bom dia!- Responderam em um compasso desordenado.
– Então?- Perguntou Dona Neide com um enorme sorriso no rosto.- Vamos para a “Casa de Deus”?

– Vamos!- Todos responderam.
Estavam todos felizes por ir a igreja, a fé era tão viva entre eles. Ia além da imagem da cruz, ia além da bíblia, era uma dádiva.

Me senti, mais uma vez, um lixo. Minha impulsão para ir a igreja era Isadora. Me senti um pecador, mas vi que aquilo era uma oportunidade de pedir ajuda e me confessar, talvez, esquecer Dora e arrumar outra mulher.

Antes da missa os jovens sempre se juntam para conversar. O padre nem havia chegado e todos esperavam fora da igreja(os mais velhos se importavam em ir até a sacristia, já os jovens estavam lá por obrigação.). Percebi que me encaixava no, grupo de Paola. É que a mesma me pegou pela mão e me arrastou até eles. Eram uns 3 rapazes e 3 moças.

Elas eram bonitas(nenhuma chegava aos pés de Dora), mas muito fúteis. Os meninos falavam sobre futebol e como roubavam revistas masculinas de seus pais(o que quase me fez rir, pois eu tive minhas aventuras nas viagens, é o lado bom da profissão de mascate.).
Me entrosei bem no grupo dos homens, e arrumei amigos. Eles estavam na minha faixa etária de 19,18, 20, mas eram filhinhos de papai.

Eles não haviam tido aventura nessa vida, eram servidos por suas empregadas e penteados por suas mães. Mesmo assim, eram bons rapazes.
Dora se aproximou do grupo das moças, e começou a falar com elas. Ela estava curada. Não tinha como ser tão sensata sendo doente, o que me espanta é esta cura ter acontecido em quase uma semana! Mas tudo bem. Os rapazes, ao ver Dora, deram sinal para conversar em outro lugar. E assim foi feito.

Fomos para uma árvore atrás da igreja, e lá, eles mostraram não ser os maricas que eu pensava. Um deles, o Daniel, tirou do seu bolso cigarros e fósforos, “Agora sim!” pensei. E começamos a falar sobre assuntos de verdade. Eles eram também muito cultos, falamos sobre política, e até da guerra! Até que chegamos as mulheres.

– Oh, as meninas!- Exclamou Fabrício, ele era o mais gordo e baixo do grupo.
– Não dá para saber o que pensam…- Suspirou Rafal.
– Acho que elas não pensam.- Disse Fabrício, nos fazendo gargalhar.
– Elas estão ficando unas brotinhos.- Falou Rafael, se tratava de Paola e cia.

– E você, caro forasteiro.- Disse Daniel, tragando seu cigarro.- Qual delas é a mais bonita.
Eu responderia “Dora!” o mais rápido possível… Mas não quis tornar a resposta tão ansiosa, fingi pensar enquanto dava uma longa tragada.
– Isadora.

– A maluca?- Perguntou Fabrício, recebendo em seguida um cascudo de Rafael.
– Ela não é maluca, tem apenas um distúrbio social, seu merda!- Exclamou Rafael, morrendo de ódio, o que me fez ficar enciumado.- E está melhorando… Bastante.
– Dora, Dorinha, Isadora…- Suspirou Daniel, soprando a fumaça.- Ela é como um sonho… Mas prefiro Paola, ela é mais… Aberta!
E todos caíram na risada.
– Como assim… “Aberta”?- Perguntei.
– Ela é uma desfrutável, com seus 15 aninhos não soube se controlar…- Disse Fabrício, desbocado!

Nesta hora me preocupei com a influencia que Paola poderia ter sobre Minha Adorável Isadora! Mas minhas preocupações foram interrompidas pelos sinos da igreja, denunciando que a missa começou. Jogamos os cigarros no chão e pisamos para apagar a chama.
Na igreja eu nem prestava atenção no padre, pensava em Dora. Nesses devaneios, sonhei que, no meio da noite, ela entrava nua no meu quarto… Mas eu me repreendi, eu achava que era o demônio me perturbando. Talvez fosse.

Depois pensei que, nos últimos dias, Dora não veio com aquela ideia noturna de voar. O que me deixava feliz, pois pensar na morte dela era como pensar na minha morte, era como pensar no fim.

Ao sair da igreja não quis voltar a companhia dos meus “amigos”, mas isso não queria dizer que não queria a companhia deles, eles falaram algo sobre uma festa a noite, talvez eu fosse.
Eu, Seu Donadom, Dora e Dona Neide andávamos tranquilamente até a casa, o percurso não era tão longo.
– Você ouviu, papai? O padre disse que posso fazer o Crisma!- Disse Dora, aos pulos com a novidade.
– Claro, filha! Estou muito orgulhoso.

Dora geme de dor. Todos se viram para ver o que aconteceu, ela aponta para o próprio pé, sentada no chão, quase chorando.

– O que foi, minha filha?- Pergunta Donadom, em seu desespero um tanto quanto exagerado.
– Ela deve ter torcido o pé. Coitada da bichinha – Lamentou Neide. Naquele tempo isso não era um xingamento, era como tratavam uma pessoa frágil.
– Consegue andar?- Perguntei estendendo-lhe a mão.
Ela me olhou com uma expressão triste e acenou que “não” com a cabeça.
– Tudo bem.- Disse pegando-a no colo.- Seu Donadom, Vamos logo em seguida, pois fica difícil ir no esmo ritmo que vocês.
– Tudo bem, meu filho.

Eles iam muito mais rápido que a gente, deveriam estar 100 metros a frente. Estar tá próximo dela era uma tentação para mim.
– Posso te contar um segredo?- Perguntou em meu ouvido.
– Cuidado com o que vai contar.- Alertei brincando.
– Eu não torci o pé… Precisava ficar a sós com você.
Parei ao ouvir aquilo. Ela queria ficar a sós comigo, comigo! Eu me sentia sortudo e canalha.
– Por que?- Perguntei de cenho franzido.
– Por que gosto de você, mas você não fala comigo. Gustavo, por que não fala comigo?
Estava pasmo. Não tinha o que dizer.
– Você acha que eu não sou normal? Não sou uma moça? Uma doença contagiosa? Um distúrbio?

Só podia olhar a imensidão de seus olhos negros. Nada tinha a fazer.
– O que pensa realmente sobre mim?
Ela parecia me desafiar com suas palavras de auto-piedade.
– E você, o que pensa sobre mim?- Questiono respondendo ao desafio.
– Penso que és encantador, simpático… E um belo rapaz.
Seu jogo me assusta. Solto ela e ela fica de pé no chão.
– Você andou melhorando nos últimos dias…- Tentei mudar de assunto.
– A grande responsável por isso é minha mãe, ela me ensina a ser uma moça.
– Sua mãe?
– Sim.- Disse se distanciando de mim.- Nos encontramos todos os dias.

Ela corre para casa com um sorriso em seu rosto. Ela percebeu o meu desconcerto.
Eu fui andando e pensando sobre a hipótese de ela saber ou não saber. Criei uma analogia de jogo de xadrez sobre ela. Antes ela era um pião, frágil e quase inútil. Agora é como a rainha, a mais poderosa. E eu sou o rei, o mais frágil, que precisa ser protegido. Mas que rainha ela é? A do meu jogo, ou a do adversário? Ela me mata ou me defende? Ela simplesmente me tem…

Chegando em casa, me dirijo até Seu Donadom, preciso conversar. Claro que não contei tudo, a conversa foi bem trivial.
– Sabe, Seu Donadom. No caminho até aqui, Dora me confidenciou que recebe visitas da mãe dela. Recebe apoio para melhorar, ela diz que ela está ensinando-a a “ser uma moça”. O senhor por um acaso é desquitado?
Donadom olha pra mim com os olhos arregalados e boca aberta.
– Não pode…
– Por que?- Pergunto meio sem interesse.
– Por que a mãe de Isadora está morta.

Continua…