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Contos Minilua: A Senhora Morte #244

Mistério, suspense, terror, enfim! Todos os temas são aceitos. O mais importante, claro, a sua participação. E-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

A Senhora Morte

Por: Vinícius Lopes

A Senhora Morte estava exausta. Enquanto o luar iluminava seu corpo, ela caminhava de volta para casa. Casa velha, que as pessoas bobas chamam de assombrada. É redundante chamar uma casa de mal-assombrada só porque ali mora a Morte.

A Senhora Morte deu descanso a sua foice encostando-a sobre a parede, agora sua única ocupação era caminhar pela casa. Havia muitos retratos nas velhas paredes danificadas pelo tempo. Um dos antigos donos quase enlouquecera ao reparar em um detalhe depois de uma foto tirada, pobre Senhora Morte, não poderia querer aparecer junto na foto que logo era motivo de gritos e pavor no vilarejo.

A Senhora Morte, ao contrário do que se pensa, é um ser calmo, inteligente e que ama seu trabalho. Claro que os dias de trabalho, assim como hoje, eram em geral cansativos e poucos proveitosos. Sempre que a hora de alguém se aproximava a Senhora Morte logo sentia, aparecia ao lado da pessoa em instantes e a seguia até seu triste destino. Não que fosse um ser incessível, mas também não podia ser exageradamente bondosa ou pouco eficiente.

Há quem diga erroneamente ter escapado da Senhora Morte, bobagem, certamente ela teve pena do sujeito e lhe deu mais um tempo de vida. Coisa rara. A Senhora Morte deitou na velha e desgastada cama, seus ossos sentiram um momento de alívio ao tocar o colchão sujo enquanto ela fechava os olhos.

A Senhora Morte não roncava, acabara de matar seu vizinho, pois tal o fazia muito alto, uma pena para esposa e filhos, mas fazer o que? Ele atrapalhava o sono da pobre coitada. Nunca fora amada, não tinha família, nem amigos com quem podia conversar, já que a simpática Senhora Doença vivia em constante serviço, a quem ela gostava muito e sentia saudades.

A Senhora Morte sonhava. Os sonhos dela não eram obscuros ou tristes, ela sonhava que descansava por um bom tempo depois do trabalho, pelo menos um dia inteiro, sonhava também que as pessoas poderiam ser menos descuidadas, zelando por suas vidas. O quarto velho era seu único refúgio contra o trabalho.

A Senhora Morte fora incomodada, quando alguém fizera enorme barulho entrando pela porta. Foi então que abriu os olhos e inclinou-se para ouvir e perceber quem fora o responsável. Será que nem a morte tem um momento de descanso? Pensou ela enquanto ouvia risos e conversas.

A Senhora Morte percebeu que era um casal de jovens que adentraram sua casa. A Senhora Morte deitou-se novamente, sua longa veste negra fundia-se ao confortável cobertor, não que sentisse frio, mas o conforto do cobertor a ajudava a adormecer. Os barulhos permaneceram até o limite, sem paciência, a Senhora Morte, já levantava da cama fazendo caretas e berrando maldições, fato que os humanos não podiam a ouvir ou a ver, nem por isso ela impedia que seus sentimentos ficassem claramente visíveis.

A Senhora Morte levantou da cama, seu longo e escuro manto tocou o chão sujo do quarto, estava furiosa, sua paciência já havia se esgotado. “O que poderia fazer um casal de namorados na casa mal-assombrada da Morte”? Perguntava-se a Senhora Morte impaciente. A Senhora Morte, depois de levantar caminhou até a porta do quarto, abriu-a e saiu ao corredor. Lá de cima da escada já avistava os importunos invasores. Desceu as escadas lentamente, fixou seus olhos para ver o casal.

Uma jovem de estatura média, barulhenta e de cabelos estranhos e coloridos, dezesseis anos, calculou a observadora. Acompanhando a garota estava um jovem alto, de olhos escuros, de cabelos negros e uma cabeça estranha acompanhada de uma chamativa barba, ele possui seis anos à mais que a garota. A ousadia dos invasores era tanta que até deixaram a porta aberta ao entrarem.

A Senhora Morte, já impaciente e furiosa passou por entre os dois, atravessando seus corpos, o que causou um arrepio na frágil moça. A Senhora Morte, muito séria, ainda caminhou até a porta em passos lentos e a bateu com força. Clichê de todo namorado dizer que “fora o vento que empurrou a porta”, nessa situação.

A Senhora Morte pegou sua afiadíssima foice ao lado da porta em seguida virou para os jovens, ela os encarava com o mesmo olhar que deixou para o roncador vizinho. “Trataria daquele assunto do seu jeito” pensou ela apertando mais ainda a foice entre os seus dedos.