Minilua

Contos Minilua: O amiguinho estranho #52

Bem, e antes de começarmos, deixemos claro uma coisa: O Minilua respeita e sempre respeitará todos os pontos de vista. E mais: respeita todos os credos e claro, todas as visões existentes. Uma boa leitura a todos!

Amiguinho estranho

Por: William Daniel

Uma lenda do nosso rico folclore brasileiro contada de uma maneira que mudará seus conceitos. O Saci pode apresentar-se de outras formas também, inclusive de animais, pessoas normais e até demônios.

Parte 1

Como todas as manhãs, lá estava eu de novo em um de meus treinos de maratona. Não gostava muito de correr pelas ruas da cidade, preferia correr pelas es

tradas de sítios e trilhas pelo bosque. Só dentro do bosque havia mais de 15 kms de percurso por entre árvores, e eu curtia muito estes trechos de cross country, de terrenos acidentados e específicos para treinos de resistência e força.

Há 200m de linha reta de uma estrada do bosque, pude perceber que vinha alguém. Era uma menina de vestido branco. Aproximei-me e notei uma menininha de uns sete anos, loirinha, olhos verdes, com o vestido branco todo sujo e meio rasgado. Ela carregava uma espécie de sacola de couro nas mãos.

Ela parou, olhava para o nada. Vi que chorava em silêncio, então parei e lhe perguntei:
– Olá menininha. O que aconteceu? Você está sozinha por estes bosques? Qual seu nome?
Aos choros soluçantes começou a falar:

– Tio me leva pra casa! Eu quero meus pais! Eles devem estar preocupados, estou desde ontem neste bosque… Com ele… – e me entregou a sacola de couro.
Peguei a sacola de couro e, desconfiado, abri a sacola devagar. Quando vi o que havia dentro, soltei-a no chão e abracei a menina desesperado.

– Mas o que aconteceu? Quem é este homem?
– Ele queria brincar comigo e me fez “beijar” o… – interrompi, já havia entendido o que ela a princípio queria me dizer.
– Não precisa dizer mais nada, apenas acalme-se.
Olhando em meus olhos, ela disse:

– Tio… Estou com medo! Se eu contar, você vai acreditar em mim?
Notava-se que era uma criança muito inteligente, e eu tentava entender todo o horror que aquela menina havia passado.
– Claro! Eu sou seu amigo e quero te ajudar… Fique calma.
– Este homem mau me trouxe de cavalo até o mato, ontem à tarde, quando perguntou se eu queria dar uma volta de cavalo com ele e eu disse que sim.

Peguei meu celular para pedir auxílio à polícia, pensando comigo: “Será que foi ela que, num ato “rato” de força e divina coragem, matou o agressor?”. Enquanto discava, ela continuou, agora mais calma:
– Ele tirou meu vestido, depois ficou pelado… era horrível…

– Maldito!! – Vociferei possesso pela raiva, chutando a sacola com a cabeça cadavérica, tamanha era a minha revolta ouvindo tudo aquilo. Pedófilos merecem o pior dos castigos possíveis!
– E como ele foi assassinado? – Ela continuou:
– Estava quase escurecendo, mas pude ver o meu amiguinho negrinho, de uma perna só, vindo me ajudar.

– O que?! – Perguntei perplexo.
– Sim, tio! O Saci. – Respondeu com naturalidade e inocência.
– O Saci?… Mas como?
Chorando novamente:

– O senhor não acredita em mim, não é mesmo?
– Não é isso… é que eu acho que saci é apenas lenda.
– Não é não, tio. Ele pegou a faca que estava nas roupas do homem mau e cortou a cabeça dele… e ficou me fazendo companhia, dizendo que o senhor apareceria pra me ajudar.
– Eu? Ele sabia que eu passaria por aqui? Mas como?

– Tio, ele fala com árvores e com animais, e eles falam com ele! Alguns coelhinhos e uma coruja também me fizeram companhia. Quando amanheceu, ele colocou a cabeça na sacola e me disse para trazer e mostrar para o senhor ver e para a polícia.
Eu estava confuso. Com muito custo, abri a sacola para ver se conhecia o indivíduo. Não, eu não conhecia o ser maligno. A menina completou:

– O Saci disse que o homem mau estava planejando matar o senhor também…
Quando acabou de falar estas palavras, a menina desmaiou, aumentando a minha preocupação com ela.

Felizmente tudo terminou bem com a chegada da polícia.
Aquilo me deixou um pouco confuso, e à polícia também. A menina foi internada para acompanhamento psicológico e diz que, até hoje, três anos depois, ainda conversa com seu amiguinho negrinho de uma perna só.

O corpo do pedófilo nunca foi encontrado.

Parte 2

Meu nome é Aline. Tenho 14 anos hoje. Sou aquela menininha loira de 7 anos atrás. Aquele episódio de minha vida intriga muita gente até hoje.
Após aquele incidente fui internada para tratamento psiquiátrico, mas felizmente estou bem. Não sou louca; várias vezes durante as tardes eu vou ao bosque conversar com o meu amiguinho, o Saci.

Um grupo de vermes neonazistas levaram isso tão a sério, a pronto de desafiarem a existência desse meu amiguinho quando ficaram sabendo do ocorrido. Suas intenções eram podres. Rudolf, o chefe do grupo composto por quatro neonazistas satânicos me abordou certo dia.

– Salve, irmãzinha. Fiquei sabendo que você tem um amiguinho negrinho de uma perna só… hahahaha.
– É verdade. – Respondi firme.
– Meu grupo e eu queremos conhecê!
– Mas por quê?

– Queremos cortar a cabeça dele… hehehehe. Seria um troféu em nossa honra. Por que você não nos apresenta?
– Mas ele mataria todos vocês. Não deveriam abusar tanto assim.
Eles riram de uma forma que me causou certo nojo.
– Olha mocinha. Sei que sua descendência é alemã, a mesma que a minha. Não deveria ficar por aí conversando com negrinhos aleijados, cortadores de cabeça e que vivem na floresta.

– Meu sangue é ariano puro, mas não sou racista. O nazismo foi uma grande tolice, que até hoje envergonha o povo alemão.

– Hitler foi um grande homem. O povo alemão, todos brancos puros, e também a humanidade devem muito a ele. O povo judeu, assim como negros e todas as outras raças, são pragas que deveriam ser exterminadas para sempre, pois a verdadeira raça humana, a mais pura e superior, é a nossa.

Rudolf tinha a suástica tatuada no lado esquerdo do peito, tocava guitarra em uma banda de Black Metal
Nazista (NSBM). Um desafio ele me propôs:
– Para provar nossa superioridade, topa nos levar ao bosque hoje à noite e nos apresentar seu amiguinho negro aleijado?

Fiquei em silêncio por alguns segundos, pensando. Sei que o Saci não iria me abandonar, mas esses otários iriam pagar caro pelo abuso. Indaguei-os, ainda meio confusa:
– E se ele não aparecer?
– Hahahaha, isso provará a nossa superioridade, pois ele provavelmente se borrou de medo em aparecer para nosso grupo de “lobos brancos”… Ou você, mocinha… Estaria mentindo, né? Mas fique tranquila, não iremos fazer mal algum a você, irmãzinha de raça.

– Está bem. Às nove da noite de hoje. Mas vou logo dizendo, ele ficará furioso e eu não me responsabilizarei por nada.

À tarde, disse para meus pais que eu iria dormir na casa de uma amiga chamada Vanessa, e à noite fui de carro com eles ao bosque.
Realmente eu estava correndo perigo. Uma menina de 14 anos, em um carro com quatro nazistas satânicos, à noite indo para a zona rural da cidade.

Ninguém sabia aonde eu realmente iria, e se algo me acontecesse, ficaria difícil! Para meus pais, eu estava na casa da Vanessa, mas Vanessa não sabia de nada. No banco da frente do carro estava eu, com muito medo e arrependida de ter topado.

O som que eles curtiam no carro não era o tipo de rock que eu gostava e aquela aura infernal me apavorava ainda mais. Eu gosto de coisas como Doors, Janis, Hendrix, Beatles… E também aquela fumaça de cigarro no veículo, estava me sufocando! Eu odeio cigarros… Maldito vício que mata aos poucos. Oh Deus, tenha piedade de mim, como pude ser tão idiota? Agora era tarde para arrependimento. Só me restava confiar que meu amiguinho iria aparecer.

A lua cheia presenciava minha aflição, brilhando linda no horizonte, no final da longa estrada que cortava o vasto bosque.

– Onde podemos encontrar seu amiguinho? – Perguntou um dos caras no banco de trás.
– Acho que aqui está bom – respondi, tentando manter a calma. Ao descermos do carro, uma estranha ventania se iniciou, estendendo-se por alguns segundos e retorcendo as árvores.

– É melhor irmos embora enquanto é tempo. Ele sabe que estou aqui, vocês correm perigo! Por favor, meus pais não sabem que estou com vocês.
Todos riram alto. Rudolf respondeu, aumentando ainda mais o meu medo com suas palavras maldosas:

– É, irmãzinha. A lua está cheia. É noite de orgia! Você será a cadela branca que irá copular com os quatro lobos famintos. O seu amiguinho negro não virá te ajudar! – Ao mesmo tempo em que riam, uivavam para a lua, debochando de minha situação.

– Por favor, me deixem em paz! – E todo aquele horror que passei naquela noite, sete anos atrás, veio à minha mente como um filme, e comecei a chorar.
– Vamos sua vadiazinha. Chame seu amiguinho! Ele é covarde. E, caso ele apareça, cortaremos sua cabecinha preta, hahahaha – vociferou um dos porcos nazistas.

– Não chore loirinha. O problema é decidirmos quem será o primeiro. Rudolf assumiu a frente:
– Eu serei o primeiro, pois eu sou o líder da matilha. É melhor não gritar. Colabore, mocinha, ou as coisas irão piorar ainda mais pra você. – me agarrando.

Ventos tenebrosos se iniciam, retorcendo árvores. Ventos assobiavam sussurrantes gemidos ecoavam pela mata como almas agonizantes, vindas diretamente do profundo abismo infernal. Por entre o bosque surge um redemoinho, com partículas brilhantes de poeira, e de dentro dele surge meu amigo Saci, para a surpresa de meus algozes atônitos que viam a autêntica verdade, que para todos os céticos, eram apenas lendas folclóricas.

Olhos ardentes como brasas. Gorro vermelho, cachimbo no canto da boca. Pelos negros pelo corpo como um lobisomem, e uma perna só com casco de bode, ao invés de pés humanos. Uma tanga feita de ossos de costela humana tapavam seu órgão genital, e aposto que eram os ossos da costela do homem que tentou me estuprar há sete anos.

Ele entoava uma gargalhada sinistra, ao mesmo tempo em que baforava fumaças fétidas como enxofre de seu cachimbo. Realmente ele estava diferente das outras vezes que o vi. Sua aparência era demoníaca, não era assim que eu o conheci; um menino negro de um metro de altura e uma perna só. Dessa vez ele tinha até um rabo que se mexia com movimentos lentos e suaves.

A ventania havia cessado, mas o redemoinho com partículas brilhantes, agora suave também, clareava o local onde estávamos. E olhando com extremo ódio e fúria, ordenou para Rudol:
– Solte-a.

Rudolf boquiaberto me agarrava, olhando para o sinistro Saci. Neste momento, Michael, um dos nazis, corre até o porta-malas do carro pegar um machado, como aqueles da era medieval.
– Solte-a. – Ordenou novamente, sussurrando em tom demoníaco e soltando línguas de fogo pela boca.

Violentamente Rudolf me empurrou contra o chão, ordenando para Michael:
– Me dê esse machado, irei fazer picadinho dessa criatura! Eu queria relatar o resto, mas não me lembro de mais nada. Houve um lapso de memória, em que por volta das 21h45 eu me encontrava no portão da casa de minha amiga Vanessa.

Misteriosamente fui transportada da mata para o portão da casa de Vanessa. Como se não houvesse acontecido nada, eu a chamei e passei a noite em sua casa, como havia prometido aos meus pais. Não contei nada a ela e agi normalmente.

No dia seguinte, uma notícia começou a correr o país:“O Massacre Misterioso de Neo Nazistas em Avaré”.

Algumas fotos vazaram e foram postadas na internet. O machado estava cravado na cabeça decepada de um deles, que provavelmente era Rudolf, mas não tenho certeza, e… Vários pedaços de corpos humanos pela estrada.

Não sei dizer se ele pode ser considerado meu anjo da guarda, ou se outras meninas seriam defendidas também com tal pudor sanguinário, mas de uma coisa eu tenho certeza: estou muito bem protegida. Eu sei a verdadeira história do massacre daquela noite, mas ninguém iria acreditar em mim mesmo. É melhor assim, deixe tudo permanecer como está.

Mistérios intrigantes…