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Contos Minilua: As batidas de um coração #155

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As batidas de um coração

Por: Faceless

 

Talvez me chame de louco, porém, aquilo era mais real que um mero devaneio. Não importava se eu estava a centímetros, metros, quilômetros de distância dele, aquelas batidas roufenhas permaneciam veementes, tamborilando nos meus tímpanos. Eu não podia fugir delas; elas estavam impregnadas na minha mente. Atormentavam-me dia e noite, a todos os momentos.

Quando eu andejava aquém do sol do meio-dia, elas seguiam os meus passos; quando eu já me encontrava em profundo sono, na calada da noite, elas vinham, sorrateiras, e me despertavam. Eu já estava para atingir a loucura – veja bem, eu não a alcancei se é o que pensa – quando decidi fazê-las cessaram.

 Arquitetei um belíssimo plano. Jamais poderiam desvendar os mistérios do homicídio que se sucederá daqui a uns dias. Sim, eu matarei aquele homem, pois esta é a única forma de emudecer seu coração. Dei início ao plano. O começo era simples: persegui-lo sigilosamente, aonde quer que ele fosse. Eu deveria conhecer seus destinos, conhecer as rotas que ele tomava, conhecer os locais aonde ele ia, conhecer as pessoas com quem ele ceava. Ah, como era perfeito o meu plano! Ele sequer percebera a minha presença furtiva, oculta pela sombra dele, enquanto eu o observava minuciosamente.

 Após isto, eu deveria desaparecer por alguns dias. Nossa casa, tão luxuosa e vulgar, seria preenchida com um silêncio mórbido, que atormentaria a alma daquele homem. Eu era o amuleto dele; ele, sem perceber, incumbira-me de vigiar os pórticos e janelas de nossa, aliás, de sua morada pela manhã, e, pela noite, de zelar pelo seu sono. Ah, se ele pudesse sondar os meus planos, jamais teria confiado a mim tais deveres. Pois, quando eu “desapareci”, ele começara a enlouquecer.

Ouvia, de longe, invasores irrompendo pelas janelas abertas de sua casa, sem que estes sequer notassem a vulnerável mansão, suntuosa como palácios arcaicos, ao andejaram rente às grades de ferro, tão vãs, que guardavam o edifício. Pela noite, nos seus sonhos frívolos, ele imaginava assassinos que erguiam punhais contra o seu peito, ou, nos sonhos mais ousados, serpentes envolvendo-se no seu corpo desprotegido, vergando seus ossos. Sim, sim, ele estava beirando a loucura!

 Então, eu ressurgi das cinzas. Aliás, eu sequer desaparecera. Eu estava por perto, espreitando meu alvo dia e noite. Eu deleitava-me da visão de sua loucura, e compartilhava da dor que ele sentia. Entretanto, esqueci estes prazeres ao ver o terno sorriso e os olhos lacrimejantes que vieram abraçar-me. Enraiveci-me, estava prestes a mata-lo ali mesmo. Entretanto, dominei a mim mesmo, pois eu deveria aguardar o momento oportuno, que haveria de chegar. E chegaria logo, talvez em três noites, até!

Assim, pus em prática a última parte. Finalmente em paz, ele poderia repousar tranquilamente, pois eu estava ali para “guarda-lo”. Eu dormia num quarto contíguo ao do homem que eu haveria de matar. Nossos quartos eram interligados por uma pequena porta, e era por esta mesma porta que eu invadia cautelosamente o quarto do homem. Na primeira noite, detive-me a permanecer recostado na parede, ao lado da porta, apenas observando a escuridão.

Na noite seguinte, aproximei-me mais, ficando entre a cama e a porta. Desta vez, eu já portava um candelabro, este que alumiava o quarto obscuro. E então, na terceira noite, eu havia me aproximado o bastante da cama para poder descansar meus braços nas beiradas dela. Apaguei as velas do candelabro e o pus embaixo da cama, enquanto gentilmente desembainhei uma faca. Eu não precisaria da tênue luz para guiar a lâmina, pois aquelas batidas desprezíveis o fariam.

Concentrei-me um pouco, e então propeli a lâmina contra o peito do homem. Um gemido abafado, gélido e sem vida galgou pelo ar, reverberando e rapidamente dissipando-se. Senti as gotas escarlates do sangue fresco mancharem minhas vestes e minha face. E finalmente, eu pude descansar, pois aquelas batidas, as batidas do coração daquele homem haviam cessado! De uma forma letárgica e deleitosa, eu as acompanhei até o último acorde.

 Retirei a faca do tórax do cadáver, e carreguei-o lentamente até a lareira, aonde queimei aquele corpo inútil. Pelo restante da noite, pus-me a apagar os vestígios do crime; lavei o sangue, troquei as cobertas da cama e queimei as manchadas e vendi a faca. E de fato, meus atos foram impecáveis, pois, dias depois, quando investigadores vieram-me questionar sobre o homicídio ocorrido na minha residência, eu lhes dissera que o velho havia viajado e lá falecera. Mostrei-lhes uma carta, produzida por mim, que tornava verossímil a história que eu contara.

Ah, como eu caprichara nas insignificantes minúcias da escrita! Tornei as letras da carta completamente diferentes das minhas letras normais para não haverem quaisquer provas contra mim! Como fui astuto, como fui sábio! Poderia um homem que se encontra em estado de loucura cometer um crime tão estupendo como este? Ah, não, óbvio que não!

 E então, ainda me chama de louco?