Minilua

Contos Minilua: Beatriz #26

E neste primeiro conto, uma das histórias mais tocantes que já recebi. Sua protagonista, uma doce e inquietante criancinha. Uma boa leitura!

                                                                 Beatriz

Por: Carlos Eduardo de Mello

Ela corre pelo jardim e seus cabelos morenos ondulam de forma graciosa. Passinhos curtos são distribuídos aleatoriamente sobre a grama baixa naquelas poucas horas de um dia como outro qualquer. A luz fraca da manhã, combinada com a brisa calma e o sol que mal encosta na pele, para uma criança, é uma coisa tão deliciosa quanto um sorvete de morango. Uma pena é que elas mesmas não percebem isso.

O pai, sentado na cozinha e mordiscando algo que estava em cima da mesa,  observa a filha correr pelo jardim como uma atleta, provavelmente atrás da bola amarela que sabe-se lá como, veio parar no quintal dele. Era provável que algum vizinho a chutara forte o suficiente para cair ali e esquecera de voltar para pegar. O interessante disso é que Beatriz gostou do novo brinquedo e agora passava boa parte do dia com ele, debaixo do bracinho, levando de um lado para o outro.

Esporadicamente tentava um chute meio sem jeito, mas que melhorava a cada nova tentativa. Até puxava o pai pela mão quando desocupado para brincar de bola um pouquinho. Ele, claro, jamais negava. As bonecas magricelas e de cabelo vagabundo ficaram de lado, afinal.

Beatriz encontra a bola atrás do carro do pai e abaixa-se para pegar. Largada ali desde o dia anterior, o pai não sabia como a menina esquecera a bola ali fora. Bia murmura algo incompreensível para qualquer outro que pudesse ouvir, menos para ela e a bola amarela, a qual a menina coloca debaixo do braço direito e volta correndo direto para onde deixara seu pai tomando o café da manhã. Ela chega até a cozinha e seu pai sorri para as bochechas vermelhas que a filha ganhou na corrida.

– Papai! Bola! – ela estende os dois bracinhos com a esfera de borracha na extremidade­­­s, que a maioria das pessoas conhecia como mãos. Mas ela sabia disso?­­­­­­­­

O homem sorri. Ele  toma a bola e sabe que é um objeto tão leve que parece ausente de qualquer massa. O homem quer muito desperdiçar aquela manhã e todas as outras com a filha, brincando e se divertindo também, porque não? Os deveres como adulto o chamam e é isso o que impede de continuar com a bola em suas mãos, pegar a garotinha nos braços e viver com ela cada dia como se fosse o último. Não se pode ter tudo.

Dali a alguns minutos, sua esposa acordará e o processo será o mesmo, ele sabe. Ela virá se aprontar para seu trabalho, e pelo resto do dia Beatriz estará aos cuidados da moça que encontraram para olhar a filha por eles. Não que os dois gostassem da idéia de largar a filha aos cuidados de uma estranha qualquer que encontraram pelo anúncio no jornal; mas era o melhor que podiam fazer.

A menina sabe que está chegando a hora e sente isso quando o grandão à sua frente lhe devolve a bola e torna os cabelinhos morenos dela num emaranhado entranhamente gracioso de fios.  Ela vê a mãe chegar e a pede colo. A mulher beija o homem carinhosamente, este sendo claramente o gesto de bom dia dos dois. Beatriz vê a cena e tenta reproduzir, atingindo seus minúsculos lábios na orelha direita da mulher que possui um nome que ela ainda não consegue pronunciar, e mesmo assim quando aprender, pouco usará. Para Beatriz, ela sempre será a sua Mãe.

O pai e a esposa devidamente prontos esperam pela chagada da adolescente que será os olhos dos dois até o limiar entre a tarde e a noite. Não demora muito e a campainha toca. Logo Beatriz está com sua única amiga, apesar da garota mais velha se sentir um pouco incomodada quando perto da jovenzinha. E lógico que em nenhum momento relatara tal desconforto aos patrões. Dinheiro fácil e rápido não se queimava, não senhor.

Boca fechada e carteira cheia. Era lema dela. E Beatriz parecia gostar da menina, apesar da moça não dar muita atenção a ela e jogar bola apenas um pouquinho, preferindo ficar assistindo TV- um olho no aparelho e outro em Bia – ou no telefone – fone no ouvido e os dois olhos em Bia.

Sozinha com a criança após despedir-se do casal, Tha se encaminha para a sala e liga a grande TV para assistir à qualquer coisa que fosse transmitida naquele horário. Se jogou no sofá descalça, com tanta intimidade quanto os donos da casa não têm. Ainda teria longas horas pela frente até que a mulher da limpeza chegasse ou que os donos da casa chegassem. Então era procurar algo para ocupar o tempo. O que não é fácil, considerando o trabalho de olhar por uma criança de quase dois anos de idade.

Beatriz não falava muitas coisas inteiras, a idade não permitia ainda tal desenvoltura. O que ela conseguia era no máximo o nome dos pais com substituições de algumas letras fundamentais, alguns animais, Bola e Tha. Tha era o nome que a babysitter ganhou de Bia. Seu nome verdadeiro era Thaís, mas qualquer relação humana funcionava melhor com apelidos. Isso, qualquer criança, no seu próprio modo, entende.

Portanto a moça não estranhou quando ouviu passinhos leves seguindos de uma vozinha chamando seu nome. Tha, sentada no sofá, mal se levantou e Bia entrou em disparada saída do corredor, e respirando pesado por causa do esforço.

– Bia, o que aconteceu?- Tha desce do sofá e ajoelhou perante a garotinha das bochechas momentaneamente vermelhas pelo esforço. Ela olha para a que estava ajoelhada e em uma palavra, diz o que queria ali com ela.

– Vem! – dito isso, ela volta em disparada de onde ela tinha vindo na mesma velocidade. Crianças, não as entenda, ame-as.

Por um segundo, Tha pensa em deixar a garotinha para lá e voltar para o desenho animado que passava naquele momento. Ainda não eram 9 da manhã e ela já imaginava que a festa estava começando. Porém, a garotinha pareceu nervosa, um estado um pouco incoerente em uma pessoa daquela idade. Tha não acredita ser realmente sério o que está esperando por ela, ou mesmo que tenha acontecido algo, mas o que ela não contava era que seu senso de responsabilidade acendesse dentro de si como uma lâmpada. Ou como uma má idéia.

Bia correu e saiu pela porta dos fundos da cozinha, a que dava para o quintal, a mesma pela qual seu pai a observara buscar pela bola mais cedo naquele mesmo dia. Agora Tha observa a menina adentrar o jardim e chegar proximo à um pequeno e bonito arbusto com flores cor-de-rosa nas pontas. Tha não acredita ser apenas aquilo que Bia quer que ela veja, e por isso mesmo chega até o lugar onde a menina pára e aponta com o dedo indicador alguma coisa escondida ali no meio das plantas. A princípio, nada para se ver. Apenas mato. Só isso.

– Amiguinha, pare com isso. Não tem nada aí… Vamos vol…

– Passa-inho!- Bia interrompe o que Tha ia lhe falar. Ela falaria algo como “vamos voltar e sentar para ver desenhos lá com a Tha?”, ou “vamos voltar e desenhar com a Tha?”, mas Bia, obstinada, continua apontando seu dedo para o arbusto ─ Passa-inho!

Thaís entende que ela quis dizer “passarinho”. Ali? Abaixa-se para conferir e provar a si mesmo que nada lá havia, quando finalmente vê. Havia mesmo um pássaro ali. Pequenino e de um tom azul próximo à cor do céu naquela manhã. A confusão de plantas a impedira de ver o que Bia apontava, mas é claro. A garotinha com um metro ou menos de altura veria muito melhor o que estava no chão, pois de fato estava mais perto do chão. O passaro estava lá. O único problema é que aquele pequeno ser não mais voaria e nem cantaria. Não tinha mais vida. Estava morto.

Não era algo tão sério, afinal de contas. Tha respirou fundo de alívio quando descobriu finalmente o que a criança queria mostrá-la e não pôde conter o riso achando-se tola por dar ouvidos demais a um bebê! Veja só!

Bia observa Tha, que ainda está de joelhos. Os olhinhos acompanhando cada movimento da moça grande, desde que ela ajoelhara até quando já estava de pé outra vez e pega sua mão. Tha toma a mãozinha da menina querendo levá-la de volta para dentro, e, se possível aos brinquedos, mas sente uma objeção vindo de baixo.

– Passa-inho! Vuar! -diz Bia, numa altura de voz entre o silêncio e o sussurro. A essa altura, a bola amarela estava totalmente esquecida num canto do jardim. Agora o que importava era o Sr. Passa-inho.

Tha sentiu a voz da menina. Não era como simplesmente ouvir, mas sentir tudo o que Bia sentia através da vozinha dela. Ela queria que o bichinho tomasse de volta seu lugar e batesse suas asas tantas vezes quanto possível. Tudo transmitido assim, através das poucas palavras que a menina usou.

Ali de mãos dadas, as duas formavam um belo par. Pareciam até irmãs, se algum desconhecido quiser formar alguma opinião sobre elas paradas olhando para chão, concentradas. Tha ajoelha-se uma vez mais, desta vez segurando Bia pelos braços à altura dos ombros, como se fosse dar um sacolejo nela. O que ela queria mesmo era sair e levar Bia consigo.

– Bia, vamos voltar lá para dentro… – a voz de Thaís era calma e com leves toques maternos, até.

– O passa-inho tem qui í pu céu – retruca a menina.

Tha pensa que, de certa forma, ele realmente fora para o céu. Como explicar isso? Como não ferir a doce inocência de uma criança a respeito da tragédia da morte?

– Ele não pode meu bem… Ele… – não havia palavras. Bia desvia os olhos para o Sr. Passa-inho e sua imobilidade azul, o bico aberto e as asas fechadas. Gotículas se formaram no canto do olho esquerdo da menina e podia-se ver o pequenino queixo tremendo de leve, bem de leve. Tha não sabia o que poderia ser feito.

Bem, na verdade ela tinha uma idéia, mas não sabia exatamente como concluí-la. E decidiu, por fim, levá-la a diante. Para tanto, precisava do consentimento da pobre garotinha. Thaís tirou a lágrima que escorreu pela bochecha da menina com o polegar e sorriu meio sem jeito.

– Bia, você conhece o Papai do Céu?

Ao ouvir aquele nome, a garotinha, balança a cabeça. Ela não conhecia aquele nome.

– O Papai do Céu mora lá em cima, no céu ─ Tha aponta com o indicador para cima e escolhe com muito cuidado as palavras – Ele é um moço muito bom, e todo as pessoas querem estar perto dele.

Tha espera Bia compreender cada palavra do que diz, não achando que ela vá realmente pegar a idéia da coisa. Ela é muito nova para estes conceitos complexos, mesmo explicando de um jeito simples, o mais simples possível.

– No céu? ─ Bia imita o gesto de apontar para cima- É?

– É… e todos nós um dia iremos para perto dele, porque ele ama a gente… Como nosso papai. – Tha, particularmente, gostou da explicação. O problema é que a pior parte estava se aproximando – E o passarinho está agora com Papai do Céu. Está lá em cima com ele.

Com um testa franzida demonstrando estar processando cada informação cuidadosamente, Bia compreendia o que ela falava. Do seu próprio jeitinho, puro e inocente. Thaís estava satisfeita consigo mesma e agora precisava terminar aquilo. Olhando em volta, ela logo encontrou o que precisava: uma pequena pá, verde e aparentemente de aço, talvez usada pelo pai ou mãe de Bia para cavar e plantar algumas coisinhas no jardim, como aquelas rosas que ficavam mais no canto perto da garagem.

Ela se levantou e foi buscar o objeto, mas ela precisava de mais uma coisa para que aquela situação chegasse ao fim. Apenas uma cova de tamanho suficiente para que nela fosse depositado o pequeno morto alado. Só isso, e tudo estaria acabado. E poderia voltar a assistir desenho. O que estava passando mesmo? Não se lembrava mais.

Tha ajoelha-se na grama baixa do jardim mais uma vez e faz a primeira marca no chão com a pazinha. A terra era fofa, bem diferente do que moça esperava, já que foi com firmeza, rendendo um buraco maior do que esperava logo na primeira cavada. Com duas ou três outras, o pequeno túmulo já exibia um tamanho considerável e já se podia colocar o animalzinho lá dentro. Bia acompanhava tudo em silêncio e bastante concentrada. Não queria perder um só momento do que acontecia em seu próprio jardim. A lágrima solitária que escorrera em seu rostinho agora não existia mais.

– Prontinho Bia. Agora temos que guardar o passarinho aí dentro. – Tha não tinha explicação para o porquê deviam colocar o bichinho ali dentro. Mas ela acreditava que não importava muito. O pássaro azul jazia ali perto, a uma distância não maior que um braço, e Tha apenas esticou o seu, repousando a mão sobre ele. Ela percebe o corpinho mole e sem vida em sua mão, sentindo o quão frágil é. Era a primeira vez que ela fazia um enterro.

Bia ajoelha-se do lado da amiga maior e a vê pegando o pássaro e aninhando-o em suas duas mãos, em forma de concha. A garotinha abaixa os olhos e imita o gesto juntando as duas mãos. Ela também quer segurar o pássaro em suas mãozinhas e dar adeus à ele. Se ele ainda pudesse ouvir. Bia reluta um pouco, mas estende os bracinhos para Tha com as palmas viradas para cima, gesto universal de quem pede alguma coisa.

A moça olha para o que carrega e não sabe se deve ou não fazer o que Bia pede. Talvez pudesse. Que mal faria? Pensando nisso, Tha deposita com cuidado o pássaro nas mãos da garotinha.

Como nada na vida é previsível, algo totalmente inesperado acontece. Tha apenas olha, certa de que jamais vira coisa parecida. Bia olha o pássaro com tanta ternura como só uma criança o faria e aproxima-o dos lábios. A moça sabe o que vai acontecer, só não acredita. Bia sela um beijo em cima de uma das asas sem vida do pobre pássaro e faz um carinho com uma das mãos, como se acarinhasse um filhote de cão. Continua a olhá-lo por alguns segundos e então devolve-o à Thaís.

Cova feita, era hora da viagem final do pobre pássaro. Mas espere. Alguma coisa está errada. Thaís sente alguma coisa em suas mãos. Claro que sentia, o animal morto está lá. E mesmo assim sentia algo se mexer em suas mãos. Poderia ser algum tremor involuntário, isso era comum, mais do que se imaginava. Mas não.

Seu subconsciente não queria acreditar, não ia acreditar e nem seus olhos queriam ver. Ela só queria botar o bicho na sua cova e jogar a terra em cima, selando tudo. O movimento em suas mãos ficou mais intenso e tudo o que havia em sua mente era num vácuo total de pensamentos.

Ela fechou os olhos não querendo ver o que iria acontecer, e se virasse os olhos para as suas mãos, veria uma asinha azul escapando por entre dos dedos. O pequeno ser fazia tanta força para escapar daquela prisão de ossos, carne e sangue que, por fim, conseguiu se libertar. Bateu as asas com certa velocidade e ganhou o céu azul quase da própria cor de suas penas, deixando para trás Thaís e Bia.

A moça abriu os olhos no momento em que o bichinho se fundiu com a imensidão que era o céu naquela manhã. E, por fim, só ouviu uma coisa ao seu lado, uma vozinha fina de menina com uma alegria que era incapaz de guardar dentro de si:

– Passa-inho! Passa-inho!                                                 

                                                                    

                                               4 de Fevereiro de 2011