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Contos Minilua: Debaixo da cama #184

E sim, para participar, não tem mistério. Para tal, envie o seu texto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Debaixo da Cama

Por: Ninno Darcq

Todos nós sabemos que quando apagamos as luzes nossos olhos se adaptam à escuridão, e aos poucos podemos voltar a ver parcialmente os contornos e as silhuetas das coisas a nossa volta. Sabemos também que nossa mente é capaz de nos pregar inúmeras peças, fazendo-nos ver o que não existe ou ouvir coisas que não fizeram nenhum barulho. Pois bem, não sei se o que contarei a seguir de fato aconteceu ou se tudo foi gerado na minha fértil imaginação.

O ano era 1999, mais precisamente a noite de 31 de outubro, eu tinha 11 anos, mas tenho pesadelos até hoje, com tudo que presenciei naquela noite.  Por morarmos na zona rural, não tínhamos conhecimento dessas coisas de dia das bruxas, ouvíamos vez ou outra algo ser comentado na TV mas eu nunca tinha levado a sério, até aquela noite.

Como fazia todos os dias, fui me deitar cedo, pois tinha corrido pra lá e pra cá o dia inteiro, era uma época em que garotos de 11 anos ainda brincavam de bola na rua, apostavam corridas, pique esconde, essas coisas que sempre nos deixava cansados depois do banho. Meus pais também dormiam cedo, por tanto nem sei quanto tempo dormi, sei que quando acordei estava tudo quieto e escuro, quieto e escuro demais.

Fazia uma semana que eu ganhara uma beliche para meu quarto, era a primeira vez que eu dormia em uma, e pra mim, era uma aventura dormir na parte de cima. Mas naquela noite se tornou o pior dos meus pesadelos. Quando acordei, fiquei olhando o escuro, esperando que minhas vistas se adaptassem, daí ouvi um chiado no lençol da cama de baixo. Que estava vazia. Me arrepiei todo, e fiquei completamente imóvel, pra ter certeza de que tinha ouvido direito, não queria ficar com medo à toa.

Meu silêncio foi o suficiente para incentivar o barulho a continuar, e agora eu tinha a certeza, havia alguém na cama de baixo, era aquele chiado de quando a pessoa se mexe na cama. Eu olhei em volta, tudo parecia estar no lugar, mesmo estando escuro, a janela de vidro permitia que a claridade vinda de fora adentrasse no quarto, ainda que não fosse uma luz direta, tinha uma certa luminosidade que permitia ver perfeitamente o contorno da janela e o lado de fora através do vidro, o céu estava claro por causa da lua cheia que deveria estar despontando no horizonte àquela hora.

O chiado na cama agora veio acompanhado de um leve suspiro, como se alguém estivesse dormindo e acordasse. Fechei os olhos. Temos a falsa impressão de que de olhos fechados podemos escutar melhor, mas quando os abri, havia uma cabeça me olhando pelo vidro da janela. Gritei pela minha mãe.

Quando minha mãe chegou, segundo suas próprias palavras “eu estava branco igual uma vela e com os olhos esbugalhados”. Após relatar o que tinha ocorrido, sem nem mesmo sair da cama de cima, ela me disse que não havia nada ali na cama de baixo, e me mandou dormir. Me dando um beijo na face ela virou as costas e saiu, apagando a luz novamente, eu tive vontade de chorar, mas achei que depois dela ter aparecido aquilo pararia. Engano meu.

Os chiados continuaram, e agora ele sabia que eu estava acordado, e o que era apenas um chiado e um leve suspiro tornou-se uma respiração rítmica, eu me encolhi o máximo que pude no canto da cama, colado na parede, e virado de frente para a beirada. Eu evitava olhar para a janela, e se aquela cabeça ainda estivesse lá me olhando?  Preferi fechar os olhos, e se essa coisa que está aí em baixo quiser me pegar?  Abri os olhos novamente. Estava escuro mas deu pra ver que havia algo diferente no cenário, uma mancha preta na beirada da cama, que não estava lá antes de eu fechar os olhos, fui olhando para aquilo, e quanto mais eu olhava mais nítido aquilo parecia na minha frente, mas eu só fui ter certeza quando se mexeu. Uma mão. Gritei novamente.

Minha mãe demorou um pouco mais do que da primeira vez, e enquanto ela não vinha, aquela mão ia se tornando um braço, que vinha vagarosamente na minha direção. Mas parou e se recolheu rapidamente quando minha mãe abriu a porta. Já chateada por eu estar atrapalhando seu sono ela entrou nervosa e parou de pé do lado da minha cama, olhou novamente de forma exagerada para a cama de baixo depois me encarou com os olhos vermelhos de sono, mais irritada, e disse que não tinha nada lá, que eu podia olhar, mas eu tinha medo de me curvar pra ver o que haveria na cama de baixo, e, após ela muito insistir, eu me curvei, tremendo de medo…

Gritar era algo impossível naquele momento, senti todos os músculos do meu pequeno corpo se amolecerem, quase caio do beliche. Quando me curvei, estava lá uma criatura hedionda, um ser horrendo com o corpo coberto de pêlos negros, e com o dedo indicador sobre a boca, me mandando ficar calado, tinha um olhar diabólico e um sorriso de dentes pontudos que o deixava ainda mais aterrador. Não havia nada no mundo que eu conhecia para comparar com aquilo.  Minha mãe disse irritada: “está vendo?” (Sim eu estava vendo, mas ela não) “não tem nada aí, trate de dormir e pare de ficar gritando no meio da noite!” Depois disse a única frase que eu não queria ouvir naquele momento: “eu não vou vir mais aqui.”

Minha mãe saiu do quarto me deixando sozinho com aquele monstro na cama de baixo, eu fiquei imóvel, não sabia o  que esperar, agora que ele sabia que eu estava acordado. De repente ele se mexeu lá em baixo e meu coração disparou. As luzes já estava apagadas, mas a claridade fraca do céu noturno já alimentava parcialmente o quarto, eu apenas ouvi o chiado do lençol e a cama tremeu um pouco. As lágrimas começaram a brotar dos meus olhos, e o pavor que eu sentia naquele momento não pode ser descrito com palavras, ele estava se levantado.

Vi quando ficou de pé por completo, aliás, vi apenas o contorno, pois seu corpo era negro como piche, ele andou até o guarda-roupa e parou bem na frente dele, olhando pra mim. E ficou ali imóvel, assim como eu, que não dava-lhe as costas, nem fechava os olhos, apenas o olhava apavorado esperando que ele viesse até mim a qualquer momento. Ficamos assim por longos minutos. Horas.

Até que o primeiro galo cantou na vizinhança e o céu começava a ficar azul e claro, me distraí por um segundo olhando para a janela, quando me lembrei do monstro minhas vistas voltaram rapidamente para onde ele estava, mas em seu lugar apenas estava meu velho casaco preto, deixado pelo meu avô quando morreu, casaco esse que, por eu nunca ter usado, ficava dentro do guarda roupa, agora estava pendurado do lado de fora, na maçaneta da porta do guarda roupa. E não havia vestígios de monstro naquele quarto. Teria sido tudo um sonho? Ou paranoia da minha cabeça? As perguntas me acompanharam durante todo o dia, mas o medo tomou conta enquanto a noite se aproximava novamente…