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Contos Minilua: Dois minutos para a meia noite #221

Pois é, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu conto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Dois minutos para a meia noite

 

Por: Gabriel Painkiller

Faltava apenas dois minutos para a meia noite, eu podia ouvir dois sons, o primeiro de um vizinho bêbado escutando “Stairway to Heaven”, e o segundo de uma criança tagarelando, a lua se mostrava pela metade, e na minha cadeira de balanço eu pensava na vida… Com apenas 17 anos.

É incrível como, mesmo com tão pouca idade, eu tenho tantas histórias e experiências para contar, talvez devido ao meu olhar crítico, talvez seja algo do qual todos passem, mas começando pelo inicio do ensino médio, olhando para traz vejo o quanto eu era uma criança fútil, dando meus primeiros passos e tropeçando na maioria.

De inicio, as festas de quinze anos e idas ao shopping com os amigos eram tudo, depois disso eu podia passar horas jogando e depois assistir algumas séries no computador, a vida se resumia a isso e a presentes no natal, não importava o quanto se pagava de energia ou mesmo o preço dos meus caprichos, eu simplesmente acreditava que ganhava por que merecia então minha mãe simplesmente teria condições.

Como algumas crianças tentavam praticar bullying comigo “por ser mais inteligente que a maioria” eu sempre acreditei em um final feliz, nesse caso, não era uma pessoa, mas sim uma universidade, o ITA. Eu acreditava que a vida me devia isso, que meu sofrimento seria recompensado dessa forma, sem nunca ter tido uma namorada (mas claro que eu me divertia de vez em quando, se é que me entende) eu só pensava no quanto eu seria feliz, na maior universidade para engenheiros do Brasil.

E agora vem a melhor parte de todas, o convênio! Dessa vez eu estava empolgado, minha vida tomaria um rumo a partir daquele ano, eu sem dúvida passaria num concurso militar, era aquele meu final feliz, era minha hora de fazer a diferença… Mas antes, um flashback da minha vida:

Na quinta série, vendo uma corrida na televisão eu pensei em como aqueles carros eram extremamente elaborados, as pessoas por trás daquilo deveriam ser extremamente competentes e inteligentes, os engenheiros mecânicos, aquilo parecia ser essencial para a humanidade, parecia ser a forma de eu finalmente fazer a minha grande invenção científica, meu lugar ao sol tomava aquela estrada. No mesmo ano eu decidi que queria ser militar, um sonho infantil, mas que continuou comigo por muito tempo.

Minha mãe se separou de meu pai no mesmo ano em que meu avô nos abandonou, e meu tio se casou e saiu de casa, éramos apenas eu, minha mãe e minha avó, meu pai sempre ajudou com o pouco que podia, enquanto minha mãe tentava passar no vestibular, e ganhava dinheiro entregando panfletos, vendendo tranqueiras de porta em porta, enfim, nos sobrevivíamos daquele jeito. Com muito esforço ela conseguiu se formar, nos sustentando com estágios, e eu via o quanto era importante entrar numa universidade graças a ela. Com muita luta ela acabou virando uma funcionária pública, um trabalho estável.

Minhas “habilidades” sempre me permitiram ter um pouco mais de “virtude” que a maioria de meus colegas de sala, e isso sempre me fez crer que eu deveria explorar meu potencial ao máximo, por que não fazer o melhor curso da melhor universidade? O sol era o limite, era uma questão de acreditar e alcançar o arco íris. (aqui termina o flashback)

Cronologicamente falando, a partir da oitava série até hoje seria:

Oitava série

Como sempre, algumas crianças não gostavam de mim, tentando me fazer sentir mal por eu ser um pouco mais inteligente, eu simplesmente pensava que seria alguém melhor que eles algum dia, um gênio, e do alto, nem sequer me perguntaria onde aquelas pessoas estavam e eu esperava pacientemente chegar o dia de eu ser alguém importante, a vida me garantiria isso, eu tinha certeza que dias melhores viriam, o dia em que eu finalmente seria alguém.

Primeiro ano

Como no ensino fundamental, eu não precisava estudar em casa, tardes e tardes no computador, na televisão, vídeogame ou tocando guitarra, era a época das festas de quinze anos, do cineminha com os amigos, uma época inocente, divertida, mas ainda assim algo estava errado, meus amigos eram infantis demais, eu me sentia muito mais maduro que aquilo, a vida deles se resumia a fotos no Facebook e outras coisas fúteis, agora acho que eles deveriam pensar o mesmo sobre mim, enfim, tudo aquilo já passou, uma boa lição que eu aprendi no primeiro ano foi que tudo tem seu tempo, tempo de ser uma criança boba, tempo de ter esperança, tempo de perder todos os seus sonhos, pois a realidade lhe esmaga, infelizmente, muitas vezes na vida ninguém respeita isso.

A essa altura minha mãe tinha um namorado na empresa onde trabalhava, eu me sentia meio de lado e por causa disso aprendi uma coisa ainda mais valiosa, o simples ato de fingir que não se importa, e, em longo prazo acabar não se importando, (sim, nos filmes de comédia romântica, o cara acaba descobrindo que é uma pessoa vazia no final das contas, e depois de pegar a população da Micronésia em supermodelos ele acaba recomeçando com a mulher ensossa, bom, use essa arma de vez em quando e procure não ser muito egoísta, assim ela será sempre eficiente, e lembre-se, sua vida não é um filme). No final das contas, eu simplesmente não me importava tanto com nada, me tornei uma pessoa fria, calculista, e isso era ótimo.

Segundo ano

Aprendi muito sobre o sexo oposto nesse ano, conheci uma menina que fez muita coisa para que eu pensasse que ela era afim de mim, para no final das contas me dar um fora e se gabar para as amigas… Não faz sentido, mas é o que aconteceu. Conheci uma garota, em cujos (porra, eu escrevo bem olha…) dois dos meus grandes amigos estavam afim, e ambos levaram foras sucessivos, múltiplos, o que claro, por eu não colocar pelos pubianos na frente dos amigos me deixou meio desconfiado quanto a me aproximar dessa moça, felizmente tudo foi ocorrendo naturalmente, inclusive o fato de ela voltar com o ex, eu me aproximar de outra, ela me tratava de um jeito especial.

Sem me julgar, sempre brincando, às vezes flertando um pouco, e assim passamos alguns meses até que me veio a notícia, ela iria viajar, pois acabara (eu sei conjugar nesse tempo e você não!) de terminar com o namorado, mas que namorado? Arrumei coragem e me confessei, falei o que sentia e a resposta foi não, e dessa forma eu aprendi que se você ama alguém, deve deixa-la partir, e a pior parte de deixar alguém partir é dizer adeus.

Eu continuava me achando mais maduro que os outros, então veio a surpresa, minha mãe deu a luz uma criança, seu ex-noivo não era uma boa pessoa, e eu me preocupava muito com o exemplo de paternidade que aquela criança teria, um mau caráter, mas ao ver seu olhos… Aquele bebê tinha algo que eu não conhecia, tão indefesa, tão bonita, realmente uma criança amável, com um ano já é a alegria da casa, um motivo para acordar de manhã, não sei se são sentimentos paternais, mas pela primeira vez eu me preocupo com mais alguém que não eu mesmo.

E convenhamos, é muito difícil, nunca vi tantos objetos aparentemente inofensivos se tornarem armas mortais em potencial, quinas de mesa, brinquedos com pontas, pontas, pontas e mais pontas, tomadas, e fora as coisas infinitas variando de insetos á excrementos que a criança pode engolir… Muito com o que se preocupar, mas o sorriso daquela criança era muito gratificante.

Convênio

Último ano de ensino médio, schools out, eu pensava, agora estava numa turma ITA-IME, era a minha chance de chegar a algum lugar na vida, esperava que todos no convênio, independentemente de turma, possuíssem a mesma mentalidade (de fazer sacrifícios, e se matar de estudar) que eu tinha…

Ledo engano… Eram as mesmas pessoas do primeiro ano, alguns se comportavam como crianças da terceira série: deselegantes, despreparados, egoístas… Para falar a verdade, agora eu sei que a humanidade é assim, independente de idade, cor, todos somos assim…

Mas no meio de tantos excrementos, encontrei uma flor, aquele rebolado, aquela personalidade, parecia a garota perfeita, com seus fones de ouvido ouvindo Metallica… Mas, pela primeira vez, eu realmente estava apaixonado, e isso realmente era uma droga, aquilo me assustava, eu estava à disposição de alguém, assim como um escravo, isso comprova que o amor realmente leva um homem para a sepultura…

Então eu tomei a decisão de não tentar nada com essa menina, ela seria apenas minha amiga, afinal de contas já havia outra demonstrando interesse por mim, e os meses se passaram, eu me sentia cada vez mais envolvido por essa menina e ela por mim, ia tudo muito bem, eu estudava e passava o tempo com aquela garota, era ótimo, podia dizer que daquele jeito, uma hora eu acabaria esquecendo quem eu realmente amava.

A vida tem certas particularidades, e aconteceu de essa pessoa ter me trocado por outro, então o que fazer? Tomar um porre ouvindo “Since i’ve been loving you” ou “Trust”? Sem dúvida, pois há essa hora, a garota que possuía o meu coração já tinha outro, ou seja… Estava foda, então eu resolvi continuar o que estava fazendo, andar com outras para esquecer a primeira, estudar e estudar, levar a vida desse jeito era o certo a ser feito, outro revés veio com a prova da AFA, ou eu sairia com uma fulana, ou estudaria para a prova… E advinha, eu estudei, e não passei na prova, a garota volta com o ex, e eu fico sem nada… De novo.

Estudar ainda parecia ser a salvação, mas com o final do ano chegando, eu resolvi confessar o que sentia uma tarde eu a chamei para conversar, me expliquei e simplesmente falei o que sentia, sem medo do que viria a seguir, que foi um grande não, diga-se de passagem, ela tinha outra pessoa, mas ainda assim eu notei seu coração batendo mais rápido, respiração ofegante e pupilas dilatadas, o que pode ser um sinal maior de interesse em uma pessoa que pupilas dilatadas? Eu estava convicto de que ainda tinha chances com ela, talvez outro dia, talvez fosse apenas uma questão de tempo e aproximação, ela aparentemente já havia me mandado sinais de interesse, apenas não eram o lugar e hora certos. Foi quando pude escutar, acidentalmente, uma conversa entre ela e uma amiga:

– Ele falou comigo… Sabe como é…

– E por que você não deu uma chance para ele?

– Haaaa, por que não…

Como eu devia interpretar isso? Resolvi ir direto a fonte, e ela me olhou… Após eu dizer o que sentia e expor tudo isso, ela me olhou com nojo nos olhos, tinha raiva de mim, aquilo era ruim, mas eu escolhi não me importar, a prova do IME estava chegando, aquilo era mais importante que meus sentimentos, aquilo era o objetivo, era minha hora chegando, todo o estudo e preparação, valeriam a pena, sai da prova sabendo que tinha feito algo bom, sabia a matéria, tinha feito as questões, era só correr para o abraço, finalmente eu teria meus dias de felicidade, finalmente eu teria orgulho de mim mesmo, poderia dizer que cheguei onde queria, mas não passei, era simples assim, não passei, aquilo foi a pior coisa que já havia acontecido na minha vida, ao corrigir meu cartão resposta…

Não passei, eu estava com vergonha, me sentindo um inútil, fora tudo em vão, não conseguia me olhar no espelho, não conseguia fingir que estava bem… Três dias seguidos de choro e aflição, pensei em me suicidar, pensei em viajar, começar a trabalhar…  Nada daquilo mais fazia sentido, nada, eu estava frustrado, estava depressivo, não via mais motivos para sair da cama.

Com o passar do tempo arrumei coragem para ver a resolução da prova, não acreditava nas besteiras que errei, era como se o mundo tivesse conspirado para eu errar tantas trivialidades, agora não importa mais, fui conversar com minha mãe…  Sua argumentação era simples: A vida corria e eu não poderia perder tempo em cursinhos e apenas sonhando em ser um militar, ir para o IME ou ITA, devia me preocupar em ganhar dinheiro, em correr atrás de outras coisas e não ficar sonhando, pois o tempo passa, o dinheiro acaba.

Outro ano tentando não poderia estar nos meus planos, e assim a vida esmagou mais um de meus sonhos, eu e o que eu posso fazer? Apenas aceitar, ser um “victim of changes” e seguir em frente, seja lá para onde esse caminho me mande só o que existe agora e tentar me recompor, ouvir “Rebirth”, do Angra, e continuar galopando meu cavalo negro, afinal de contas, não posso desperdiçar meu tempo procurando por aqueles anos perdidos.

O ITA está vindo, mas não tenho mais esperança de passar, assim como não tenho mais esperança em nada, no final das contas aprendi que a vida é uma eterna dança da morte ao som da sinfonia da destruição, então, crescer significa aceitar as injustiças da vida, assumir responsabilidades e ter seus planos e sonhos esmagados pela circunstância, a nosso favor temos apenas os objetivos, que podem ou não se realizar, e a vontade de viver… Devemos seguir a vida sozinhos, guiados apenas pela luz da lua.