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Contos Minilua: E lembranças são torturas #179

Pois é, e a cada semana, você confere os mais diferentes contos. Hoje, por exemplo, com um dos mais interessantes já enviados. A todos, uma excelente diversão! E-mail de contato: equipe@minilua.com!

E lembranças são torturas…

Por: Victor Bastério

Ah, finalmente, chegara o tão esperado dia. Meses e meses economizando para uma viagem a qual parecia inimaginavelmente distante pareciam tão próximos, que já podia eu ouvir a água batendo na fina e suave areia da costa. Como todo Lapa de respeito, já havia preparado tudo, desde a chegada ao avião, até a volta no mesmo, passando por toda bagagem e menores detalhes que a maioria das famílias possivelmente não veem (muitas nem imaginam a diferença que faz usar um protetor fator 80 no mais claro e um 60 no mais moreno).

Romântico do jeito que sou, não deixei nem de pensar em uma surpresa para todos. Para minha esposa, Catarina, um jantar à  luz de velas e um vinho do sítio do meu pai Hector, de quem herdei o nome. Para o nosso casal de filhos Sofia e Joseph, deixei fichas e mais fichas junto ao seu tutor para gastarem no Parque Beira Mar enquanto eu e Catarina apreciamos a luz das estrelas do quarto de hotel e reforçamos o laço da paixão ao som de Frank Sinatra.

Às 7:30 da manhã, coloquei todos de pé e fomos para o aeroporto, apertados junto as bagagens que mal cabiam dentro do meu fusca amarelo, enquanto Sofia olhava da janela traseira a fachada da nossa pequena casa. Nem parecia que morávamos nós quatro naquele pedacinho de Guarulhos. Pelo menos o aeroporto não fica longe de casa, no máximo umas 8 ou 10 curvas por aí e já estaríamos lá.

Catarina segurava as crianças enquanto o funcionário do aeroporto transferia com o olhar cruzado a grande quantidade de bagagem do fusca para dentro do avião. O funcionário, Carlos, até arriscou fazer uma piada, perguntando se eu estava planejando fugir do país, mas foi retribuído com um olhar seco e uma expressão de repulsa. Eu só estava tentando viajar com a minha família, porra! Ele recebeu a mensagem, mordeu um lábio contra o outro, tomou fôlego e continuou trabalhando até terminar.

A essa altura olhei, para o lado e não vi Catarina e as crianças. Supus que teriam ido tomar um chocolate quente ou algo assim, estava realmente muito frio. Entrei então no avião e elas já estavam em suas respectivas poltronas, dormindo um sobre o ombro do outro, parei com as malas no meio do corredor e apreciei a cena com um sorriso leve no canto da boca, até que uma idosa me empurra e diz que eu estava atrapalhando uma fila de gente atrás dela, todos com devida expressão de deboche. Me seguro para não socar aquela velha de merda, franzo as sobrancelhas e sento ao lado dos meus filhos.

No final da viagem, um sinal nos acorda, mas o avião já estava sendo esvaziado e eu fui um dos últimos a acordar. Catarina não estava lá, mas como eu conhecia suas artimanhas, pus a mão no bolso e vi um bilhete deixado por ela. O bilhete dizia que ela já estava no hotel e havia deixado um táxi. Dou um bocejo, e estou acordado. Uns dois tapas na cara pra alertar e saio do avião com minhas malas já dentro do táxi.

O motorista me conduz até o hotel, onde os funcionários prontamente recolhem minhas bagagens. Deixo os fazendo seu serviço e vou até o quarto, onde Catarina e as crianças me aguardam. Chegando no quarto, Catarina, que estava na sacada toma um leve susto com meu abraço pelas costas mas logo cai nos meus braços e me beija até que minha presença acorda as crianças, que como bons filhos correm para abraçar o pai.

Passamos o resto da tarde arrumando as bagagens e preparando o jantar, até que chega o tutor Carlos para acompanhar as crianças ao parque. Ele então as leva e eu sugiro a Catarina para acompanhá-lo, sem revelar que arrumaria tudo para uma noite romântica enquanto ela vai ao saguão para se despedir das crianças. Uns 8 ou 10 minutos depois, ela já estava batendo na porta, e eu, dentro de meu terno novo, dando alguns retoques na gola, corro para atendê-la. Como esperado, ela fica surpresa ao ver toda a cena que preparei.

Velas aromáticas davam vida aos cantos onde a luz da lua vinda da varanda não iluminava, e o som de Frank Sinatra (Sinatra at The Sands, claro, seu preferido) preenchia o ambiente em um clima relaxante, porém atento. Pode-se dizer, a noite soava como ré bemol maior.

Já apostos a mesa de jantar, onde as velas tornavam o rosto singelo de Catarina ainda mais belo, aproveitávamos o bife a rolê que eu havia preparado trocando olhares entre as velas que só os casais conhecem, declarando o desejo que há muito fora apagado, saboreando cada sensação com todos os sentidos.

Terminando o jantar, Catarina soltou uma risada leve no canto da boca, enquanto olhava para a luz da lua que iluminava a colcha de linho que recobria a cama. Então, olhando para mim de relance, foi até o banheiro enquanto eu me dirigi até a cama, me despindo e aguardando que ela voltasse. Já quase caindo de sono pelas quatro taças de vinho, vejo-a saindo do banheiro e subindo sensualmente na cama, onde se fixa acima de mim, e começa a se despir.

Primeiro o sutiã, que ela deixa cair sobe meu rosto, revelando aqueles seios pálidos, quase que chamando pelas minhas mãos. E depois o fio dental, que ela puxa para perto dos joelhos e joga para longe mexendo os pés enquanto seus seios se juntam aos meus e nossos lábios se encontram em um beijo quente.

Já no ápice do momento, Catarina me vira e fica por cima de tudo. Ela sempre gostou de ter muito controle das coisas. Eu até que gosto, mas essa noite já estava planejada, era minha vez de ter o controle, com um forte gemido (dela), virei seu corpo, mas como não tenho hábito de beber, ela realmente me deixou com tontura. Tontura essa que não me fez perceber que já estávamos na ponta da cama, e que joguei Catarina da cama, fazendo-a bater a cabeça no criado mudo e cortar o braço na taça que joguei no chão. Obviamente, o clímax acabou.

Foi difícil até de lembrar a cara de frustração que fiz enquanto ela se enrolava no lençol do hotel e corria até o banheiro suja de sangue (foi um corte feio). Como já estava cansado e sabia que ela não ia voltar, visto novamente a boxer e me enrolo num pano qualquer do quarto. Lá pelas 0:30, o tutor me acorda batendo na porta. Não queria ninguém me enchendo o saco, então dei a mamadeira das crianças e as pus para dormir (estavam exaustas), e fui dormir novamente.

Às 7:30 da manhã, a camareira bate na porta para entregar o café. Eu agradeço e a dispenso. Depois do que houve ontem, não quero nem pensar em comida. Vou ao banheiro e encontro Catarina sentada na banheira. Ela diz que eu tenho que parar com isso. Percebo que seu ferimento ainda está aberto, mas o sangue está seco, então a tranco no banheiro enquanto ela chora silenciosamente. Ela nem pensaria em resistir. Não naquele estado.

As crianças acordam com o bater da porta do banheiro. Joseph vem e chama minha atenção para Sofia que estava na cama. Ela estava com muita dor no pé, o qual se encontrava inchado a ponto de não poder andar. Então eu me visto, levo Sofia para dentro do táxi e deixo Joseph no hotel dentro do banheiro junto com Catarina até que volte do pronto socorro.

No meio do caminho, o motorista, já insatisfeito com meus inúmeros avisos de que precisávamos ir mais rápido, vira e tenta iniciar uma discussão, mas o carro é imprensado por um caminhão gigante da Petrobrás, que imediatamente começa a vazar a gasolina que havia dentro dele.

Depois de um tempo desacordado, tento me retirar dos escombros do carro vendo a hora que aquela gasolina iria me separar dos meus filhos. Puxo o cobertor que forrava a cadeirinha de Sofia, mas ela não estava lá, nem ela nem Joseph.

Talvez os dois tenham sido levados pelo motorista. Ou conseguiram escapar. De qualquer modo, me remexi até sair do meio daquela pilha de metal torcido e olhei para a beira-mar. Já era noite, e consequentemente a praia estava vazia, a não ser por um rastro de sangue que se estendia do carro até o mar, onde a areia manchada era lavada junto a um corpo, o corpo de Sofia.

Na hora, caí de joelhos e rastejei imóvel até a areia. Teria sido…Teria sido, não. Claro que foi Carlos, aquele filho da puta. Um psicopata com certeza. Levanto-me e olho ao redor procurando aquele assassino. Mas não havia ninguém na praia. Chego mais perto do corpo, vejo mais de perto e percebo que a mancha de sangue provém da calcinha de Sofia.

Ele…Ele a estuprou? Com as mãos tremendo, ouço um sussurro dizendo: “Até quando você vai acreditar nisso?” Viro me com um movimento brusco e violento. Tenho até um tempo de enojar aquele sorriso sádico em seu rosto antes dele acertar um tiro no meio da minha testa, mas não tenho forças para reagir.

Adeus a todos, demoramos um pouco, mas o show acabou…

Prólogo

“O corpo de Hector Sesto foi encontrado nesta terça-feira, dia 11 de março de 2005 em sua residência no interior de Guarulhos. A carteira conta 37 anos de idade. Hoje era seu aniversário. Foi encontrada uma arma calibre 9mm, a possível arma do suicídio. Eu precisei cobrir seu rosto. Esse sorriso me assusta. Câmbio, desligo.”

Delegacia:

– O que você acha disso Márcia?

– São tempos estranhos delegado.

– Olhe como são loucos! A esposa foi assassinada há 3 anos pelo ex namorado Carlos, que matou os dois filhos do casal.

– Ele devia estar bem deprimido…

– Ainda teve o trabalho de colocar uma carta descrevendo um viagem inteira dentro de um corte no braço. Isso é macabro.

-Concordo. O senhor vai ficar até fechar?

– Não, vou visitar a Júlia.

– Mas senhor…

-O que foi Márcia? Sim ela morreu há 3 meses. Vamos esquecer isso, OK ?

– Sim. Boa noite senhor.

O delegado Norberto saiu da delegacia levando consigo uma rosa e sua arma para o cemitério ver sua esposa.

Márcia ainda adicionou antes de fecharem a porta de seu quarto no manicômio:

– Loucos, são todos loucos…

Exame psicológico de Márcia Ébano. 10 de março de 2005.

[…]

Psicólogo: Todos nós temos algo só para nós.

Márcia: Segredos são guardados, sonhos são vividos. E lembranças são torturas.

Psicólogo: Viver no passado é burrice, não concorda?

Márcia: Quem disse que isso é vida?