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Contos Minilua: Eu escolho você #194

Pois é, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu conto para: equipe@minilua.com! A todos, é claro, uma excelente leitura!

Eu escolho você

Prelúdio

Por: Aluízio Franco

Existem milhões de pessoas que não se dispõem a acreditar no sobrenatural, ter uma crença, uma religião. Ocupados demais com seus trabalhos, com seus negócios em seus mundos seguros, ninguém tem espaço para coisas triviais como são as coisas sobrenaturais. Principalmente agora, o mundo começa a ser lançado sobre os alicerces da tecnologia moderna. Será dado início a era digital massiva daqui a alguns anos. Novos softwares serão criados e inovarão o significado dos computadores no mundo. Empresas do ramo tecnológico surgirão com suas sedes instaladas em arranha-céus.

O símbolo da maçã mordida, não será a Apple de Adão, mas sim a resposta para a criação pelas mãos do próprio homem sendo deus de si. Microsoft, Google, serão nomes que estarão em tabloides, farão parte do cotidiano das pessoas. Aos poucos essas empresas se tornarão a própria vida da grande maioria da população mundial, tornando-se vidas isoladas, anti-sociais. Humanos serão placebos de si mesmos.

A humanidade será lançada no abismo da obsolescência programada. Carros, aparelhos celulares, televisores, computadores com suas atualizações cada vez mais vingativas deixando os modelos de hoje completamente ultrapassados amanhã. O mundo se tornará um lugar impossível e sem espaço para crenças no sobrenatural, será um mundo totalmente tecnológico, prático e ocioso. Religião, fé, deuses, fantasmas, tudo isso será artigo de museus pelo mundo afora.

As religiões serão usadas para fins lucrativos de forma finalmente declarada. O futuro venderá deus. Nas grandes telas dos cinemas, em seguida na quase infinita teia da internet, nos exuberantes templos físicos construídos para um único propósito de fins lucrativos, tudo venderá deus, mas ninguém acreditará realmente em um deus.

A fé estará morta até o final do século e em seu lugar estará à ganância disfarçada de caridade. Nunca antes na história o exército de ateus fora tão maciço.Tal colapso não ficará tão longe de destruir a vida na Terra como a conhecemos. A desigualdade abalará o sistema capitalista. A fome, as guerras assolarão o mundo ainda no começo do novo milênio. A vida ficará inerte antes do fim do século. Não haverá espaço para o inexplicável. O sobrenatural perderá seu leito. O imaterial se tornará imaterial.

Mas por enquanto o véu do desconhecido ainda pode ser rasgado e o sobrenatural alcançado. No momento o tempo ainda flui devagar e este é o ano de 1995, o lugar é Praga capital da Réplica Tcheca. Porém, antes de chegar a esta cidade, devemos regredir e entender um pouco acerca da vida de um homem. Seu nome é David Faller.

David, por hora, é um dos responsáveis pela construção do mundo dos softwares, pela digitalização e consequente provável fim da humanidade. Claramente seu nome não será lembrado, ele é apenas um peão usado para a produção do cheque-mate.
Início:

“David Faller.”

O solitário David. Aos trinta e oito anos David Faller era um zumbi, não literalmente, claro. David era escravo de sua inteligência e de seu emprego. Programador de softwares em uma empresa nipônica desde os vinte e três anos, o rapaz pouco viu da vida, pouco saboreou do mundo real. Criança quieta, adolescente recluso e conseqüentemente um adulto frustrado, David era um empregado medíocre morando longe de casa.

Não era atraente, de estatura mediana que alcançava um metro e sessenta e dois. Cabelo curto e loiro com um corte tosco igual ao do Bill Gates, olhos azuis que mal podiam ser notados atrás das lentes grossas dos óculos de armação grossa, muito parecidos com óculos de avós. Meio gordo, pois não era adepto de exercícios físicos, seu negócio era exercitar o cérebro. Tinha cara de derrotado, sempre com o olhar triste ou de enfado, às vezes injetados.

David era filho de britânicos, porém seus pais moravam no Brasil desde que David terminou a faculdade. Aliás, faculdade? Esqueça tudo o que dizem sobre faculdade. Esse lance de ficar milionário, ter uma mansão, carro conversível simplesmente esqueça. Para Faller nada disso se realizou. David é a vertigem da vida. Um retrato do que faz toda essa baboseira de escola e riqueza desfalecer. Faller era empregado assalariado e funcionário do mês nos cinco primeiros anos consecutivos de sua “carreira profissional”.

Uma droga de juventude inteira jogada fora, desperdiçada com computadores aperfeiçoando softwares, morrendo aos poucos sentado diante de sua mesa para que seus patrões vivessem dias extremamente incríveis. Uma pequena moradia própria e um carro medíocre foram os frutos de longos quinze anos de servidão, idolatria e nenhuma promoção significativa. Do ponto de vista de Faller ele já havia alcançado o teto de suas ilusões. David era um otário que se acostumou com as migalhas jogadas de cima da mesa de seus patrões.

Assim que David conseguiu a vaga de estagiário na empresa onde trabalhava, ele mudou-se para Tókio, onde alugava um pequeno apartamento de apenas dois cômodos e um banheiro por um preço bem salgado. Ao fim de um ano trabalhando como estagiário ele foi efetivado. Seu apartamento ficava a dezesseis quadras de seu trabalho. Faller morou por onze anos nesse apartamento alugado, uma façanha incrível, mas por pagar sempre adiantado o dono do imóvel jamais o incomodou pedindo para que se retirasse.

Porém David conseguiu finalmente comprar uma casa. Era pequena e ficava bem longe de seu trabalho, mas como ele possuía seu velho Audi 1981, não se importava com a distância.
Faller não tinha esposa ou namorada. Ele raramente saía aos finais de semana, visitava seus pais no Brasil uma vez por ano. David, como se pode imaginar, era viciado em pornografia. Além disso, ele visitava os bairros adultos duas vezes por mês e conhecia lugares clandestinos que ofereciam sexo de verdade, não apenas ficar olhando.

Ele não possuía animais de estimação, com a exceção de um peixe Beta amarelo, tão chato quanto o dono, tão aprisionado quanto o dono. O bicho quase não necessitava de atenção, tanto o peixe quanto Faller. Certa vez David acolheu um gato, mas a experiência foi desastrosa e dois meses depois o animal morreu com problemas intestinais. O gato comia qualquer coisa que encontrasse no apartamento, fato que mostra que o felino passava fome por descuido de Faller. Depois disso,

David viu que decididamente não poderia cuidar de outra vida que não a sua própria, a qual cuidava bem mal. David não tinha amigos confidentes, apenas colegas de trabalho e isso explicavam o fato de não receber visitas. As pessoas onde Faller trabalhava eram iguais a ele, antissociais e estranhos em sua maioria. Muitos na empresa sentiam pena de David. Talvez se ele tivesse um enfarte ou coisa assim e morresse, encontrá-lo-iam vários dias depois, pela polícia, por conta do cheiro fétido do corpo em putrefação.

Ninguém sentiria sua falta em seu gabinete, ninguém sentiria falta de alguém assim, que não alimenta a diferença humana, que apenas é bom no que faz em seu ofício e nada mais. Seu mundo eram os programas de computador e putaria em VHS. Ele sequer era um bom cliente para as prostitutas dos bordéis que frequentava.

Mas isso não o incomodava, ele se propusera viver daquela forma. Uma merda de vida onde você só é bom no que faz e não se diversifica, só é bom no faz de conta. As prostitutas lhe serviam de fuga das necessidades e já era uma grande dádiva não se apaixonar por uma das putas que lhe cobravam bem caro por dez minutos de nudez e perversão. A vida de David Faller era um câncer.

“A sombra”

Foi em Outubro de 1995. Naquele mês David não estivera se sentindo bem. Na verdade tudo começou dois meses antes, quando uma forte gripe o derrubou. Ficou internado por uma semana inteira depois que desmaiou em cima do teclado do computador em seu gabinete, no local onde trabalhava. Ficou em coma durante toda a semana e jamais se lembrou de ter ficado no hospital por esse tempo.

Depois de acordar, já se sentia um pouco melhor e logo teve alta. Ao chegar à casa uma tosse seca passou a lhe incomodar, no entanto Faller voltou à sua rotina e comparecia no serviço mesmo tendo acessos de tosse e, uma semana depois da tosse surgir, o nariz de David não parava de sangrar. Quase sempre sentia o sangue cru escorrendo até o queixo.

Por algum tempo, aquilo não significou um perigo para ele; poderia ser apenas algum vaso sanguíneo rompido, nada mais. Logo passaria. Porém, a situação persistente começou a preocupá-lo. A quantidade de sangue que esvaia de suas narinas e também a tosse que passou a ser rouca e gutural. Por fim, a tosse passou a vir acompanhando uma golfada de sangue. Assim, ele achou que era hora de procurar um médico especialista.

David, que não gozava inteiramente de suas férias desde 1991, então achou conveniente usá-las agora e afastou-se naquele outubro. Para a empresa faria pouca diferença se ele estivesse presente ou não.

Faller decidiu viajar e buscar a ajuda de seu primo, Leonel Brittcher, em Praga, capital da república Tcheca. Leonel era médico especialista em infectologia, talvez pudesse descobrir qual era a doença de David. Leonel era muito caridoso com a família e também muito rico. Por seus méritos, o laboratório onde desenvolvia pesquisas ganhou um prêmio Nobel. Faller sabia que ele poderia ajudar e não se negaria a isso, então ligou para Leonel e ele estava prontamente decidido a ajudar. David embarcou logo que pôde.

David fez uma péssima viagem de Tóquio à Praga. Vôo demorado e ainda havia muitas escalas, sem contar a classe econômica que era simplesmente nojento. Faller passou mal a viagem toda _ como alguém poderia verter tanto sangue daquela forma e não morrer, David não sabia.
No aeroporto de Praga, Leonel esperava pelo acossado primo que havia ligado e chorado desesperadamente no último final de semana, dizendo que estava com medo de morrer por algo misterioso.

Para Leonel, parecia um caso óbvio de tuberculose, mas sem os exames corretos e completos ele não poderia arriscar um diagnóstico precoce. Não havia necessidade de preocupar o primo.
Leonel levou Faller ao laboratório para colher amostras e materiais para exames. Foram não apenas ao laboratório onde Brittcher trabalhava, mas a outros dois laboratórios. Brittcher queria ter uma vasta compreensão sobre a doença de David.

Antes de saber os resultados dos exames, Leonel medicou David com alguns remédios que em nada adiantaram. Assim que os resultados dos exames saíram, eles só tiveram frustrações. Consternado com a situação cada vez pior de David, Brittcher duvidava que os exames estivessem certos. Nunca antes errara com um paciente e justo com seu primo o diagnóstico falhou. Leonel poderia jurar que se tratava de tuberculose.

Felizmente ou infelizmente os exames não mostravam nada de anormal com David. Aparentemente, Faller tinha uma saúde de ferro, mas claramente não era uma constatação confiável de forma alguma. Faller apresentava uma grave palidez, olheiras profundas e bem escuras. A tosse seca persistia, mas agora tinha um som rouco ainda mais feio e o ruído gutural estava se fundindo a sua voz. Era horrível ficar muito tempo perto de David, onde, a cada tosse um lenço sujo de sangue era descartado.

Desolado com a situação, Faller queria voltar para casa, mas Leonel convidou-o a permanecer em Praga pelo menos até o fim das férias; ou de seus dias de vida. David aceitou o convite, mas não queria mais saber de exames, estava derrotado. Também não queria incomodar Brittcher e pediu para ficar em um hotel barato, no entanto Leonel insistiu em custear sua estada no hotel e David acabou aceitando. Pensou em dar uma volta para conhecer a impressionante Praga caso se sentisse melhor e seu sangue parasse de lhe abandonar. David acabou se acostumando com sua situação e resolveu ficar por mais algum tempo.

Quase ao final do mês David recebeu o telefonema de sua mãe. Ela soube da situação de seu filho através de Leonel que, contra a vontade de Faller, avisou-a.

– David meu filho, estou muito preocupada com você. Leonel não me disse o que está acontecendo, mas percebi pela voz dele que ele está aflito. O que está acontecendo com você David? – A mãe de David se preocupava ao telefone. Na cabeça de David havia muita dúvida, até mesmo a possibilidade de ter contraído uma nova doença sexualmente transmissível, mesmo que seus exames tenham dado resultados normais.

– Mãe eu estou bem…
– Sua voz está horrível David, você não está nada bem. Acho que seu pai e eu vamos até aí onde você está. – Disse a mulher aflita interrompendo o filho doente.
– Mãe, não venha para Praga. Eu irei para casa daqui duas semanas. E, aliás, o que aconteceu? Eu pedi para Leonel não lhe avisar, por que ele contou? Estou muito chateado com ele. No fim de ano vou visitar vocês no Brasil. Papai está bem?

David tentava disfarçar, mas a tosse podia ser ouvida do outro lado da linha, sua mãe só não se afligia mais porque não podia ver o sangue grosso jorrar da boca.
– Seu pai e eu estamos bem David, mas você não. Por que você escolheu viver assim filho? Por que não larga isso e vem morar conosco? – A mãe de Faller parava para engolir o choro.
– Até o fim do ano mãe. Adeus.

Sem se importar, David desligou o telefone e não atendeu a qualquer outra ligação.
Cansado, David foi se deitar. Seu corpo tinha febre bem alta e sentia muitas dores, ele não conseguia dormir profundamente, acordava de minuto em minuto. O suor gelado ensopava o lençol e um frio mortal lhe entranhava o corpo todo. Faller passou metade da madrugada tendo alucinações e sendo castigado pela febre alta.

Antes que amanhecesse, David adormeceu pesadamente e foi nesse momento que uma forte sensação lhe despertou. Havia uma presença diferente em seu quarto insólito.
Uma sombra avolumava-se na lateral de sua cama, sentado aos seus pés. Faller ergueu um pouco a cabeça, a qual doía incalculavelmente. David coçou seus olhos tentando desembaçar a visão, forçou a vista sobre a sombra, mas não conseguiria ver sem os óculos.

Tateou o criado mudo ao lado da cama a procura dos óculos e não o encontrou, então percebeu que aquela coisa sentada aos seus pés era real e lhe oferecia justamente seus óculos. De um ressalto Faller apanhou suas lentes e a enfiou na cara, quase quebrou as hastes com o nariz, depois se ergueu na cama puxando seu corpo dolorido para ficar sentado.

David pensou ser seu primo Leonel, mas agora sabia que se tratava de outra pessoa. Faller podia ver uma grande e larga arcada branca sorrindo para ele na penumbra, porém não podia distinguir mais nada. A coisa em questão usava um pesado capuz escuro. Faller tentou acender a luz do abajur e antes que conseguisse a sombra deu a ordem em uma rápida execução de palavras com uma voz rouca e profunda.

-“Não acenda a luz.”
Faller se sentiu intimidado no mesmo instante recolhendo a mão rapidamente para junto de si. O sorriso continuava dentro da escuridão do capuz. Parecia que aquela pessoa não estava zangada como sugeria sua voz.
– Quem é você? – perguntou Faller duvidando sobre estar acordado, mas a resposta veio depois de uma risada abafada e cacofônica.
– Eu lhe observo dormir David. Todas as noites eu o vejo, enquanto sua respiração se torna agonia.

Você sente minha presença, mas não sabe dizer o que é.
David sentiu um calafrio diante disso. Seu rosto parecia queimar em brasa, enquanto seu corpo chacoalhava em um espasmo de frio e medo. Ele levou as mãos ao rosto para coçar os olhos tentando limpar a visão. O sono esgotou e ele sabia que não estava sonhando.

– Droga. Como entrou aqui? Se estiver aqui para roubar, saiba que você se ferrou. Estou tão doente que acho que posso morrer a qualquer minuto. Talvez isso até seja contagioso! – David se irritou chispando da cama para junto da parede do quarto. Faller saiu aos tropeços e ficou de costas para a parede, ainda no escuro encarando a figura sentada na cama que não se incomodou por David se levantar. Outra vez uma risada de zombaria e velhacagem ressoou por todo o quarto.

-Você não está doente David. – Disse a sombra.
– Como você sabe o meu nome? Quem é você e o que você tem com isso afinal de contas? – Retorquiu Faller.

– Não tenho nada com isso. Só estou dizendo que não está com nenhuma doença humana.

– E o que você pode saber sobre isso? Quem é você, responda de uma vez! – Insistiu David.
– Sei tudo sobre isso Sr. Faller. Só não entendo como você conseguiu tal façanha. Quanto a quem sou? Ah. Sou muitas coisas e nada. Tenho muitos apelidos e nenhum nome. Sou anjo e ceifeiro.- a coisa gargalhou e continuou. – Mas se quiser, pode usar o nome que a cultura nipônica prediz a mim, gosto do som que faz.

David arregalou os olhos firmando-os sobre a tal criatura. Faller abriu a boca de forma desengonçada, quase cômica, estendeu os dois braços diante da sombra enquanto mantinha os dedos das mãos abertos, em forma de garras e gaguejou arquejando em um tom horripilante.

– Shinigami!
Uma nova gargalhada vibrou no ar. A criatura envergou-se um pouco para trás, deixando um pálido fecho de luz que vinha da janela faiscar em seus olhos, que soltaram uma estranha labareda de luz avermelhada, se apagando quase instantaneamente. Faller continuava paralisado de medo encostado na parede.

– Você tem um esporo do diabo. Em suma, você não pode mais morrer e assim, vai se tornar algo parecido comigo, David. – Dizia o Deus da morte de forma lenta com sua voz áspera e metálica. __ Não faço idéia de onde ou como você encontrou este esporo, pois eles não nascem em qualquer lugar, muito menos aqui na Terra. A menos que outro Shinigami tenha deixado isso em algum lugar para você, foi pura coincidência você tê-lo achado. Contudo, agora sua transformação se iniciou e logo você será um de nós, vivendo da morte, se é que posso dizer “vivendo”.

Faller estava em choque e não conseguia dizer nada. Seu cérebro havia travado e não conseguia formular uma pergunta. Aquela sombra enorme em seu quarto lúgubre o amedrontava bastante. De repente um acesso violento de tosse lhe ajudou a se mover, pondo-o de joelhos, forçando a gorgolejar uma grande dose de sangue quente, o qual cuspiu no chão manchando um pequeno tapete circular que estava debaixo de seus pés.

– Eu senti pena de você. Sem saber o que está acontecendo, você acabaria se tornando um Shinigami despreparado, que não saberia o que fazer depois. – O monstro dava altas gargalhadas espasmódicas que fazia o som ribombar na garganta de David. – Pelo visto, você vai se tornar um Shinigami bem feio, talvez mais do que eu. Mas agora a única coisa que posso fazer é lhe auxiliar com sua transposição.

David começou a chorar em soluços baixinhos que logo se tornou um ganido. Deitou-se no chão em posição fetal, consternado com sua situação. Suas lágrimas estavam espessas e ao limpar o rosto com as costas das mãos, notou que chorava sangue.

– Entendo que ainda não tenha aceitado seu destino, se é que posso chamar assim. – Disse a sombra sorridente. – Sabe Sr. Faller, eu não deveria interferir dessa forma, mas acho que vou lhe ajudar. Na verdade existe uma cura para este mal sobrenatural que te apoquenta.
Faller parou de ganir ao saber que o Shinigami poderia ajudar-lhe e acabar com sua dor.
– O que? – Perguntou David, sem ter certeza da veracidade das palavras do monstro.- Está dizendo que você pode me curar que você tem a cura, é isso?

– Bem – Corrigiu o Shinigami. – Na verdade, eu conheço a pessoa que pode lhe ajudar. Ele tem a cura, não eu. Posso te ajudar a encontrá-lo, no entanto, isso deve ser feito o quanto antes, pois sua alma está desaparecendo. Eu diria que você tem no máximo uns três dias antes que a mudança se torne irreversível.

David se levantou com certa dificuldade, fazendo caretas de dor e se sentou na cama ao lado do Deus da morte. Em momento algum a criatura lhe olhou de frente, ele ficava de lado o tempo todo, deixando escapar de propósito alguns relâmpagos de luz em seus olhos assustadores. Sua gigantesca arcada em forma de sorriso ficava sempre exposta. Faller, no entanto, já não se intimidava tanto com a entidade de aspectos grotescos. David olhou para ele e o Shinigami soltou outra daquelas gargalhadas insanas e odiosas que faziam David ter vontade de chorar igual a um bebê.

– Quem é esse cara que tem a cura? – Indagou Faller ainda tímido.

– Ele não é desse plano, digamos assim, mas resolveu morar aqui na Terra. Ele não tem idade, não envelhece, não morre. Seu nome é Haradad e só pode ser encontrado no Tibete. – Respondeu o Shinigami.

– Você só pode estar de brincadeira. – Retorquiu Faller desanimado. – No Tibete? Não posso ir para lá em tão pouco tempo. Vou ter que ir de avião, mas olha o meu estado! Ninguém em sã consciência vai me embarcar em lugar algum. Estou perdido.
David recomeçou a chorar de modo trágico, mas então, em um ato de desespero David agarrou o Shinigami pelos ombros e virou-o de frente para ele e berrou:

– Me diga! Como eu o encontro? Tem de haver outro meio de conseguir essa cura!
O sorriso que se avolumava dentro da escuridão do capuz desapareceu. As mãos de David se soltaram dos ombros do monstro, havia terror e asco na face de Faller. Os olhos da criatura, saltados e vermelhos fixos nos olhos de Faller, lhe prometiam uma fúria incontrolável. O ar pareceu parar dentro do quarto e o silêncio poderia ser sentido como uma parede diante do mundo.
David estava paralisado de medo olhando pasmado para o Shinigami.

A sombra maléfica estremeceu com os olhos enraizados nos de David. “Assustador” não definia totalmente aquele momento, onde, dois olhos vermelhos que mais pareciam gotas de sangue, perdidos dentro de um vazio negro que eram suas órbitas, vasculhavam a alma de Faller.
O capuz deslizou para trás e David pode ver a marca da boca sem os lábios; apenas uma fenda no rosto da criatura para esconder os dentes hediondos da figura. Totalmente pálido e sem vida, fossas no lugar do nariz que tornavam ainda mais grotesco a face do deus da morte. Havia pontos de costura ao longo do rosto no lado esquerdo.

Parecia que o próprio Shinigami se costurara. Um rosto esquelético com marcas de rugas e veias com sangue seco dentro delas. O cabelo era desgrenhado e para cima, seus olhos não tinham pálpebras, apenas as órbitas negras com os pingos vermelhos no centro. Era a personificação do horror.

O Shinigami começou a se levantar e parecia um gigante se erguendo diante de David, cujo qual, tremia e deixava escapar um gemido de pânico. O deus da morte era enorme, arqueava-se para frente e aparentava ter o dobro do tamanho de Faller. Parecia não ser capaz de caber naquele quarto. Com sua mão ossuda e de aspecto podre ele agarrou o peito da camisa de Faller e o puxou para junto de si, erguendo David sem o mínimo esforço. O demônio enfarruscou a face contra o rosto contorcido de David.

– Nunca. Mais. Ponha. Suas. Mãos. Em. Mim. – Disse o deus de forma entrecortada com a voz baixa e rouca bem próxima ao rosto de Faller.
-Nem mesmo se você erguer uma lâmina contra mim não fará diferença. Minha lâmina mata pessoas, eu mato humanos. Você não pode me atingir, mas eu posso explodir seu coração, pois eu mato pessoas. Mato coisas iguais há você o tempo todo.

Ele jogou David no chão e o homem estava novamente em choque, congelado de medo e agonia.
– Eu já lhe disse, David. Apenas Haradad possui a cura e somente ele pode lhe ajudar. Não importa o quanto você chore e implore, Haradad está no Tibete e você deverá ir até ele.
David apenas balançou a cabeça demonstrando que havia entendido o recado. Ele estava mudo e seu coração acelerava tanto que parecia que iria arrebentar em pedacinhos. O Shinigami voltou a se sentar aos pés da cama e o sorriso maléfico voltou a se alargar dentro das sombras do capuz.

– Não sinta medo, apenas não gosto que toquem em mim. Na verdade não posso te matar. – Disse o monstro
– Estou perdido. Não sei o que fazer.
– Seja criterioso Sr. Faller. Pode esperar amanhecer e tentar resolver seus assuntos com o pouco tempo que lhe resta, ou pode ligar imediatamente para seu primo rico e implorá-lo por ajuda.
Sem titubear, David se levantou do chão e se moveu devagar, sem tirar os olhos do perfil da criatura. Ainda trêmulo pegou o telefone e ligou para Brittcher, como o Shinigami propôs. O telefone tocou quase até a ligação cair, mas eis que Leonel atende e Faller rapidamente diz:

– preciso de ajuda.
-David! -Exclama Leonel que já esperava por notícias ruins. – Está passando mal? Quer que eu vá até o hotel?
David resfolegou e tossiu, não pôde segurar o vômito de sangue.
– Não Leonel, não venha. -Disse David com a voz embargada. – preciso de sua ajuda para me mandar para o Tibete, nesse instante se possível. Lá existe uma pessoa que pode me ajudar.

– Tibete? Há essa hora? Impossível. Terá que esperar pelo menos pelo amanhecer. E quem seria essa pessoa que pode lhe ajudar? E o mais importante, como ele vai te ajudar? – Leonel imaginou que seu primo não estava em seu juízo perfeito.
– Pelo amor de Deus, Leonel! Não há tempo para explicação homem! Estou morrendo e o único na face da Terra que pode me ajudar é Haradad. Não me questione apenas me mande para o Tibete.
A frase final, Faller falava com a voz fraca e rouca que se transformava em um choro que partia o coração de Leonel.

– Oh, Deus. Acalme-se, David. Eu conheço um homem aqui, talvez ele possa te ajudar. Ele tem um jato e faz vôos particulares. Eu tenho que fazer algumas ligações e isso não vai sair nem um pouco barato. Daqui a pouco eu volto a te ligar, nesse meio tempo, arrume suas coisas.

Faller nem se deu ao trabalho de responder. Do outro lado, Brittcher se sentia desolado, aquilo bem poderia ser um delírio de David. Leonel foi fazer suas ligações. Quarenta minutos depois Brittcher retornou a ligação para Faller.

– David, siga para o aeroporto de Praga. Você tem um voo daqui três horas. Vemo-nos lá.
–  Obrigado Leonel. -Respondeu David chorando enquanto tinha um novo acesso de tosse.
O Shinigami deu uma nova risada com grande estardalhaço.

– Muito bem Sr. Faller, vamos testar sua sorte.-disse o monstro. David nem se importou, já que tossia tanto que parecia, sua garganta iria rachar. Para David era agora uma questão de tempo até se curar daquela maldição e finalmente se ver livre do Shinigami ameaçador e suas malditas risadas enlouquecedoras. Ele não suportaria aquilo por muito tempo.

David não fez questão de preparar suas malas. Pegou apenas sua pasta preta de modelo executivo com uma camisa branca e uma ceroula azul marinho.Vestiu seu terno de tweed com riscas de giz e foi até a portaria do hotel, onde pediu um táxi.