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Contos Minilua: Futuro promissor #35

E como dito anteriormente, sintam-se a vontade para participar. O e-mail, como se sabe: equipe@minilua.com! Uma boa leitura!

                                                    Futuro promissor

Por: Jasce Honorato

– Você realmente acredita nisso?

– Claro, tem tudo a ver, pode confiar que é super coerente!

Alexandra parecia totalmente convencida de que aquele teste da Revista Teen deveria ser levado a sério. Já eu preferia me ater aos fatos que aconteciam fora do papel.

Ela chacoalhava a revista em frente ao meu rosto. O cheiro de jornal com tinta me irritava, ela balançava as folhas tão freneticamente que tudo o que eu via era um borrão rosa passando pelos meus olhos.

– Qual é? Faz logo aí!

– Tá bom!

Peguei a revista relutante e posicionei no centro de minha mesa, puxei uma lapiseira do estojo e verifiquei com uma olhadela rápida onde estava a professora. Ao ter certeza que a “barra estava limpa” comecei a ler o teste.

O titulo em letras irritantemente brilhantes anunciava alegre o seu propósito “Descubra o que você vai ser no futuro!” e o subtítulo reforçava “A equipe da Revista Teen preparou esse teste incrível especialmente para você, faça já e descubra o quão promissor será o seu futuro!”.

Continuei para as perguntas um pouco incerta. “Especialmente para você? Existem milhares de meninas que fazem esse teste bobo, com certeza é algo totalmente aleatório.” Pensei, mas não adiantava discutir com Alexandra.

Respondi rapidamente a todas as trinta questões de múltipla escolha. Eram em sua maioria repetitivas e sem fundamento, coisas como “Qual sua cor preferida” Ou “Você prefere frio, ou calor?”, todas com um número ao lado indicando o valor da resposta. No instante em que terminei me senti livre dos questionamentos da Alexandra e de toda aquela baboseira.

– Toma!

– Ai, tem que somar seus pontos, pô!

– Soma você…

Alexandra puxou seu caderno e começou a anotar os números um em baixo do outro, depois aprontou sua calculadora e somou tudo rapidamente. Conferiu o total e foi para a próxima pagina da revista onde havia uma tabela de resultados.

– Deu setenta e dois pontos!

– Hum, e aí?

– Aff, deixa que eu leio o resultado vai.

Alexandra limpou a garganta e sentou ereta em sua cadeira. Parecia imponente, como se fosse anunciar o inicio da terceira guerra mundial.

– “Xiii gatinha, parece que seu futuro não será tão promissor! Você não leva jeito para a vida social o que pode te prejudicar muito. Pare de evitar a balada e os gatinhos e comece a curtir mais a juventude. Se continuar nesse pique vai acabar ficando sozinha”.

No quesito profissional é melhor procurar um foco, se ficar perdida entre seus gostos não vai sair do lugar e o mercado de trabalho necessita de gente ativa. “Seu sucesso só depende de você.”

– Pô, ainda tem a cara de pau de terminar com “Seu sucesso só depende de você”? Ta aí a única coisa certa que essa merda disse…

-Credo, larga de ser chata, não ouviu o que a revista disse não?

-Qual foi seu resultado?

Alexandra limpou a garganta novamente e começou o mesmo discurso empolado.

-“Parabéns menina, você está com tudo! Parece que já nasceu preparada para o sucesso. Sua vida social é um arraso assim como você, não tem nenhum gatinho que não te queira para um romance. Continue sendo extrovertida e vaidosa. No quesito profissional, pode ficar longe das preocupações, seu talento é eminente e você só pode brilhar cada vez mais! Lembre-se, seu sucesso só depende de você.”

Terminou com um sorriso. Encarou-me por alguns segundos antes de continuar.

– Viu, você tem que ser mais como eu querida! Sou pop, linda e arraso.

– Nem sei por que eu falo com você, sério!

*

Aquele foi meu ultimo ano na escola e agora, uma década depois de nosso ultimo encontro, vejo-me frente a frente com Alexandra.

– Boa tarde, em que posso ajudá-la?

Tinha acabado de entrar em uma lojinha de conveniência que ficava em um posto de gasolina perto do meu trabalho. Deparei-me com minha antiga colega reabastecendo uma geladeira com refrigerantes e energéticos. Usava o uniforme amarelo típico daquela rede de lojas.

-Boa tarde Alexandra! Não se lembra de mim?

– Desculpe, não!

– Estudamos juntas, do primeiro ao terceiro ano. Sentávamos lado a lado, fazíamos os trabalhos em dupla.

– Sofia? Eu não creio, é você?

Alexandra levantou-se e me estendeu os braços, abraçamo-nos e ela se afastou para me olhar.

– Como está?

– Bem e você?

– Bem, levando a vida como pode ver – sorriu – Alguém tem que por comida em casa!

– Ainda mora com seus pais?

– Não, moro só com meu filho.

– Teve um filho? Foi casada?

– Não Sofia, até parece que não me conhece. Logo que saí da escola fiquei grávida de um garoto que conheci na faculdade. Ele não assumiu meu filho, tive que deixar o curso para trabalhar.

– Poxa, que pena.

– Mas e você? Parece tão chique, está bem arrumada. Vai trabalhar?

– Sim, eu trabalho aqui próximo! Na empresa de moda que fica na próxima rua.

– Que legal, faz o que lá?

– Eu comprei a empresa recentemente.

– Nossa você realmente progrediu!

– Pois é, esforcei-me ao máximo para isso. Desculpe mas tenho que ir, só vim comprar um refrigerante, não posso me atrasar. De qualquer forma, boa sorte com tudo.

– Obrigada!

Segui para o caixa e paguei minha bebida, antes de sair da loja Alexandra me chamou.

– Sofia, lembra-se dos testes que eu te obrigava a fazer? Realmente você estava certa sobre eles, era uma grande babaquice!

– Na verdade estavam parcialmente corretos.

– Como assim?

– Seu sucesso só depende de você!