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Contos Minilua: Gasolina #145

Pois é, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, um excelente fim de semana!

Gasolina

Por: Alexandre Simas

São Paulo
09 de julho de 2013

Enquanto espero a primeira remessa chegar, fico aqui sentado na minha van olhando para uma foto da minha esposa que eu tenho guardado na carteira e lembrando-me de como sonhávamos de sair dessa. De sair desse submundo.

– O que foi que aconteceu com a gente? – sussurro pra foto como se fosse responder. Igual quando fazemos com um cachorro. Meu parceiro está lá fora comprando alguma coisa pra comer nessas lojas de conveniência 24 horas num posto de gasolina qualquer.

Ele entra no carro com as coisas e apressado como nunca.
– Vamos logo! Olha tá aí a porcaria de lanche que você me pediu e a sua cerveja. Não temos tempo de você ficar namorando uma foto! Vamos! Tá quase na hora!

Merda! Não era pra ele ter visto a foto! Nada demais. Só não gosto de expor as coisas assim! Giro a chave, ligo o rádio e seguimos caminho. Passando por uma esquina ou outra vazia e escura. Vemos o nosso pacote.

– Seja rápido! – digo pro meu parceiro.
Ele concorda com aquele ar superior dizendo “E você tem dúvida disso?”. Era o nosso trabalho e fazíamos bem! E dessa vez estamos até que um tanto empolgados. Vou seguindo-o com o veículo lentamente com alguns metros de distância por segurança, caso precisemos improvisar.

Vejo o encontro dos dois e acelero até eles. Como prometido! Antes de parar completamente o veículo, o primeiro pacote já estava sedado com um capuz preto dentro da van.
Eu queria ter certeza de que era o cara certo. Mas meu colega de trabalho mandou acelerar e não ficar bobeando.

– Agora o segundo pacote da noite! – eu disse empolgado – Você tem certeza de que é ele, certo?
– Não sou nenhum mongol! É claro que é ele! Reconheceria pelo cheiro se fosse cego!
Ás vezes eu não vejo muito sentido nas coisas que ele fala, então eu jogo meus ombros, dou um gole na cerveja e continuo dirigindo. Mais uma parada!

Esse, nós já temos a rotina de cor! Então eu fico mais relaxado, pego mais uma vez a foto dela e fico olhando. Lembro quando discutimos, e eu dizendo que não tinha outra opção. Se quiséssemos sair da merda eu teria de aceitar esse emprego de entregador.

“A grana é boa”, dizia pra ela, “Nós vamos sair de tudo isso. Vai ver!” eu sussurrava abraçando forte aquele corpo magro que chorava e soluçava dizendo que é um trabalho muito perigoso para
alguém tão bom como eu, que se me pegassem ela não saberia o que fazer sem mim. Mas eu tinha
de arriscar, não tinha? Ela, depois de um tempo, acabou me perdoando disso.

Agora, agora é somente mais um dia de trabalho.
– Hei! Babaca no mundo da Lua! O segundo pacote acabou de passar na nossa frente. Vai
logo com essa lata velha.

Ainda bem que estávamos bem estacionados. Num beco escuro, com uma van preta,
ficamos imperceptíveis!
Giro a chave mais uma vez e vou me aproximando aos pouquinhos, até me decidir quando
vou querer ser notado. Acelero mais um pouco, mas ainda lento. Acompanhando os passos.

– Vá pra trás e se prepare! – digo pro meu colega. Engraçado, justo no segundo pacote
começa a tocar “I drove all night” do Roy Orbison na rádio. Às vezes eu gosto do sarcasmo do
destino. Aproximo-me um pouco mais e logo escuto a porta de trás sendo aberta, um grito feminino
sendo abafado por um capuz preto e o estalo de um soco forte pra desmaiar o segundo pacote.

– Pronto! – eu olho para o retrovisor e concordo com a cabeça.
Minha querida no que me transformei? Seguimos direto para a área industrial da cidade. Foi combinado levarmos num galpão abandonado. Se você pretende fazer muitas coisas ruins com alguém, o melhor lugar dessa cidade e a área industrial de madrugada. Não há ninguém que possa escutar os gritos, somente um viciado ou outro, mas isso é igual a ninguém. 

Eu paro em frente à antiga fábrica da Ezequiel Móveis. Só de olhar aquelas paredes
enegrecidas de fuligem por causa do incêndio, me dá calafrios. Eu começo a arrastar os corpos desmaiados pra dentro. Meu parceiro fica de tocaia no lado de fora fumando um cigarro. Amarro cada um em uma cadeira que está parafusada no chão de costas para outra. Me lembro daqueles olhos verdes e como poderia ficar encarando-os por mil anos.

Tiro o capuz de cada um e coloco uma mordaça na boca deles e devolvo o capuz pras
cabeças apagadas, só por diversão. Logo em seguida eu saio e peço um cigarro pro meu amigo.
– Tem certeza que é isso que você quer? – ele me pergunta um pouco preocupado.
– Absoluta certeza!
– Cara. Tem ideia de quem é o primeiro pacote? Sabe o que acabamos de fazer? Se
descobrirem que o pegamos, a família inteira desse cara vai colar na nossa bota. Fora a influência
com a polícia que a fami…

– Tá bom! – interrompi logo, já estava começando a ficar puto – sei muito bem quem é ele,
quem é o pai dele e tudo o mais. Quero que se foda! Ninguém vai descobrir o que fizemos, ele não
vai sair daqui pra contar história. Relaxa! E se você estivesse com medo mesmo teria me
impedido no começo! Então não me enche o saco!

– Tudo bem. Só estou avisando. Temos 2 horas 30 minutos até a família se der conta de
que o príncipe das drogas ainda não voltou de viagem e eles passarem por aqui. Então, seja
rápido!
– Vou ser! E vou aproveitar cada segundo.
Bicho, como estou empolgado com meu dia de trabalho hoje.
Acendo uma única luz focada no par de cadeiras, uma luz fraca para que só ilumine eles
dois e o resto do galpão fique escuro. É uma imagem tão bonita!

Meu preocupado e fiel amigo, deixa do meu lado todos os apetrechos que necessito para
utilizar. Minhas facas, um galão de gasolina, taco de beisebol (sim um clichê, mas eu gosto), sal e
uma pistola 9.mm caso dê merda de algum deles conseguir se desamarrar. Automáticas… Nunca
fizeram meu estilo.

Um movimento seguido de um grito abafado vem da cadeira de trás.
– Ahh! Alguém acordou! Vamos ver quem está debaixo desse capuz! – Eu estou realmente
animado, vou dando passos feito maluco de ansiedade e puxo de uma vez só.
– Vejo que está surpreso em me ver amiguinho!
A cara de susto dele com a mordaça é impagável. Ele resmunga qualquer coisa, mas não
entendi uma vírgula do que aquele bosta estava dizendo.

– Calma. Calma. Deixe-me tirar isso pra você – e dou uma chance de ele falar – pronto
melhor ass…
– Seu filho de uma puta!! Sabe quem eu sou? Óbvio que sabe! Você está morto seu
maldito! Morto! – disse ele histericamente e um pouco putinho da vida. Filhinhos de papai, vocês
sabem como é, quando se sentem ameaçados começam a falar tudo o que vão fazer se me
pegarem. Eu me irrito e amordaço-o de novo e me abaixo ficando cara a cara com ele.

– Olha, seu pai confia muito em mim! Nunca vai desconfiar de nada, mas graças a você
que manteve tudo em segredo até da sua família. Fiz as melhores encomendas pro seu pai, acha
mesmo que ele vai desconfiar? E já estou morto faz tempo. – alguma coisa já me dizia que estava.

Óbvio que me achariam. Mas eu tinha de tirar as esperanças daquele desgraçado.
Entro na escuridão e pego o taco, só vejo o filhinho de papai se balançando e resmungando
com aquele pano na boca, suava feito um porco. Acerto em cheio bem no meio da fuça do infeliz
fazendo a nuca se encontrar com a outra violentamente e o sangue escorrer feito um chafariz.

O pacote de número dois acordou!
– Shh shhh!! Não se agite. Você acabou de bater a cabeça. – disse calmamente e escuto
uns murmúrios tristonhos de choro vindo debaixo daquele capuz, e uns de raiva vindo do outro lá
trás. – Cala a boca seu lixo! – eu falo para o playboyzinho – E você tenha calma, vou levantar seu
capuz e tudo vai ficar bem. Okay?

O capuz balança dizendo que sim. Atordoamento e desespero fazem com que você concorde com tudo. Levanto calmamente o capuz, e quando pôde enxergar o meu rosto, me reconheceu na hora. Gritos e mais gritos de desespero tentaram escapar daquele pano imundo amarrado em sua boca.

Aqueles olhos verdes arregalados, apesar de um estar inchado e meio roxo, ainda assim eu os acho bonitos, acredita? Ela sempre foi esperta, e sacou qual seria minha jogada e o motivo de estar lá. Mas eu gosto de brincar no serviço quanto estou empolgado.

– Oh meu amor! O que foi que aconteceu com a gente? Tínhamos aquela gana de sair
daquela merda de vida que tínhamos. Vontade de conhecer o mundo. Aceitei a primeira proposta
de receber uma boa grana. Me arrisquei todo esse tempo somente pra um único propósito, e o que
você faz? Chora se preocupa comigo e dorme com o filho do meu chefe! SUA VAGABUNDA!

Perco a noção de mim mesmo e estico meu braço até o alto e desço com tanta força na cara
daquela vaca que aquele pano começa a ficar avermelhado e úmido. Tiro aquela mordaça
morrendo de vontade de ver qual foi o estrago que fiz e um dente cai banhado naquele melado.

Aquilo foi um prêmio!
– Seu filho da puta! O que deu em você?! Já não estávamos dando certo e você sabe disso!
Ficou obcecado que me perdeu e nem reparou. Eu saí daquela merda! Daquela merda de estar
com você!

– Vagabunda! Tudo o que eu fiz foi por você! Queria sair desse submundo tanto quanto
você! E você saiu ficando com o filho do cara mais poderoso da cidade! Tudo bem, meu amor, eu
entendo, você fez do seu jeito. Agora eu farei do meu.

Um largo sorriso escapa do meu rosto enquanto volto pra escuridão e pego a faca, o sal,
galão de gasolina e o meu isqueiro deixando-os bem a vista dos dois. Adoro meu trabalho!
– Meu pai vai ficar sabendo! Ah vai! Ele vai!
– Quero mais que se foda seu pai! E mesmo que ele se vingue de sua morte, bom, você não
vai estar por aqui pra ver isso meu camarada. Lembro que era assim que você chamava os outros.

“Camarada” – não consigo segurar por muito tempo e começo a rir. Rir feito um louco
ensandecido, e a piada nem foi tão boa. Com um sorriso mais largo do que nunca pego a faca e começo a passar levemente no rosto da minha querida “olhos verdes”. Nenhuma palavra, só o meu sorriso e a respiração ofegante de pavor e olhos arregalados vinda daquele rosto pálido em direção à faca.

Faço uns dois cortes superficiais em seu rosto, parecendo escorrer lágrimas de sangue daqueles olhos e ela começou a gritar! Faço mais um ou quatro cortes um pouco mais profundos pelo corpo dela aleatoriamente. Vou para o outro lado e faço a mesma coisa, só que exagero um pouquinho a mais com ele, abro um delicado sorriso naquela boca, faço um desenho qualquer na testa dele, só por diversão e ele grita mais alto feito um porco.

– CALA A BOCA MOCINHA! Tá fazendo feio pra sua garota, pô! Ela nem gritou tanto
assim – e dou-lhe com o cabo da faca bem no estomago – ah não! Você se mijou todo? Que feio!
Bom, meus amigos. Tá na hora do sal!
Pego o saco de sal e começo a derramar sobre os dois. Agora não dá mais pra saber quem
grita mais alto. Essa porra deve realmente arder!

– EI PEGA LEVE AE! E ACELERA ISSO! JÁ TÁ QUASE NA HORA! – meu parceiro
de guerra grita do lado de fora do galpão. Nem havia me tocado de que passou tanto tempo, e nem sei por que ele disse pra pegar leve. Não tem mais ninguém aqui pra ouvir!

– Tudo bem! – eu respondo – Já tô indo! Bom, vocês escutaram né? Eu tenho que ir. Uma
peninha queria ficar mais, estava me divertindo tanto! Pego o galão de gasolina e o isqueiro. Dou um beijo na testa da garota como um adeus, um daqueles beijos da morte. Teria sido na boca, mas eu sei que ela me morderia pra arrancar um pedaço. Como se não tivesse arrancado mais nada meu antes.

No desgraçado na outra cadeira eu acerto ele com o galão num dos lados da cara. Ele até cospe um pouco de sangue. Não posso perder mais tempo, começo a derramar a gasolina sobre os dois. Me lembro que deveria ter arrancado os dedos dele, mas agora não tenho tempo. Enquanto derramo escuto ela falando “Eu te amo” e a resposta dele “Eu também te amo, sinto muito!”.

Vejo até uma tentativa fútil e medíocre de tentar soltar os braços e segurar na mão do outro. Só me resta a rir! Faço um rastro com a gasolina até a entrada do galpão e dou um grito chamando a atenção dos dois, mas só ela podia ver o que eu estava fazendo, eu acendo outro interruptor e o galpão inteiro fica iluminado. Galões e galões de gasolina estão armazenados lá dentro!

– Nenhum legista desse mundo será capaz de reconhecê-los! Seu pai nunca vai te
encontrar! – risco o isqueiro próximo ao rastro e espero o fogo até chegar aos dois. Ah gritos e
mais gritos! Não podia ficar mais, aquele lugar iria explodir a qualquer momento. Entrei no veiculo que fez o máximo para ir rápido e não queimar pneus e deixar marcas.

Sem testemunhas e sem pistas. Já tenho a grana suficiente pra desaparecer e sair disso tudo! Meu parceiro vai saber dar conta do recado e já tem o álibi perfeito. Eu precisava apagar esse fogo dentro de mim e apaguei com gasolina!