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Contos Minilua: Ignorada #224

Pois é, e lembrando que todos os temas são aceitos: suspense, mistério, terror, enfim! Sinta-se à vontade a participar. O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Ignorada

Por: Nix Chimera

Acordei em meu quarto com a mesma roupa que fui para a festa da faculdade, assim que notei isso, soltei uma gargalhada. Eu nem lembrava como havia chegado em casa.

– Que droga – resmunguei esfregando as mãos em meu rosto – Como vou explicar isso para o meu pai?

Eu realmente não lembrava como havia chegado em casa, mas lembrava perfeitamente que havia saído da festa de carro. Meus pais haviam ido jantar na casa de amigos e resolveram ir de carona com outro casal, eu definitivamente não queria ir de táxi para a festa então peguei o carro deles emprestado.

Lembro que sai no meio da festa junto com minha amiga Laurie, não queria me meter em encrenca por ter pegado o carro sem permissão, sem contar o sermão que ganharia por voltar bêbada. No meio do caminho alguma coisa cruzou meu caminho e bati o carro contra alguma árvore ou muro, não consigo lembrar direito.

Não sei se sai do carro e fui andando sozinha ou se minha amiga me carregou. Tateei meu rosto em busca de ferimentos, mas não encontrei nada. Resolvi que ligaria para ela mais tarde, por ora, reuni coragem e sai do quarto para contar a minha versão dos fatos para os meus pais.

– Bom dia – disse alegre – Ei, que cara é essa? – indaguei espantada quando vi minha mãe com olhos vermelhos e meu pai com olheiras profundas.

Tudo bem que os dois brigam de vez em quando, mas dessa vez parecia sério. Minha mãe parecia que havia chorado há dias e meu pai que não havia dormido nada.

– Mãe, pai… precisamos conversar – disse enquanto me encostava no balcão da cozinha. Minha mãe realmente deveria estar furiosa comigo, pois nem chegou a olhar nem minha direção.

– Você vai ligar para a seguradora hoje? – ela indagou em voz baixa, parecia desinteressada.

– Não tenho pressa – meu pai respondeu no mesmo tom

Tudo bem que fiz besteira, mas como eu iria pra aula na faculdade? De ônibus? Nem pensar!

– Pai, vai levar alguns dias pra consertar – tentei argumentar – É melhor ligar logo e conseguir agendar um horário.

Martin, meu irmão caçula começou a chorar do quarto dele e minha mãe saiu da cozinha. Meu pai olhou fixamente para o balcão, próximo de onde eu estava encostada, parecia furioso ou… desanimado? Cansado de lidar comigo, talvez. Ele continuou mexendo na xícara de café sem ânimo algum. Ótimo, entendi o que estavam fazendo.

Eu nunca apanhei ou fiquei de castigo em minha vida, meus pais faziam algo pior: me ignoravam. Eu detestava esse tipo de punição, normalmente demorava uns três dias até voltarem a falar comigo.

Desisti de tentar apresentar minha versão e resolvi sair da cozinha. Vou entrar no jogo e falar com eles só quando voltarem a falar comigo.

– Nós te mimamos demais, querida – disse meu pai com um tom triste enquanto eu estava quase saindo, quase me partiu o coração, mas mantive a compostura e continuei no jogo deles.

Após quatro dias sem falarem comigo, parecia que a briga deles havia sido séria. Talvez o problema não fosse apenas a minha batida de carro, talvez meus pais estivessem à beira da separação e não nunca reparei nisso.

Eles mal se falaram nesses quatro dias, muito menos entraram no meu quarto. Meu pai saia todas as tardes e minha mãe implorava para que ele não fosse até “lá”.

– Ele tem uma amante? – indaguei ao ver minha mãe aos prantos após meu pai sair – É isso mesmo? E você vai deixar barato? – agora eu estava furiosa com a situação.

Não acredito que não notei antes! Era final de semestre, queria aproveitar as festas pós-temporada de provas. Meus pais pareciam um casal comum, nunca imaginei que estariam passando por uma crise dessas.

Deixei minha mãe ter um tempo sozinha e voltei para o meu quarto. Pela primeira vez notei que meu cesto de roupas continuava ali. Quase uma semana depois da festa e minha mãe não havia entrado no meu quarto para pegá-lo.

Estranho. Muito estranho. Meu quarto continuava bagunçado exatamente como havia deixado antes da festa, até as roupas que provei estavam no mesmo lugar onde as havia deixado. Sai do quarto bagunçado e fui até o quarto de Martin.

Meu irmãozinho estava brincando com Violetta, nossa cachorrinha. Ele dava aquelas gargalhadas gostosas de criança que eu amo ouvir. Assim que ele me viu, estendeu os bracinhos para pegá-lo, mas eu sabia que assim que eu o pegasse, seria um parto colocá-lo de volta no berço. Martin era um pouco mimado.

Violetta ficava empurrando a bola em direção aos meus pés e vivia errando o alvo, talvez estivesse ficando cega, tadinha. Passei à tarde com os dois já que eram os únicos que não me ignoravam. Martin sorria pra mim e esticava os bracinhos para me pegar e Violetta tentava a todo custo jogar a bolinha para mim. Foi divertido.

Mais três dias se passaram e tudo se repetia. Os choros da minha mãe, o silêncio sepulcral em casa e as saídas do meu pai. Ah essas saídas… Todos os dias eu instigava minha mãe a segui-lo, mesmo sabendo que ela continuava me ignorando. Minha rotina ficou retida a brincar com Martin e Violetta, a cachorra quase cega.

Gente, meu castigo já pode acabar e já podem mandar o carro pra oficina! Vou de táxi na próxima, prometo. Parece que até meus amigos resolveram me ignorar. Meu celular havia sido confiscado (já que não o encontrava em lugar algum) e nenhum dos meus amigos veio me procurar em casa. Ok, pessoal. Vou lembrar disso.

No fim do terceiro dia, meu pai saiu de casa e minha mãe parecia ter criado coragem para segui-lo até “lá”. Ela colocou seu casaco em silêncio e saiu de casa. Eu sempre apoiaria minha mãe, não importando o quão brava eu estivesse com ela; era visível que ambos estavam passando por uma crise e cabia a mim, a única filha, a ajudá-los.

Saí com minha mãe, andamos em silêncio lado a lado. Não reconheci o caminho que ela fazia, apenas admirei o belo parque que ela havia entrado. O lugar era calmo e muito bonito, era repleto de árvores e pequenas casinhas de mármore… coisa que achei bem estranha. Era um parque, mas essas casinhas davam um ar de cemitério.

Minha mãe parou em uma feita de mármore com detalhes florais em ferro, uma gracinha. Ao entrarmos na casinha vi que o teto era de vidro, bem como duas das paredes. O vidro parecia resistente e também tinha detalhes florais em ferro. No centro do local havia um retângulo largo, também de mármore, onde meu pai estava sentado, fitando o parque pela parede de vidro.

Ela se aproximou de meu pai e sentou ao lado dele, encostando a cabeça em seu ombro. Achei melhor dar um momento de privacidade aos dois, quem sabe iriam se acertar, mas vê-los assim era tão bonito.

– Querem que eu saia um pouco? – indaguei e me aproximei, colocando a mão sobre o ombro de cada um – Gente, já podem falar comigo… já faz uma semana! – bufei ao não obter resposta.

– Já faz uma semana… – minha mãe suspirou com voz embargada pelo choro.

– Sim. UMA! SEMANA! – confirmei irritada

– A casa fica tão vazia sem ela… – meu pai disse com um sorriso triste enquanto deslizava a mão sobre o banco. Não compreendi na hora o que ele havia dito, até que baixei meus olhos para onde ele havia deslizado os dedos.

No banco de mármore havia meu nome, data de nascimento e outra data logo abaixo. A segunda data era de um dia após a festa.

“Evelyn Michels”

17/05/1993