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Contos Minilua: In Marte #167

 Pois é, e desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

In Marte

Por: Coronel Mostarda

Me pego olhando o reflexo do meu rosto na janela pensando no motivo de estar aqui. Deve fazer quatro dias desde que sai do planeta Terra para uma das colônias de Marte. Ultimamente o trabalho lá na Terra é escasso, em pleno século XXII ela está à beira do colapso. O número populacional cresceu muito nos últimos anos, mas o mesmo não aconteceu com a oferta de trabalho e o maior vilão disso é a indústria robótica.

Eu como perito criminal perdi espaço no mercado para a sofisticação das máquinas. Desesperado, me alistei em um dos programas espaciais para a colonização de Marte, chamados de Inmarte. Na hora parecia uma boa ideia, mas a cada dia nessa nave eu vou me arrependendo de estar aqui. 
– Então senhor Guilherme, como se sente?- pergunta a psiquiatra, Lilian, para mim.

– É normal esse sentimento de arrependimento?
– Normal é normal. Mas com certeza o fato de você estar aqui é por que o programa Inmarte o qualificou como apto e necessário. Você sabe bem disso, fez a entrevista, os testes e os treinamentos, e pelo que tenho anotado você tirou umas das 10 melhores notas na história do programa.

-Nem sei como. Acho até que foi displicente durante todo o processo, fico me perguntado se isso está certo.

– Você deveria pensar pelo lado positivo, se mesmo sendo displicente fez uma das melhores notas, então imagine como seria caso você tivesse se esforçado mais. Mas não se preocupe, toda sua incerteza acabara quando chegar às luxuosas colônias marcianas.

– Acho que sim, obrigado pelo seu tempo, bom eu vou para meu quarto.
Saí da sala da Lilian, uma amiga de infância, imaginar que ela estaria aqui foi surpreendente. Não que as colônias sejam ruins, aliás, pelo que eu vi nas fotos elas são incríveis, mas acho que ela é boa demais para se isolar em outro planeta.

A nave por sua vez não é lá essas coisas, ela é grande divida em duas alas: à esquerda para os homens e à direita para as mulheres, tem muitos quartos, mas bem pequenos com banheiros, além de um grande refeitório e de uma sala de estar para todos usarem. A viagem levará dois anos, nossa alimentação é a base de água e barras de cereais concentrados com todos os nutrientes necessários para uma alimentação completa, porém elas são nada saborosas.

Não há muitas coisas para fazer aqui, além de ver filmes, jogar jogos, praticar alguns esportes e ler livros. Eu andava distraído pelos diversos e longos corredores brancos da nave (eles são pouco movimentados, pois a maior parte das pessoas preferem ficar na enorme sala de estar que fica no centro da nave) até notar um pequeno corredor, não muito longe do meu quarto, que me chamou a atenção, pois nele só havia uma única porta amarela estranha.

Fiquei parado observando para ver algum movimento por lá. Até me lembro de que no manual de instrução aos passageiros havia uma nota para evitar entrar nas portas amarelas, pois elas são da parte técnica da nave, que segundo o mesmo, é onde ficam as salas dos equipamentos que controlam os motores da nave. Isso me incomodou, pois não havia lógica para ela estar ali já que os motores na nave estão numa direção oposta. Aquela sala fica na parte frontal na nave, longe dos motores, da cabine dos pilotos e até mesmo da seção técnica.

– Ei cara o que você esta fazendo ai parado? – Uma voz ecoou pelo corredor, era meu vizinho de quarto, Alex.
– Você já reparou nessa sala?-pergunto a ele, pois se não me engano ele é mecânico, deveria ter uma base melhor que a minha.

– Me deixa conferir, uhhhhh, não é uma daquelas salas no manual que diz para a gente não entrar,… “perai”, essa sala aqui? Mas não é a que estão os controles da nave, mas eles estão do outro lado na nave.

– Pensei na mesma coisa.
– É estranho mesmo, mas pode ser a sala de calefação, sei lá, mas acho melhor evitar, pois as portas amarelas indicam que tem radiação no local, da para ver até o símbolo na porta. Deixa isso para lá, vamos lá para sala central, vai começar um filme bom.

 Por hora eu tinha deixado aquela sala de lado, mas durante os dias que se seguiam eu ficava a observando e me incomodava a falta de lógica para ela estar lá. Eu procurei por outra igual daquele lado da nave, e não encontrei nenhuma. Dando uma volta pelos corredores que a cercavam, pude estipular que a sala tem 1000m², muito grande para qualquer sala individual. Também reparei que não há nenhuma tubulação, canos ou fios saindo dela, é uma sala totalmente isolada. 

Pensei por diversas vezes estar paranoico, talvez o fato de ficar entediado cause essa curiosidade. No entanto isso ultimamente vem tirando meu sono, ao ponto de já ser um hobby meu andar pela nave durante a madrugada. Aqui usamos o mesmo padrão de cronometragem que o da Terra para manter regulado nosso relógio biológico.Já se passam 15 dias desde a nossa saída do planeta Terra, aproveito mais uma noite de insônia para andar pelos corredores que nesse horário ficam quase que totalmente vazios.

Andava distraído como de costume até que notei o que parecia ser uma criança, uma menina, andando pelo corredor, devia ter uns sete anos, não via seu rosto, pois ela estava de costa, só pude notar seus cabelos negros e curtos e que trajava um vestido branco. Comecei a segui-la, andando rápido, não a chamei, pois não queria acordar ninguém. Quando estava próximo dela, ela entra naquele mesmo corredor com aquela sala estranha. 

– Pare, não entre ai!-falei em tom moderado. Corri, mas a perdi de vista quando ela entrou no corredor, e quando cheguei lá não a encontrei, então deduzi que ela entrou naquela sala estranha. No desespero, tentei entrar, mas estava trancada. Peguei um extintor de incêndio próximo e comecei a bater na fechadura tentando abrir a porta. 

– Rapaz, o que você esta fazendo?-disse um dos guardas da nave. 

– Senhor guarda, você pode abrir essa sala? Eu vi uma menina entrar nessa sala, rápido ela esta correndo perigo de vida.
– Meu senhor, não há crianças de nenhuma idade nessa nave e de toda forma é impossível entrar nessa sala sem uma chave. Queira me acompanhar, por favor.

Esse detalhe não havia passado pela minha cabeça, realmente não se admitia crianças no programa, mas eu tenho certeza que eu vi a criança. O guarda me levou para uma das salas do ambulatório médico, pois não havia uma para detenção, acho que este fato ocorrido era inesperado para eles. Na sala havia dois guardas e uma enfermeira que me avaliou.

– Por favor, deixo-nos a sós – disse Lilian que acabou de entrar na sala.
– Desculpa doutora, eu não acho isso prudente, esse senhor acabou de ter um surto – respondeu um dos guardas que me encarava a todo o momento.

– Não se preocupe, fiquem do lado de fora, tenho certeza que o senhor Guilherme já se acalmou, e não representa qualquer ameaça, não é?
Concordei movimentando a cabeça. Quando os guardas e a enfermeira se retiraram, a Lilian ficou calada por uns 10 minutos lendo os papéis da minha avaliação em cima da mesa. Ela estava ainda sonolenta, então respeitei seu silêncio e aproveitei para admirá-la, sua beleza era inigualável, morena, de altura média e os olhos tão verdes como esmeralda.

– Então, Guilherme o que está acontecendo com você, pelo o que está escrito aqui, seus colegas notaram uma mudança de comportamento nos últimos dias.
– Acho que estou aborrecido por estar aqui, já se passaram…uns 15 dias desde a nossa saída da Terra, e já estou muito estressado pela falta do que fazer. Além disso, tem aquela sala que está me perturbando. Não gosto de ter dúvida, e não saber o que há nela me atormenta.

– O guarda me avisou que você tentou entrar nela a força. Eu poderia te ajudar e levá-lo para lá, mas não posso. Ela é a sala dos sistemas de motores da nave, tem muita radiação nela, e não há uma forma totalmente segura para entrar nela. Os próprios técnicos só entram lá em último caso.

– Mas eu vi uma menina entrando lá.
– Guilherme, eu lhe garanto, não há nenhuma criança nessa nave, para participar do programa é necessário ter no mínimo 21 anos, existe uma segurança muito forte para garantir que não entre ninguém além dos aprovados do programa.

– Eu sei disso, mas eu não posso estar ficando louco, eu sei o que eu vi.
– Você não está louco, acho que esse estresse causado pela sua curiosidade de querer saber o que tem naquela sala, fez você criar a imagem dessa menina entrando lá. Vamos fazer o seguinte, vou trocar seu quarto para um longe daquele corredor, ai peço para que você o evite. Também vou ter receitar um calmante, tudo bem?

-Está bem, mas aproveitando, você disse que aquela sala fica os sistemas de motores da nave, mas que motores? A sala fica na parte frontal da nave, estão muito longe dos motores que ficam na parte posterior da nave, isso não é ilógico
-Eu me certifiquei antes de passar essa informação pra você, naquela sala ficam os sistemas de motores laterais da nave, você não reparou neles quando entrou nela?

-Uhhh…não… não reparei. Bom, estou com sono agora, onde fica meu quarto?
– Agora ele vai ficar perto da minha sala, e só seguir o corredor que fica aqui em frente, o seu quarto será o 4° à esquerda. Guilherme confie em mim, tudo bem?

Volto a concordar apenas movimentando a cabeça, sai lentamente com a certeza que tem algo estranho em toda essa história, mas sem saber o que é exatamente. Eu vou continuar a averiguar, porém como meu quarto fica longe daquela sala, terei que tomar cuidado para não ser pego e acabar numa camisa de força.

Passaram-se três dias, mas não consegui nenhuma informação nova, já começava a me conformar com tudo, e pensando em deixar essa história de lado, para manter minha saúde mental. Mas quando me dirigia para o refeitório central, eu vi ao longe aquela mesma menina de antes, mas dessa vez ela estava em frente a um dos banheiros da ala feminina.

Corri o mais rápido que pude e dessa vez tenho a certeza de tê-la visto entrando no banheiro, não tinha para onde ir. Sem pensar duas vezes, entrei no banheiro, que por sorte estava vazio, esses banheiros é para uso coletivo, mas como maioria prefere usar os seus próprios banheiros de seus quartos, era esperado estar vazio.

O banheiro tem três boxes e uma pia com espelho, andei devagar e notei um ruído baixo, como se alguém estivesse chorando, vinha do último box, próximo a parede. Abri a porta de onde ouvia o ruído, então eu vi mais nítido impossível, aquela menina agachada, chorando escondendo o rosto de mim.

-Ei menina, você esta bem? O que faz aqui? -tentei ser o mais sutil possível, usando uma voz bem serena.
-Saia daqui, vocês estão correndo perigo.

Capitulo 2

Ver a menina ali agachada no chão do banheiro me deu a certeza que eu não estava ficando louco. Precisava mostrar ela para alguém para provar minha sanidade.
-Ei menina, não sai daqui que logo eu volto.
-Não vá, eles vão te pegar -disse ela ainda com rosto abaixado, chorando muito
-Não se preocupe ninguém vai me pegar, eu já volto, não saia dai.

Quando sai do banheiro, tranquei com a chave e a levei comigo, assim me certificaria que ela não iria sair de forma alguma. Procurei por alguma pessoa que eu conhecesse ou que no mínimo conversasse, e apesar de sempre ter alguém passando pelos corredores na hora do almoço, não reconhecia ninguém até me encontrar com Lilian.

-Doutora, doutora, por favor, vem comigo – a agarrei pelo braço e a comecei puxá-la.
-Calma Guilherme! Calma! O que você quer? Para onde está me levando?
-Eu já te explico, me acompanhe por favor.
-Está bem, mas pode me soltar? Está me machucando.

-Desculpe.
O problema de haver tantos corredores nessa nave, é que fica difícil de lembrar onde que ficava aquele banheiro que tranquei a menina. Eu me lembro de que fica perto do refeitório central, na ala feminina, e se não me engano no corredor 9. Após algumas tentativas frustradas, encontrei o banheiro que ainda estava trancado. Então coloquei a chave, a destranquei, e antes de abrir, me virei para Lilian e disse:

-Você lembra daquela menina que vi antes? Ela está aqui, preciso que alguém veja para mostrar que não estou louco.
-Ela esta aí? Então me deixe entrar, como será que ela entrou aqui?
Abrir a porta, e apontei para o último box. A Lilian andou sutilmente até lá.
-Não há ninguém aqui.
-Como não? Não e possível que ela tenha saído, ela tem que estar aqui, tem que estar-dizia isso enquanto revirava os boxes.

– Guilherme, eu percebi que você trancou o banheiro, não há como ela ter saído.
– Não e possível, ela saiu de alguma maneira…Olha, por aqui, talvez ela tenha saído por aqui-apontei para a tubulação de calefação.
– Olha Guilherme, as grades continuam presas. Escuta, eu não vou relatar esse episódio, tudo bem, mas quero que você esqueça dessa história de uma vez por todas.

-Não é possível que eu esteja louco -sentei e comecei a chorar.
-Você não está louco, você está sofrendo de estresse, está tomando o remédio que receitei?
-Sim estou – na verdade não estou tomando.
-Vamos sair daqui então, você não deveria estar aqui. Que tal um almoço juntos? Lembrar dos velhos tempos. 

Sem olhar para o rosto dela, de certa maneira constrangido, aceitei o convite. A Lilian e eu fizemos da primeira série ao colegial juntos, éramos próximos, não minto que sentia atração por ela, mas ela sempre tinha um namorado, então nossa relação só ficava no campo da amizade.

Íamos para o cinema, para as festas e estudávamos juntos para todas as provas. Mas no final do colegial pegamos caminhos diferentes e nunca mais voltamos a nos encontrar. O almoço não era lá essas coisas, mas como ela fazia parte no corpo médico, ela tinha algumas regalias.

-Toma, mas não fale para ninguém -disse ela enquanto me dava uma barra de chocolate – Vai ser nosso pacto, lembra?
-Sim sem dúvida, todas as colas que eu pegava de você e em troca eu pegava “emprestado” os morangos do meu vizinho.

– Sim. Fizemos muitos pactos.
Certas coisas tornaram-se raras como chocolate, morango e outras coisas deveriam ser tão boas.. Enquanto ela me dava o chocolate, notei que ela tinha uma pulseira entranha, metálica em seu punho direito.

– Que pulseira é essa no seu braço?
– Essa pulseira?….Uhhh, é a pulseira de monitorização do programa Inmarte. É nela que são me passado as informações sobre todos pacientes. Foi assim que naquele dia, consegui te salvar daquela enrascada com os guardas. Aproveitando, eu sei que você não está tomando seu remédio. Por favor, não vá se esquecer de tomá-los.

– Mas com…deixa pra lá, acho que não sou um bom mentiroso mesmo. Está bem eu vou tomá-lo hoje.
– Que bom, você precisa confiar em mim, além de sua psiquiatra sou sua amiga -disse enquanto pegava na minha mão. Eu estava desconfiado de Lilian, mas aquele almoço me fez perceber que ela não mudou nada, é a mesma meiguice de sempre.

Não me lembro de um dia feliz como aquele faz tempo, ainda passamos o resto da tarde e da noite juntos, acho que era o dia de folga dela. Voltei para meu quarto alegre e despreocupado, então percebi que o quarto dela ficava em frente ao meu, é claro, aquele corredor era o corredor central que dividia as duas alas. Tomei o remédio que ela me receitou e dormi naquela noite muito bem.

Nessa noite tive um sonho das coisas que eu fazia lá na Terra. Depois disso, sonhei com a parte dos testes, dos exames e do treinamento que fiz para entrar nesse programa, e depois veio um vazio, um apagão, e de repente me via já dentro dessa nave. Acordei assustado, só me lembrando daquela frase que a Lilian me disse quando a questionei sobre aquela sala estranha:

“Eu me certifiquei antes de passar essa informação pra você, naquela sala ficam os sistemas dos motores laterais da nave, você não reparou neles quando entrou nela?”. Eu simplesmente não me lembro de ter entrado na nave, e por mais que eu tentasse me lembrar desse momento, não via a imagem, só vinha a ideia de ter entrado na nave. Era isso que me perturbava quando sai do ambulatório naquele dia.

Já era cedo quando acordei daquele sonho, eu não sabia a quem recorrer, pois voltei a desconfiar de Lilian. Talvez a única pessoa que eu pudesse confiar é o Alex, ele foi uma das primeiras pessoas que eu conheci nessa nave, e se tivesse mais uma pessoa que não se lembra do momento que entrou na nave, poderia concluir que existe algo obscuro ocorrendo nesse programa. Procurei por ele pela nave, era cedo talvez ele ainda estivesse dormindo.

– Guilherme!!!!!!!!!! Cara finalmente te encontrei – gritou o Alex enquanto vinha na minha direção – Nossa nem imagina como eu te procurava, preciso de alguém pra fazer dupla de pingue-pongue, você me tinha dito que é um craque.

– Eu também estava te procurando, mas que papo…
– Então vamos indo cara – me interrompe antes que eu terminasse – “vamo” arrebentar, eu já estou com suas roupas de troca, “vamo” lá no vestiário.

–  Roupa para jogar pingue-pongue?
– HAHAHAHHAHAHAH, você e a sua super lógica, mas sabe que você tem razão, HAHHAHAHHAHHA -disse ele dando uma piscada para mim.

Achei aquela situação estranha, mas como eu queria falar com ele mesmo acabei o seguindo até o vestiário. O vestiário era pequeno, mas aparentemente pouco usado, era um bom lugar para conversar particularmente. Assim que entramos, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele olhou para mim com uma cara assustada e disse:

– Você estava certo, tem algo muito estranho com essa nave.
– Não entendi.
– Ontem, eu tive um problema com o sistema de calefação do meu quarto. Procurei a seção dos técnicos para fazer pedir o concerto. Entrei na sala sem bater, não achei que precisasse, ai vi um sistema de monitorização por toda a nave e só tinha guardas lá. Eles tentaram fingir uma naturalidade com aquilo. Obviamente nem forcei a barra e disse que estava lá pra pedir concerto do meu equipamento.

Eles logo me tiraram da sala e foram comigo até o quarto para resolver meu problema, mas não notaram, eu acho, que eu peguei um dos projetos da nave que estava em cima da mesa. 

– Você esta com o mapa ai? Deixa-me ver?
– Claro, sempre venho trazendo ele.
– Mas espera aí, como você sabe se eles não estão nos monitorando agora?

– Eu percebi que algumas dependências não tem monitorização, além dos vestiários, só tem a cozinha e as salas de portas amarelas. Eu já dei uma “olhadinha” no mapa, sabe aquela sala estranha, não tem nada no projeto indicando que é uma sala de controle de sistemas ou de equipamentos da nave. Aparentemente é uma sala sem qualquer ligação com a nave.
– Você viu no projeto algum motor lateral da nave?
– Não, por quê?

Por nada – não acredito que a Lilian mentiu pra mim. Ela deve estar envolvida em alguma coisa.
– Mas tem algo estranho que eu encontrei. Eu estava encontrando um meio de entrar na sala estranha, além da própria porta, e achei um jeito. Olha – falava enquanto apontava no projeto – se a gente vir por aqui… entramos num corredor externo que vai acabar dando… nas tubulações da calefação e se a gente seguir por aqui… vamos acabar saindo naquela sala, e é só por aqui que a gente vai ter esse acesso.

Mas sabe o que é estranho? Isso aqui é a saída de emergência para incêndio igual aqueles de prédios comuns.
– Uma saída de emergência para incêndios numa nave? Isso agora ficou mais estranho do que eu imaginava. Mas seja lá o que estiver acontecendo, a resposta deve estar nessa sala estranha. Cara, eu não quero te envolver em encrencas, mas eu vou ver o que tem ai.

– Mais encrenca que eu já estou metido? Eles vão dar conta logo do sumiço desse projeto, se já não deram, mas vamos fazer isso rápido. De toda forma, vamos lá jogar o pingue-pongue, para não chamar muito a atenção.

-Não se preocupe, eu tenho um plano. Amanha venha aqui, as 11.00 AM. Aproveitando, você se lembra com clareza de ter entrando na nave?

-Não se preocupe, eu tenho um plano. Amanha venha aqui, às 11.00 AM. Aproveitando, você se lembra com clareza de ter entrando na nave?  -UHhhh…Não…a primeira imagem que me vem a cabeça já… é quando estou na sala de estar escutando o discurso do capitão da nave. Mais é claro que a gente entrou na nave. Onde estaríamos? Da para ver pelas janelas o espaço.

– É você tem razão -obviamente eu continuo desconfiado com essa situação -então vamos indo.
Fizemos tudo de acordo com o figurino. Jogamos pingue-pongue, vimos filmes, almoçamos, passamos no ambulatório médico e psiquiátrico para as consultas de rotina, jogamos truco, jantamos e fomos dormir, tudo como num dia comum na nave. No dia seguinte, voltamos a nos encontrar no vestiário.

– Então qual é o plano?

– Vamos aguardar o alarme de segurança. Usei meios para me comunicar secretamente com alguns caras da nave para começarem uma confusão no refeitório. Como eles deviam algumas coisas para mim lá na Terra, eles vão fazer isso para mim, e não questionaram nada.

Só espero que toque o alarme assim nossa entrada na área de emergência não vai chamar a atenção, caso contrario, às 11.30 vamos de toda forma para aquele corredor que dá acesso ao sistema de calefação que leva para lá. Eu combinei com eles para começarem a confusão às 11.20, no mínimo, eles devem ocupar todos os guardas.

– OK.

Aguardamos por mais uns 20 minutos e como eu esperava tocou o alarme da segurança. Isso sem dúvida vai ser útil, pois não o acionaremos novamente quando entrarmos na saída de emergência. A saída ficava dentro do almoxarifado, uma ótima camuflagem. O alarme ainda tocava quando passamos pela porta de emergência e entramos nos corredores externos, que eram totalmente diferentes com o restante da nave, não tinha nenhuma pintura ou acabamento.

Após uns 10 minutos de correria chegamos às tubulações de calefação, eles eram estreitos, o que tornou muito difícil e demorado nosso percurso até o acesso a aquela sala. O alarme já havia parado quando chegamos ao local em questão, de dentro da tubulação não dava para se ver muita coisa, pois a saída era pelo piso. Como eu estava na frente, chequei o perímetro antes de sair. E foi então que vi a coisa mais horripilante da minha vida…

Continua