Contos Minilua: Inefável (parte II) #206

E sim, lembrando mais uma vez, que todos podem participar! Se preferir, envie matérias, contos ou desenhos. O e-mail de contato: [email protected]! A todos, uma excelente leitura!




Inefável

Por: Waldenis Lopes

Olhei para o meu lado e distante, eu podia ver uma das igrejas da cidade. Eu gosto de passar naquela de vez em quando, nos horários onde a capela está vazia, sempre nos fins da tarde de quinta-feira. Não gosto de entrar lá quando tem gente, as pessoas lá também me olham torto.

Será que elas acham que eu vou à igreja para pedir dinheiro? Eu pensava que os cristãos fossem mais sensíveis aos pobres… Mas acho que estes pobres que eles tanto falam é de outro tipo. Pelo menos o padre de lá é gente boa. Ano passado, na época do frio, ele e mais algumas pessoas distribuíram cobertores pra gente e deram agasalhos também. Sem falar que às vezes a igreja distribui cestas básicas pras famílias carentes… Mas meus pais nunca pegaram porque a gente não tem onde cozinhar as coisas…

Nosso alimento já tem que vir pronto de algum lugar. Eu tenho saudades da época em que o padre distribuía o sopão, nas sextas-feiras para as pessoas que vivem na rua. Era muito gostoso, davam até suco pra gente!

Mas a igreja acabou pegando fogo e eles tiveram que fazer muitas campanhas para arrecadar dinheiro e reconstruir o templo. O sopão foi suspenso… E eu não sei quando voltará, já que ainda há algumas partes do lugar que ainda não foram reconstruídos por completo. Mas pelo menos a capela foi.

Sabe, eu não culpo Deus por nada que acontece de ruim na minha vida. Acho que tudo tem um propósito. Se fosse pra jogar a culpa em alguém, seria nos homens mesmo, já que o que dizem é que Deus deu um tal de livre arbítrio pro povo, que é a liberdade de escolha. Daí, as pessoas escolhem se querem ou não fazer o bem, se querem ou não se compadecer pelos problemas do outro, se querem ou não ser livres.

A capela está vazia, e isso é bom. Não gosto de ser encarado de forma estranha por desconhecidos, mas na maioria das vezes não dá para evitar – como quando entro nos ônibus. Sim, eu estou fedendo, eu acho, e meu pé ainda sangra um pouco enquanto eu piso, mas tomei cuidado para não sujar o chão da igreja, por isso pulei com uma perna só até poder me acomodar em um dos bancos.

Olhei para aquele homem crucificado. Eu não sabia rezar, nunca soube. Mesmo gostando de ouvir o padre de fora da igreja com suas homilias, eu nunca parei para tentar decorar alguma das orações que eles faziam, acho que a única que eu sei é a Ave Maria. Até hoje me pergunto se Maria era uma ave mesmo ou se ave é algum título que exalta ela, isso me confunde. Bem, eu tinha que me apressar.

Olhei para o altar e agradeci pelo que tinha conseguido hoje. Já era alguma coisa e iria alimentar meus irmãos até meus pais voltarem com algo a mais. Antes de sair da igreja, encarei a estátua de um anjo que existia no canto da capela. Vez ou outra eu me indagava se eles de fato existem.

Minha mãe dizia que todo mundo possuía um anjo da guarda, que nos acompanha, nos ilumina, nos livra de males… Acho que o meu anjo deve estar de férias. Dei um pulo no banheiro nos fundos da igreja e umedeci um papel higiênico para limpar a ferida na sola do meu pé. Molhei outro e limpei o meu rosto. Olhei para o espelho manchado e suspirei.

Que face abatida. Que criança triste. Que olhos sem vida. Parece até que meus cabelos perderam a cor que tinha antes. Parece até que me tornei… Como chamam? Ah, zumbi! Parece até que me tornei um zumbi. Saí do cômodo, e antes de poder tomar meu caminho, escuto alguém me chamar.

- Matias!
- Padre Murilo! O-oi! - espero que ele não brigue comigo. Será que deixei alguma mancha pelo chão antes de sair?
- Tome.

- Hã?! O padre Murilo me estendeu um par de sandálias. Não pude acreditar quando vi.

- Pra mim?
- Sim, garoto. Eu o vi quando entrou na igreja. O que houve com o outro par de seus tênis?
- Eu acho que perdi.
- Andar com um pé descalço é muito incômodo! Não sei como você aguentou caminhar até aqui desse jeito.

Andei o dia todo assim, padre. Estou acostumado. Bem, eu não poderia contar a ele que meu outro par foi levado por um cão, ele não iria acreditar, nem eu acreditei quando o cachorro roubou o meu tênis! Acho que ele levou porque eu havia colocado dentro dele um saquinho com uma coxinha de frango dentro… Ele poderia ter levado só a coxinha.

- Obrigado, padre.
- Quando eu conseguir um tênis eu lhe dou, este que está no seu pé está muito surrado!
- Não precisa.

O padre Murilo olhou para a sacola que eu segurava e franziu a boca.
- Vejo que já tem o que de comer hoje, mas e amanhã?
- Não sei.
- Vamos fazer o seguinte? Passe aqui amanhã durante o almoço, assim, meio-dia mais ou menos.
- Comida?
- Espero que esteja forte para poder carregar uma grande vasilha. – o padre deu um tapinha na minha cabeça - Agora deixe-me ir, tenho uma missa para celebrar daqui a pouco. Tenha cuidado e vá com Deus.

Eu mal podia esperar para o dia de amanhã! Com certeza o padre vai dar muita comida pra eu levar! E a comida sem dúvida será muito gostosa! Porque todas as pessoas que frequentam essa igreja não são como o padre Murilo? Ou melhor, porque todas as pessoas do mundo não eram como ele? Será que é difícil ser uma pessoa boa? Hum… Como é que se diz…? Uma pessoa caridosa. Seria complicado?

- Matias… O papai e a mamãe disseram que iriam demorar, porque eles iriam pra outra parte da cidade ver se encontram mais papelão e latinha. – disse o meu irmão menor, pegando um dos pães que eu comprei com cuidado.

- O outro lado? Ah… Aqui por perto deve tá difícil de encontrar.
Isso me preocupava. Passaremos, provavelmente, boa parte da noite sem os nossos pais por perto. E já está anoitecendo. Quando a noite vem vindo e o movimento na rodoviária diminui, os mendigos começam a circular mais livremente, como zumbis (eis a palavra!), saindo de suas cavernas.
Tenho medo de que algum venha mexer comigo e com meus irmãos.

Decidi mudar de lugar hoje, apenas hoje. Se meus pais chegarem antes da metade da madrugada, acho que eles podem encontrar a gente. Pedi para o meu irmão menor, Davi, segurar a sacola com os nossos alimentos e devolver o pão ao saco. Mandei Tânia, de cinco anos, não sair de perto de nós.

Peguei o maior de nossos papelões – o que usamos para deitar – e dobrei duas vezes, de maneira desengonçada, tornando-o menor, para levar para o futuro lugar daquela noite que estava começando a descer.

Com o outro braço, joguei os cobertores sujos que nos protegiam do frio sobre os ombros e pedi que Davi e Tânia apanhassem as sacolas de roupas que sempre carregávamos. Caminhamos por entre o aglomerado de pessoas, tentando passar despercebidos.

Para onde eu olhava não via lugar cômodo para nos abrigar e nos esconder dos inquilinos perigosos daquele lugar. Davi disse meu nome e correu para uma cabine de fotografia três por quatro, que estava fechada e que ficava ao lado de um quiosque ‘abandonado’ da rodoviária; nunca vi aquele quiosque abrir, acho que era de lanche ou algo assim.

O lugar ficava entre estes dois pontos, e ajudava a nos ocultar em parte, pois havia um terceiro ponto: a parede de mármore da imensa escadaria. Posicionei o grande papelão ali e os cobertores. Mandei Davi e Tânia começarem a comer o que eu trouxe. Corri até o nosso antigo local e apanhei uma lona de plástico que estava dobrada num canto, perto do lixo.

Aquilo iria nos proteger um pouco do frio. Voltei ao encontro dos meus irmãos, abri a caixinha de leite e peguei os copos mais limpos que pude encontrar – encardidos e de plástico – que estavam numa lixeira próxima e enchi do líquido branco. Revezamos o copos e nos deliciamos com aquele leite puro.

Davi era o mais faminto. Ele arregalou seus grandes olhos quando eu passava manteiga em seu segundo pão, desejando que eu terminasse logo o ato. Tânia já estava sonolenta depois de um pão e de um copo e meio de leite. Deixei que eles comessem mais, afinal, eles precisam mais do que eu.

Continua…

  1. Rafabras Rafabras

    17 de agosto de 2014 em 04:35

    Gostei;
    Sim gostei, ainda não tive a oportunidade de ver a continuação, mas acredito q seguindo essa linha será muito interessante.
    Não me preocupo em o saber ou não o significado de alguma expressão mais rebuscada; já que nessa primeira parte ninguém disse q o “narrador” sempre viveu nesta situação… achei a história interessante, mas a maneira como ela é redigida é muito envolvente, gostei muito. Parabéns!

    • Wald. Angélico Lopes

      26 de setembro de 2014 em 18:56

      Obrigado, Rafabras!! *O* O O Jeff anda enrolando um pouco com a terceira e última parte, espero que não demore ainda mais. Hahahaha’

  2. Wald. Angélico Lopes

    28 de julho de 2014 em 15:36

    Eita, que surpresa! Nem vi que foi postada ontem! Bem, essa parte foi realmente mais neutra, pra poder preparar o clímax (eu o considero assim) da história. Eu realmente pequei em relação a linguagem da criança, já que é um garoto de rua, ele não poderia conhecer palavras tão rebuscadas (como a parte “algum título que exalta ela”), entre outras. Pensei em narrar algo na terceira pessoa, mas cheguei a conclusão de que eu perderia muito do interior do protagonista. Para mim, é como se ele tivesse seus 12-13 anos (o que para mim ainda é uma criança). Este texto, hoje, já está sendo modificado para se adequar à linguagem limitada do Matias. Obrigado por quem está acompanhando, espero que o final seja satisfatório para vocês, assim como foi para mim.

    • Wald. Angélico Lopes

      28 de julho de 2014 em 15:40

      Peraí, 26 foi sábado! Estou ficando desorientado. Enfim!

    • Wald. Angélico Lopes

      28 de julho de 2014 em 15:37

      E eu acho que usei muitos “mim”. Hahahahaha’

  3. Adriano Saadeh

    28 de julho de 2014 em 08:11

    Já tava na hora de sair a sequência…
    xD

  4. Dr.V

    27 de julho de 2014 em 12:48

    Gostei do conto.Digno de uma nota 8.
    Espero a continuação…

  5. Luís Felipe

    26 de julho de 2014 em 23:40

    Essa parte foi neutra, n aconteceu nada de interessante. Achei estranho o fato d um menino-de-rua saber o significado da expressão “algum título que exalta ela”.
    Mas o conto possui algo fundamental numa história: faz querer saber como continua.

    • Vinicius Passos

      26 de julho de 2014 em 23:45

      Ótimo comentário, Tbm fiquei descrente com “algum título que exalta ela”.

  6. Litzen Vampiro

    26 de julho de 2014 em 22:42

    Bem interessante, narra de um jeito muito bom, esperando a próxima parte…

  7. André Silva

    26 de julho de 2014 em 22:09

    Gostei do conto!
    Aguardo a continuação…

  8. Litzen Vampiro

    26 de julho de 2014 em 22:02

    Parte 2, acho que nem li a 1° ainda, vou ler ela…

  9. ErlyJy

    26 de julho de 2014 em 21:59

    Google Translator activated

    • Adriano Saadeh

      28 de julho de 2014 em 08:11

      Essa técnica é muito boa mesmo, acho que vou adotá-la no MiniluaTV para evitar a fadiga!

      kkkkkkkkkkkkkkkkkk

  10. Harry Alone Potter

    26 de julho de 2014 em 21:58

    Esse padre é tão legal com o garoto… ( ͡° ͜ʖ ͡°)

    • Wald. Angélico Lopes

      28 de julho de 2014 em 15:39

      Ora, mas que maldade! Esse padre não é desses :v Hahahaha’

    • cara anonimo

      26 de julho de 2014 em 22:25

      Na pascoa ele gosta da marca Garoto !

      • Thamara Thais Nunes

        26 de julho de 2014 em 23:24

        Kkkkk…

18 Comentários
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