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Contos Minilua: Jéssica #185

Suspense, mistério, terror…Sim, sinta-se à vontade a participar. O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Jéssica

Por: Phoebe Junie

Lá estava ela em seu primeiro dia de professora de artes na melhor escola da cidade. Ela amava desenhar, e entendia bem sobre o assunto. Era uma chance também de mudar de vida depois que saiu do orfanato. Estava já dentro do pátio da escola, quando ouve uma voz atrás dela.

– Bom dia senhorita Michele. – era ele, seu novo e único chefe, o diretor da escola.
– Bom dia.
– Venha cá, aqui é a sala dos professores, fique à vontade. – diz ele colocando a mão nas costas dela, e empurrando-a devagar até a sala. – Bom então, está pronta para o seu primeiro dia como professora? Ansiosa?
– Estou sim. Fico feliz de o senhor ter me aceitado aqui. Será que o senhor poderia me mostrar os horários da minha aula?

– Ah, sim claro. Tinha me esquecido disso. – diz ele, pegando um papel com as aulas.
– Aqui está. Boa sorte com os alunos.
– Obrigada. – responde Michele, girando a maçaneta da porta em direção ao corredor.

Michele era uma mulher linda. Cabelos pretos até o ombro, olhos castanhos, pele clara, magra e ao mesmo tempo um corpo de dar inveja as mulheres. Ela tinha ficado a sua infância e adolescência inteira num orfanato, depois que seus pais morreram em um assalto quando ela tinha apenas 8 anos. Nunca que esqueceria aquele dia, estava marcado em sua memória, o dia em que sua vida mudou completamente…

Finalmente, havia chegado até sala 8, na qual daria sua primeira aula, então se senta em sua mesa esperando dar o sinal e os alunos entrarem. Pouco tempo depois, a porta abre: os alunos. Eles sabiam que teriam uma nova professora. Aquela correria toda, cheia de crianças com em média 7 anos, a fazia lembrar da escola, quando saia para encontrar seus pais esperando-a na saída. Enfim, todos já em seus lugares, Michele acha que agora seria a hora de se apresentar.

– Bom dia, a partir de hoje serei sua nova professora, Michele. – diz ela, se levantando para se apresentar.
– BOM DIA!!! – gritaram os alunos em uma sincronia desajeitada
– Bom… agora gostaria que vocês pegassem seus cadernos e desenhassem como foram suas férias. – diz Michele, meio desanimada, andando pela sala olhando os alunos.
Passados uns cinco minutos, ela vê uma menina, sentada no meio da sala, olhando para o seu caderno em branco.

Ela era uma garota linda. Cabelos pretos lisos, até o ombro, parecidos com os de Michele, mas a única diferença era a franja que a menina tinha. Os olhos azuis chamavam atenção por causa de sua pele clara.

– Oi. Por que não está desenhando como foram suas férias? – pergunta Michele.
– Tenho que fazer isso mesmo? – pergunta a garota.
– Por que não faria?
– Não tenho muitas coisas para desenhar… – responde a menina, com cabeça baixa.
– Pode desenhar sua família se quiser.
– Por que? Acho melhor não…

A garota não olhava para Michele, só para seu caderno em branco.
– Tudo bem, se não quiser desenhar, não precisa. – responde Michele já saindo sem olhar para a garota. Depois da escola, Michele estava indo jantar em um restaurante, como fazia com seus pais, antes do acidente com eles. Já na mesa, lendo um jornal, percebe alguém do lado de fora, olhando-a e acenando para ela. Era ela, sua aluna que não queria desenhar.

– Olá professora. – diz a menina já dentro do restaurante.
– Olá, o que faz na rua a essa hora da noite?
– Estava dando uma volta, gosto de passear a noite, uma das minhas coisas favoritas.
– Hum… Está aqui para comer? Olha, eu não tenho dinheiro para mais uma pessoa desculpe.
– Não se preocupe professora, eu tenho. – responde a menina indo em direção ao balcão – Um cream soda por favor! – pede ela ao atendente que acena com a cabeça e dá uma volta para a cozinha fazer o pedido da menina.

Logo depois chega seu cream soda. Michele, mostrando-se concentrada no seu jornal que estava lendo, não dá atenção à sua aluna.
– Professora… Você não perguntou meu nome ainda…
– Pode falar.
– É Jessica, acha bonito?
– Sim, é bonito sim.
– A senhora está brava? – pergunta Jéssica.
– Não. Não estou não. – responde Michele sem desviar o olhar de seu jornal.
– Sabe… se a senhora estiver brava, eu sei uma maneira de te ajudar: falar sobre suas coisas

favoritas olha – diz ela, pegando um mini caderninho – esse é meu caderno de coisas favoritas, me ajuda quando estou triste. Que tal você falar sobre suas coisas favoritas? Do que você mais gosta?

– De uma criança quieta. – responde Michele, dessa vez olhando para a menina.
– Ah, haha, sim, me desculpe professora.
Meia hora depois as duas saem juntas do restaurante, mas sem se falarem.
– Jéssica, quer que eu te leve para casa?
– Não precisa professora… não precisa – responde Jéssica já indo embora.

No outro dia, já dentro da sala, Michele pede para os alunos que entreguem as tarefas que havia pedido no dia anterior. Cada um entrega o seu, em uma fila comportada. Quando é a vez de Jéssica, Michele percebe que seu pescoço está meio vermelho e pergunta:
– O que aconteceu, Jéssica? Seu pescoço está vermelho.
– Nada não… Eu estava brincando, e…. me machuquei – responde Jéssica, já indo em direção sua carteira sem olhar para trás.
Passado a aula, Michele vai até a sala dos professores. Logo ela entra no assunto de Jéssica e conta o que havia observado hoje. Uma outra professora também entra no assunto.

– Olha… pelo o que eu sei, Jéssica é maltratada por sua mãe, e possivelmente abusada pelo seu padrasto.

– O que?! Como assim, como uma mãe pode ser tão desumana assim com sua filha? – pergunta Michele, aumentando o tom de voz.

– A mãe de Jéssica é solteira, seu marido morreu quando sua filha tinha apenas 2 anos, desde então ela vem cuidando de Jéssica sozinha. Um pouco mais de um ano atrás, ela conheceu um rapaz, ai sua filha vem aparecendo com esses machucados, mas quando perguntamos, ela inventa uma desculpa.

– Que absurdo! Vou falar com essa mãe, na reunião.
– Melhor não, ela não vai dizer nada. – responde a outra professora.
No dia seguinte, depois da escola, Michele sabendo o que Jéssica enfrentaria quando chegasse em casa, pergunta a ela se ela não gostaria de dormir em sua casa. Felizmente a resposta foi sim.

Já na casa de sua professora, elas não podiam dizer que se divertiram. Michele era muito fechada. A menina ficou vendo os livros que sua professora tinha – livros de fantasia e contos de fadas na maioria – enquanto a professora estava fazendo o jantar. Pouco tempo depois o jantar ficou pronto. Estavam elas jantando, no silêncio, quando Michele decide… quebrá-lo.
– Esse caderno… É sobre suas coisas favoritas, não é? – Pergunta ela, apontando para um caderninho, igual a um bloquinho.

– Uhum, é sim. – responde a menina, fazendo sinal com a cabeça.
– O que está escrito nele? Posso ver?
– Claro. – diz Jéssica entregando o caderno.

Sua professora o abre. E vai lendo em silêncio.
No caderno estava escrito com letra de criança, mas de uma forma organizada, uma frase por folha: “fazer contato visual com gatos, som ao caminhar na neve, piso encerado no dia, escada de chaminé, mudança de roupas com as estações, laranjas flutuando na geleia, cheiro da rua depois que chove, assento traseiro de bicicleta, cotonetes, cortador de unhas, rabo-de-cavalo duplo, cafuné, ser abraçada, a mãe em um comercial de sabonete, cream soda… “

Provavelmente ela se dedica a pequenos prazeres a fim de esquecer a dor.
– Então são essas suas coisas favoritas… Gostei. – diz Michele, já com um sorriso de lado no rosto.
– E você professora? Quais suas coisas favoritas?
– Não sei se tenho algo que eu goste.
– Ah…

O silêncio volta, até que Michele resolve quebrá-lo novamente.
– Jéssica… Você quer ir amanhã no zoológico? Ver os animais… Podemos ir em outro lugar se você preferir. 

– Não professora… Acho melhor eu ir para casa amanhã, minha mãe deve estar preocupada já.

– Ah, sim claro, é melhor então. – responde Michele, arrumando a mesa.
No dia seguinte, depois da escola, Jéssica volta para sua casa.

– Oi mãe, estou de volta! – grita Jéssica abrindo a porta de sua casa.
– Oi filha… estou de saída, vou ao mercadinho aqui do lado, vai ser rápido. Você ficará bem? – pergunta a mãe, com um ar de triste e desanimada.
– Sim mãe, até mais.

A porta se bate. Sua mãe tinha ido embora, mas ela não estava sozinha. Seu padrasto ainda estava na casa, jogando videogame… como sempre.
A sala estava imunda, cheia de sacos de biscoitos, salgados, panos, restos de comida… E lá estava ele, como eu disse jogando videogame, no chão, na imundice em frente à TV.

Jéssica estava morrendo de fome, sabia que só podia comer na escola, ou se não ficaria com fome o dia inteiro, já que sua mãe só fazia comida para seu namorado. Até que ela vê um saco de biscoitos. Era uma chance de pegar alguns, já que seu padrasto estava distraído.
Ela tenta abrir o saco. Em vão. Depois de várias tentativas – mas em silêncio para não ser vista – ela sente uma pessoa atrás dela. Era ele.

– Olá… Senhor Fernando… – diz Jéssica, ainda se virando para olhá-lo.
– Oi Jéssica. Já chegou? Quer brincar um pouco de boneca?
– Cla – claro… – responde ela, já que não adiantaria se dissesse não.

Ele a leva até uma penteadeira. Pega um batom vermelho bem forte e passa nos pequenos lábios de Jéssica. Depois um par de brincos e um colar, e um vestido de cetim. Ela parecia uma perfeita mulher, era isso que ele queria. Quando ele estava terminando retocar o batom, sua namorada chega.
Ela fica em choque com a cena. Perde o controle.
– SUA PORCA! SUA PORCA! SUA PORCA! SUA PORCA! SEU LIXO!!! – grita ela, batendo em sua filha com um saco com compras.

Jéssica tenta se esconder embaixo da mesinha, mas sua mãe está fora de controle.
Michele estava voltando para casa naquela noite. Tinha ido jantar naquele restaurante de novo. Era uma noite fria e escura. Até que ela ouve um barulho. Estava só ela na rua. Do seu lado, um saco de lixo.

Era de lá que vinha o barulho. Não era por curiosidade. Algo estava dizendo, ela estava sentindo que devia ver o que havia dentro. Finalmente conseguiu tirar o nó e abriu a sacola. Ela ficou sem reação. Lá dentro o que tinha era sua aluna. Jéssica.