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Contos Minilua: No limite da amizade II #50

E para participar, você já sabe, envie o seu conto para: equipe@minilua.com! Os melhores, sem dúvida, são postados aqui, no Minilua.com! Uma ótima leitura!

No limite da amizade II

Por: Waldenis Lopes

Amanheceu. O sol surgiu espreguiçando no horizonte.  Acordei como se tivesse apanhado muito. Meu corpo estava realmente dolorido e eu não conseguia me levantar da cama. Talvez o medo e a aflição continuassem na minha mente… Talvez não, eles continuavam sim!

O dia de ontem foi horrível, aqueles momentos com Adonnes foram um filme de terror! Era quinta-feira… Decidi ficar em casa.

Adonnes tinha ficado enviando mensagens para o meu celular, com um tom de ameaça, eu acho… “Com medo de mim, princesa? Sorte a sua de eu não poder matar aula!” Ele não faltava às aulas para ter um histórico escolar perfeito, frescura de família, e ele achava a coisa mais normal do mundo.

Eu falei para minha mãe que estava passando mal e que se à tarde, Adonnes aparecesse, dela dizer que eu tinha saído com as minhas amigas para algum lugar, shopping, sei lá… Ela concordou e não me indagou. Mas eu não fiquei tranquila, ele realmente poderia aparecer, e querer me esperar… Droga! Liguei para a minha melhor amiga, para que depois da escola ela viesse aqui pra casa.

-Andressa! Que babado mais “lombrado”!

-Né?!

-Nunca que eu poderia imaginar isso do Adonnes… Quer dizer… Talvez só um pouquinho. Mas não chegava a tanto! Ele é um santo!

– Mas que se revelou um safadão, Athena! Um safadão! Vê se pode uma coisa dessas?!

– Eu imagino a sua dor… Conhece ele há um tempão, amigona mesmo! E ele nem pra deixar você perceber seu lado mal! Que malz!

-Aí você também quer!

-Né!?

– Poxa, Atheninha… Perdi meu melhor amiguinho… Agora ele quer é me pegar! Trágico!

– Temos que pensar em alguma coisa, Andressa.

Athena era a minha melhor amiga, descolada, descontraída, divertida, falava o que pensava. Bonita, de olhos castanhos escuros e de cabelos negros com mechas azuis. Sua pele morena era bem cuidada e ajudava a destacar suas eternas pulseiras coloridas.

A conheci antes do Adonnes. Pelo menos nela eu podia confiar. Ela levantou, passeou pelo meu quarto, olhou para as paredes, para a janela, para fora. Minha casa era um sobrado e meu quarto era em cima, dava pra ver direitinho o movimento da rua. Ela olhou pra mim.

-Andressa, será que ele sempre foi um pervertidão, assim?

-Acho que não… Ou sim? Ele não me contava quase nada da vida pessoal dele! Eu só o considerava muito sabe! Só sei de algumas coisas…

-Hum… Eu já ouvi umas conversas deste naipe na escola… A Kátia e a Samanta comentavam dele, que ele tinha uma boa pegada, que ele era safadinho…

-Sério?!

Fiquei chocada!

-Sim, sim… Mas elas disseram que nunca mais sairiam com ele, pois ele é muito “rodado”, pega todas e não tá nem aí pro sentimento alheio.

-Aquelas piriguetes que de vez em quando andam com a gente?! Kátia e Samanta… Jesus Amado… Que pecado!

-Acho que até as doninhas que ele ficou ele também já fez “créu”!

Adonnes realmente era um homem sem moral. Um garoto depravado… Ah! Um taradão otário! Cheio de lábia! Aquele cachorro! Geeeente! Que raiva daquele menino! Como eu pude ser tão cega?

Ouvi a voz da minha mãe chamando, ela veio até meu quarto e disse que Adonnes estava no portão, e que queria falar comigo.

-Ih, mãe! Não! Pode parar e despachar ele logo! A gente brigou tá bom?!

-Que pena! Um rapaz tão bonzinho! Trouxe até flores!

Flores?! Rosas vermelhas estavam nas mãos da minha mãe… Adorava rosas vermelhas… Não pude negar e aceitei o presente. Mas mesmo assim pedi que ela o mandasse embora.

– A dona Vera disse a ele que guardaria às flores?

-Acho que vai dizer.

Athena e eu decidimos espiar o Adonnes da janela do meu quarto. Conseguimos até ouvir um pouco de sua voz.

-Então tá ok dona Vera. Só queria me desculpar mesmo. Promete que vai entregar o buquê pra ela, tá bom? Tchau!

– “Rosas de perdão”. Que tosco. –disse Athena.

Peguei o bilhete no buquê e li em meia-voz: “-Eu sei que está em casa, moça. Não pense que não quero você. Agora, depois deste charme todo, você não me escapa! Beijinhos!”

-Ai, Athena! Tô no sal!

– Vixi, amiga. Temos que arquitetar um plano viu?!

Passamos a tarde conversando, tentando encontrar um jeito de sair daquela situação. Amanhã é sexta. E eu não posso me dar ao luxo de faltar à escola de novo. Tinha que resolver logo isso! Mas claro, não seria as escondidas, teria que ser num local aberto… O pátio da escola, no intervalo, parecia perfeito.

Sexta-feira, que merda! Costumava ser um dia feliz, mas hoje, parece um dia meio fúnebre. Levantei derrotada da cama, não tomei café, não consegui.

Saí.

Eu estava de toca, casaco e rayban e disfarçava o andado, caso o Adonnes me visse para não me reconhecer… Que cúmulo! Deixei meu celular desligado e desbravei manhã adentro.

A caminhada não era tão cansativa, me ajudava a pensar, eu chegaria ao meu destino dentro de uns vinte minutos. Numa esquina próxima ao colégio, Athena estava a minha espera. Suas mechas azuladas em seus cabelos pretos brilhavam de longe. Seus eternos jeans e os sempre fiéis allstar vermelhos chamavam atenção. Suas pulseiras coloridas balançaram quando ela acenou para mim.

– Pensei que deveríamos ser discretas. –disse eu.

– Você que é a vítima, amiga! Eu não preciso me moldar ao disfarce… Se bem que você tá chamando mais atenção do que eu… Hehehe!

Verdade. Andar com um rayban já não é lá tão discreto, imagina com um casaco e toca de bandido? Ai, meu Pai!

Fomos então, para o nosso destino… A morte! Chegando próximas a escola, lá estava ele, de tocaia no portão de entrada, ME ESPERANDO. Athena me olhou, olhou para ele e disse:

-Eu já imaginava isso, Andressa! Ontem ele ficou ali também! Quando eu o vi eu pensei: “Gente?! Quem ele tá esperando? Que cara de mau! Cadê a Andressa?” Aí você me contou todo o caso e eu entendi! Vamos entrar por ali, ó!

 O portão da garagem estava entreaberto. Restrito a professores e funcionários, podíamos nos esgueirar por lá? Era a minha única escolha, se quisesse assistir aula.

Miudinho fomos para a lateral dos muros, Adonnes ficaria num ponto cego, incapaz de nos ver. Entramos no estacionamento e com muita dificuldade pulamos as grades para dentro do colégio. Apressadamente nos dirigimos para a sala de aula, sentei no fundo, bem no canto do lado da porta. Athena sentou na carteira do lado e esperamos o sinal tocar.

Tocou.

Os alunos tomaram seus lugares. Athena me alertou quando viu Adonnes passando pelo corredor.

-Abaixa a cabeça, amiga!

Ele enfiou sua cabeça na sala e me procurou. Não me reconhecendo, saiu.

-Viu como era uma boa ideia vir de toca e casaco? Eu sou um gênio! Igual o significado do meu nome: Athena! A deusa da sabedoria e táticas de guerra! Sabedoria! É!

Sorri.

O tempo parecia que não passava. O nervosismo me fez passar mal. Fui às pressas ao banheiro. Vomitei. Depois da dor e do nojo pelo feito, caí em prantos e comecei a chorar. Encostada na pia e chorando de nervosismo, pensei: “O que fazer?” Uma voz familiar chamou meu nome fora do banheiro.

-Andressa?!

-Hã?! Filipe?!

Filipe… Eu não o conhecia muito bem, mas o achava simpático. Ruivo com algumas sardas, de boa aparência, cabelo espetado e olhos pretos. O que eu sabia sobre ele é que era inteligente, esportista e que conhecia Adonnes… Há mais tempo que eu. Saí do banheiro, o encarei, mas como estava sem chão, joguei-me em seus braços. Ele tremeu. Mas me acolheu. E me afagou.

-Tudo bem, tudo bem, vai passar…

Sua voz era serena, quase angelical, e me confortou.

Decidimos matar o terceiro horário e o chamei para conversar. Mesmo não o conhecendo direito, ele me transmitia muita confiança. Contei tudo que tinha me acontecido a ele.

-Sabe Andressa… Eu não sou tão amigo do Adonnes como você pensa… Mas o conheço o suficiente para poder te dizer uma coisa…

– O quê?

– ELE NÃO PRESTA!

Emudeci.

-Sabe… Eu e a galerinha às vezes nos reunimos, vamos para as baladas, festinhas, shows… E Adonnes sempre está com a gente. Contando vantagem, se exibindo e tal. Ele terminou com a ex por que ela não queria mais ser um brinquedinho. Ela sofria era muito nas mãos do Adonnes. – ele suspirou, olhou os arredores e continuou- E todos achavam você uma gata e botaram pressão nele pra te pegar, ele adorou a ideia. Não pense que participei destes comentários sobre você.

– Tudo bem… Não pensei. Já que está me confidenciando isso.

-Ele queria e quer você, como um troféu, um prêmio… Sei lá.

-Era isso que eu imaginava Filipe… Aquele cachorro!

– Ele só te enganou. Fez-te confiar nele para tentar isso. Mas graças a Deus que você é esperta!

-Né?!

– Valeu por ter confiado em mim, Andressa. Mas não irei te ajudar com ele. Este assunto é seu. Não posso me arriscar.

Olhei Filipe com espanto e pensei que ele era um cagão medroso… Mas beleza. Talvez ele respeitasse Adonnes e não quisesse manchar sua imagem diante dele. Tudo bem. Eu posso aceitar isso e meu coração continuará aberto.

Ele se afastou. O sinal do intervalo tocou.

Athena correu ao meu encontro, com aquela expressão de aflição.

– Amiga! É agora! Já falei com a Kátia e com a Samanta, elas ficarão por perto, qualquer coisa, a gente parte pro arranca-rabo!

Essas duas garotas, segundo Athena, ficaram com Adonnes, ele as conquistou e depois as descartou como lixo. Fiquei chocada. Quando eu as avistei, pude ver o brilho de vingança em seus olhos. Athena contou pra elas o ocorrido comigo, não discuti. Filipe estava observando de longe. As meninas se aproximaram de mim, Adonnes chegou.

– Oi, Kátia. Oi, Samanta. Tudo bom? Deem-me licença, quero conversar A SÓS com essa garotinha aqui.

– Nós não iremos sair Adonnes.

-Athena! Nem te vi! Você por aqui?

– Não! Estou ali ó, seu otário!

O sarcasmo de Athena era o máximo.

-Vi que já fofocou pra essas piriguetes sobre o ocorrido, Andressinha. Esquece elas, vem comigo, precisamos conversar.

– Na frente delas, querido! Elas já não sabem? Não vejo problema!

Os olhos de Adonnes reviraram, e ele fitou as garotas com total desdém. E lá foi ele começar de novo, a mesma ladainha de antes. Disse que me amava que daria tudo pra mim, se desculpou e tal, pediu um recomeço na amizade. Não vi um pingo de sinceridade no que ele disse e falei com as meninas:

– Ele tá mentindo, não é?

– Sem dúvida! – disse a Kátia.

– Tenho certeza disso! – falou Samanta.

– Amiga, ele é um otário! Vamos embora e não dê mais bola pra ele não!

Segui o conselho de Athena. Fomos saindo. Mas quando dei as costas a ele, Adonnes agarrou meu braço, me puxou e me agarrou. Começou a me beijar com selvageria e a alisar meu corpo. Constrangida e com a cabeça estourando, desci um tapa na sua cara. O estalo foi tão alto que ecoou pelo pátio do colégio. Ele voltou o seu olhar amarelado para mim e de relance…

Recebi um soco certeiro no meu rosto. Caí sentada. Todos ao redor pararam para olhar, gemi de dor, as garotas avançaram nele, como éguas violentas e indomadas.

– CALMA MENINAS! ELA QUE COMEÇOU!

-COVARDE IMBECIL!!! -Urrou Athena.

Vi uma luta um tanto estranha. As meninas começaram estapeando ele e depois o derrubaram com força no chão.  E então se deu início a vários chutes e pontapés no Adonnes, sem parar. Athena, louca do jeito que é, pegou impulso, deu um salto e caiu de cotovelo bem nas costas dele. Adonnes gemeu de dor. Todos os alunos ao redor estavam eufóricos e gritavam por mais violência.

O sinal tocou. Na minha escola, e acho que nas outras não é tão diferente assim, o que acontece no intervalo, fica no intervalo. Num piscar de olhos, todos já correram para as suas respectivas salas. As meninas me levantaram e me levaram para o banheiro, para que eu pudesse lavar meu rosto e cuidar do inchaço do soco do idiota do Adonnes. Ele, porém, em meio a grunhidos de muita dor, se ergueu, tentou se recuperar e mancando foi para a sua turma.

Sentei na minha carteira na minha sala de aula. Todos olharam para mim com aquele olhar de pena. “Olha a cara dela… Vixi! Tadinha da Andressa!”. Fiquei com aquela sensação de quem está sendo observada. Não me importei. Liguei meu celular. Uma mensagem do Adonnes.

“Adorei apanhar das meninas, foi sublime, quero fazer isso na cama, com você e Athena. Não pense que se livrou de mim, agora tenho mais fôlego. E vocês duas agora, serão minhas preciosas caças… Querem namorar comigo!? Kkkkkkk!!”

Mostrei a mensagem para a Athena e concluímos:

ADONNES ESTAVA LOUCO!

E agora, mais do que nunca. Precisamos de um novo plano! Um plano B!

FIM DA SEGUNDA PARTE

Eu estava fugindo desesperadamente! Ele estava me perseguindo! Eu ouvia seus passos claramente, apressados, pesados e furiosos! Adonnes estava atrás de mim! E eu só sabia que eu precisava fugir e correr com todas as minhas forças! O suor escorria pelo meu rosto, e caiam como gotas de chuva por terra. Olhei para trás rapidamente e o perdi de vista. Onde ele foi parar?

Ao passar por um beco, próximo a escola, vi Athena no chão, desfalecida, degolada, gritei horrorizada. A lua gemia com seu brilho fosco no céu. Adonnes me encontrou, e gritou de longe:

– É A SUA VEZ, ANDRESSA!

De repente tudo se fechou, quando olhei para o lado ele se jogou em cima de mim. Caí num baque. Ele começou a rasgar minha roupa e a me tocar, suspirando ferozmente, subindo e descendo com sua boca carnívora pelo meu colo. Sem pestanejar, atingi-o com uma faca na jugular de seu pescoço. A arma surgira do nada na minha mão direita, ele caiu morto a minha esquerda e eu, cheia de sangue… Soltei um grito de pavor. E lágrimas escorreram pelos meus olhos.

Num susto, despertei.

Um pesadelo. Odeio pesadelos. Quem não odeia? Puxa… Aquela facada parecia tão real, pude até sentir o calor do sangue de Adonnes escorrendo pela minha mão. Que sinistro… Estou amedrontada.

Levantei-me, fui ao banheiro e lavei o rosto. Olhei-me no espelho. A maçã esquerda do meu rosto ainda estava arroxeada e levemente dolorida… Adonnes, aquele garoto. Aquele soco. O duro foi dizer pra minha mãe que eu tropecei e caí. “De cara no chão, minha filha?” – disse ela.

Cinco da manhã. Sábado. Perdi o sono. Sentei na minha cama e abracei meu travesseiro. Comecei então, a refletir. Quando o conheci naquele evento, ele parecia inofensivo, e assim foi durante estes meses de amizade. Engraçado. Quando ele mentiu o motivo do término de seu namoro, ele disse que sua ex o havia enganado, mostrado a ele que ela era outra pessoa que ele não conhecia.

Foi isso que aconteceu conosco, não foi Adonnes?

Nós nunca conhecemos uma pessoa tão bem quanto gostaríamos. E eu pensei que você fosse à exceção para esta regra. Mas não foi. Você nunca me permitiu adentrar muito na sua vida pessoal, agora entendo. Será que existe alguma amizade verdadeira entre um homem e uma mulher? Sem haver interesses obscuros nisso? Eu quero acreditar que sim, mas estou muito ferida para crer nisso.

Em pensar que eu tinha uma queda por ele no início da nossa amizade… Parece até livramento de Deus de eu não ter tido nada, além disso.

Lobo na pele de cordeiro. Porém, um lindo lobo, branco de olhos cor de mel, cabelos pretos bagunçados, sorriso cativante, carismático… E mau caráter! Ruim pra chuchu! Não quero ouvir mais nada sobre ele neste fim de semana, preciso de paz!

Sem muita demora, já era sábado à tarde.

– Athena, repete o que disse, por favor… Quem está no bairro?- eu estava falando pelo telefone com Athena, ela estava eufórica e quase sem fôlego. – Fala garota! Quem?

-A Verônica, Andressa!! Chegou ontem à noite! Ela está aqui na cidade! E a Samanta e a Kátia contaram tudo pra ela!

-Tudo?! Tudo o quê? Sobre mim e o Adonnes…? Mas gente…! Mas… QUE VERÔNICA, ATHENA?

– A EX-NAMORADA DO ADONNES!

Um tufão passou por mim e invadiu o meu espírito. Meu coração ardeu e minha boca secou. A ex estava na cidade, e ela já sabia de tudo. Santa Mãe… Estou no Sal? Pelo que o Filipe me contou, ela terminou com ele por que ele só queria sexo. Só pensava nisso. Mas, agora, começo a pensar… Será que é verdade? Qual será a versão de Verônica? Segundo Filipe, Adonnes que terminou… Mas não faz sentido, já que era Verônica que se sentia abusada. Ela que devia ter terminado o relacionamento. Vamos descobrir.

Saí de casa, rezando para que o abençoado do Adonnes não surgisse no caminho. Bloqueei as ligações dele e fiz questão de excluí-lo do MSN, Orkut, Facebook, Twitter e dos contatos do meu e-mail. Matei o Adonnes virtualmente! Pelo menos isso. Athena me esperava em frente a uma sorveteria, junto com Samanta e Kátia.

Athena como sempre de allstar vermelhos e jeans. Já Samanta usava chinelas de dedo e brincos rosa que combinava com o tom azulado de seus olhos, Kátia usava uma tiara amarela que ajudava a destacar seus cabelos pretos cacheados e seu tom de pele morena. Com elas estava uma garota de cabelos bagunçados e loiros, de altura mediana, tinha um belo corpo e usava roupas justas. Ela esgueirou seus olhos claros, me olhou de lado, me analisou e me cumprimentou:

-Olá! Então, você é a Andressa…?

– Oi… E sim, sou eu.

Sua voz era estranha, como de uma mulher já adulta, e meio arrastada. Olhei para as duas antas, Kátia e Samanta e questionei:

-Por que vocês me dedaram? Hein?

Elas se olharam e deram de ombros. Samanta me disse que Verônica tinha que saber para que ela pudesse me explicar o que levou o Adonnes a aderir tal comportamento comigo. Olhei desconfiada, ela deu um sorriso amarelo, não retruquei, não discuti, apenas continuei:

– Tudo bem, garotas. Só não contem pra mais ninguém! Este assunto morre aqui! Tá bom?!

Elas concordaram.

Compramos sorvetes e fomos passear como lindas cinco amigas felizes! Não! O assunto era sério, e eu só tinha uma amiga no meio daquelas quatro, que era Athena. Paramos em baixo de uma árvore e Verônica começou a falar:

– O Adonnes sempre falava de você, sabe?! Eu morria de ciúmes! Quando vocês se conheceram, nós ainda namorávamos.

– Ele falava bem de mim? – tive que fazer essa pergunta, afinal, e se ele fora falso durante todo o nosso tempo de amizade? Era a hora de descobrir.

– Claro que ele falava bem! Vocês eram amigos, né?!

– Sim… Teoricamente.

– Lamento pelo que ocorreu entre vocês. Principalmente com você. No começo do nosso namoro ele não era assim. Ele era doce, meigo, queria casar, queria se preservar e tudo o mais. Achei super fofo! Mas eu não queria saber daquela babaquice…

O quê…? Agora entendo, Verônica era mais velha. Uns quatro anos talvez… Uma garota “experiente”… As peças iriam se encaixar?

– Eu o iniciei no mundo da luxúria. Do prazer pelo prazer, sabe? Mas eu não imaginaria que isso o transformaria tanto. O transformaria nisso.

– Nisso o quê? – como se eu não soubesse. Verônica, a safadona e Adonnes, o aprendiz que superou a mestra, que piada!

– Ele ficou viciado, insaciado, estava sempre querendo mais e mais. Começou a agir por instinto. Por desejos. E isso me deixou extremamente receosa.

Quer dizer que o sexo virou droga para o Adonnes? Ai, que anticristão. Verônica me deixava curiosa, ela falava tão bem, tão certo, tão calmamente, parecia até locutora de uma rádio. As meninas sentaram na calçada e continuaram atenciosas. Eu continuei em pé, com uma expressão de desaprovação, mas querendo ouvir o restante.

– Existem viciados de todos os tipos, não só de álcool ou de drogas. Mas também de TV, videogame, Internet, Coca- Cola, de ficar, de banhar, de comer doces e de sexo!

Não me diga! Dã!

-Este é o pior, pois ele não enxerga mais as pessoas como pessoas, mas como objetos.

É impressão minha, ou essa tal de Verônica tá querendo dar uma de psicóloga?

– Bem, então o nosso querido Adonnes precisa de ajuda? Não é?!- disse eu.

– Não adianta queridinha… Talvez a saída seja a internação.

Internação? Aonde? Essa menina é louca? Se colocar o Adonnes numa clínica, sei lá, onde for ele vai pegar as médicas e as pacientes todas! Nunca ouvi falar em tratamento para tarados, o único que eu sei é a castidade e a oração e olhe lá!

– Os pais dele notaram o seu comportamento estranho, e o levaram ao psicólogo. E descobrimos que o Adonnes é bipolar.

Mentiraaaa!! Bafão do clero, gente?! Dupla-personalidade? Avá! As meninas se entreolharam em pânico! “Me amarrotem, tô passada”! Uma pessoa que hora está boa, hora está má. Uma pessoa em conflito interno. Será…? Que pena do meu ex-amiguinho! Ele deve sofrer… Mas… Como eu nunca soube disso? Ah, esqueci… Ele não me contava lá muita coisa de sua vida particular, só o básico. Agora, analisando a situação, não é justo tratá-lo com tanta indelicadeza.

– Quando eu viajei para outro estado- Verônica continuou- foi para ir embora sem magoá-lo. Ele surtou, e me ameaçou com a morte se não voltasse. Tive que voltar. Quando voltei, discutimos. E começou tudo de novo…

A tal viagem dela. Ela estava fugindo…?

– Mas ele parecia tão normal comigo, os pais dele com ele, as coisas…

– Tudo teatro dos pais, minha queridinha! E ele, por ser bipolar, tem seus momentos bons. E já que você o tratava bem, tinha uma amizade saudável, ele conseguia manter-se normal.

E ficou anormal quando tentou me atacar? Seria a outra personalidade? Caracas!

Verônica olhou o relógio e piscou seus olhos copiosamente. Parecia um tique nervoso. Conversamos durante mais alguns minutos, coisas dispensáveis, pois eu não estava entendendo muito bem o que ela estava me dizendo. Até que ela olhou para o seu relógio de pulso de novo e disse, afobada:

– Oh, meu Deus! Preciso ir! Olha a hora, estou atrasada! Foi um prazer te conhecer, Andressa! Espero que tenha entendido toda a história, sinto muito e boa sorte. Independente da decisão que tomar em relação a isso, eu lhe desejo sucesso!

Agradeci. Ela se apressou e desceu a rua correndo. Achei esquisito. Kátia e Samanta se entreolharam e deram de ombros. Levantaram da calçada, discutimos um pouco sobre a descoberta e sobre Verônica e depois nos despedimos.

Athena e eu fomos caminhar pela praça, tanto ela quanto eu pensávamos muito. Sentamos num banco e contemplamos o céu e suas nuvens. Tão azul. Tão brancas.

– Isso é tão seriado americano, Andressa.

Eu ri.

– Né?!

Apoiei meus cotovelos nas coxas e descansei meu rosto nas mãos. Realmente, essa história toda parecia tão surreal. Um bipolarizado entre nós. Mas num nível tão assustador… Sinistro!

Sábado acabou. Domingo passou. Segunda-feira correu, a semana voou! E Adonnes não apareceu mais na escola. E se ele estiver internado por sua loucura? A versão da Verônica seria verídica, mas… E se alguma outra coisa tiver acontecido…?

A direção da escola disse que ele pediu transferência. Os amigos dele já não sabiam dele… Ou estavam escondendo o jogo? O que houve? Passei inúmeras vezes na frente da sua casa, estava vazia, e com uma grande placa de aluga-se. Ele se mudara. Sem me contar nada… Também, eu o excluí da minha zona digital. Não tinha como saber. Pensei em ligar… Não tive coragem… Estou com sentimento de culpa? Isso é ressentimento? O que o meu coração quer? Sinto que ele quer dizer alguma coisa para aquele garoto, mas o quê?

Já é Domingo. Estava arrumando a bagunça do meu quarto. Muito bagunçado por sinal. Meu celular começou a tocar, era um número desconhecido. Atendo? Curiosa como sou, atendi. Era Adonnes. Estremeci, meu coração acelerou. Carreguei o desprezo na minha voz para falar com ele.

– Andressa?

– É ela.

– Sou eu.

– Percebi.

– Me perdoa.

Congelei.

– Sabe, estou arrependido de ter tentado algo com você, de ter ameaçado você, a Athena e tal… É… Então, sabe…

Ele estava embaraçado. Mas sua voz estava calma. Continuei na linha. Queria muito ouvir o que ele tinha para dizer, e queria também, ouvir a sua voz… Poderia ser a última vez em que eu a ouviria.

– Você foi alguém muito especial na minha vida. Você foi a única garota que não cedeu aos meus caprichos, que lutou para que eu não realizasse minha vontade… Acho que foi isso que me enlouqueceu.

Nossa…! Será que foi isso que liberou seu lado pervertido…?

– Adonnes… – ele me interrompeu.

– Eu falo, deixa que eu falo. Você escuta. – Engoli em seco, ele continuou- Você me compreendia me alegrava, me fazia sentir importante, só que eu nunca liguei pra este tipo de afeição… Quando endoidei de desejo por você, você não foi muito radical para fugir, não me ameaçou. Você só se defendeu. Pediu ajuda as meninas. Justo, para um covarde como eu. Eu mereci apanhar.

Fiquei sem palavras… Mas algo estava me incomodando.

– Você tá bem? Tá se tratando?

– Como é? Tratando?

– É! Eu sei da sua bipolaridade, Adonnes. E que você é viciado em sexo!

– Quem te disse isso?

– A Verônica! Sua ex!

Ouvi risadas e gargalhadas do outro lado da linha.

– Adonnes, você tá se tratando?

– Ai, Andressa… Eu só concordo com o lado viciado, pois eu sou mesmo! Mas bipolar? Não acredito que ela disse isso!

– E não é…?

– Claro que não! Pra sua informação, eu terminei com ela porque ela que era a doida! E não eu! Quando ela foi para outro estado, foi tentando fugir de seus pais, para não ser internada. Por isso nós brigamos.

– Então…?

– Eu só sou taradão, e só!

Ele realmente se orgulha disso? E não se importa? Cheguei à conclusão que o Adonnes só se importa com o hoje. Mas e depois?  Aproveitei o momento.

– Por que durante a nossa amizade você não me contou nada? Você nunca aprofundou o lado pessoal e íntimo da sua vida? Por quê?

– Isso não é algo que “amigas” devem saber sobre seus “amigos”. Afinal, pelo simples fato de você ser mulher, existe várias coisas que você não precisa saber sobre nós homens. E perdão de qualquer forma. Se eu quis te fazer mal e tal, se fiquei pelado na sua frente, se te dei medo e o resto.

– Você deve saber muito bem, que depois daquilo tudo, eu perdi a minha confiança em você! Poxa, Adonnes. Por quê?

– Instinto, safadeza, desejo, pecado… Dê o nome que quiser. Não me importo, eu gosto e pronto! É minha vida, é minha realidade, é meu pecado de estimação.

Não… Isso é carne, é vício, isso é desculpa, é máscara. É o que ele acha que é vida, mas é fuga da realidade.

– Fique tranquila, Andressinha… Moro longe agora. Não convém você saber onde. Mas não pense que eu me mudei para seu próprio bem ou o meu. Meu pai conseguiu um emprego melhor aqui, por isso da mudança. E como você me excluiu das suas redes sociais na net, não me preocupei em avisá-la.

– Tudo bem…

– Mas mesmo se continuasse aí, eu não iria tentar mais nada sabe…? Pra quê? Pra você contar pro seu pai que é policial e ele me prender? Tô fora! Mas diga a Athena que eu acho ela gostosinha e que eu daria uns pegas nela! 

Sem vergonha.

– Antes de eu desligar, só preciso que você me responda… Eu sei que é critério seu não odiar ninguém e nem desejar o mal… Então… ME PERDOA?

Apesar dele não merecer, o Adonnes marcou minha história, no lado bom e mau. Uma das minhas qualidades que eu não abro mão é a clemência. Sim, todos nós merecemos perdão, afinal, somos humanos, somos pecadores, e pra quê carregar ódio e rancor? A raiva que eu tinha do Adonnes foi algo passageiro. Acho que era isso que meu coração queria dizer a ele. Não é culpa nem ressentimento que eu sentia. Era a vontade de perdoá-lo, sim. Perdoá-lo.

– Sim, Adonnes. Eu te perdoo.

– Valeu Andressa. Só mais uma coisa…

– Sim?

– Ser virgem hoje tá fora de moda! Guardar isso é besteira! Muito antiquado isso, Andressa!

– Cala a boca, idiota! Eu obedeço ao meu Deus! A minha religião não permite! Ser obediente me preenche! E sem aliança no dedo, nada feito meu bem!

– Você não muda mesmo.

– Se converta! A vida não é só aqui, não é só hoje, não é só agora! Você vai acabar se machucando, Adonnes! Escuta o que eu digo!

– Tá, tá… Eu sei me cuidar, sua chata. Preciso desligar, foi bom ouvir a tua voz, pela última vez.

– Adeus, foi legal. Não me ligue mais.

– Não vou.

FIM DE CHAMADA.

Um tchau definitivo encerrou nosso último contato. Agora, em quem acreditar? Na versão de Verônica ou de Adonnes? Fui investigar.

É… Parece que Verônica estava em tratamento numa clínica psiquiátrica até receber alta. Mas na alta ela fugiu de casa. Foi aí que ela me contou tudo aquilo. Contou-me não. Mentiu-me tudo. Ela já voltou à clínica e não receberá alta tão cedo. A bipolaridade dela é grave, violenta e mentirosa. Adonnes, deveras era um pervertido do armário, que saiu do armário! Coitado. Escravo de seus desejos e vontades. Que Deus tenha piedade.

Todos voltaram a sua rotina comum, e eu também.

Filipe. Aproximei-me mais dele. O achava interessante e muito gentil, educado e respeitador. Seus olhos amendoados e negros me cativavam. Suas sardas e seu cabelo ruivo espetado era um charme. Sem falar que ele era esportista, um bônus a mais para ele. Meu namorado. Meu primeiro namoro. Ele era bem recatado e tinha o maior cuidado comigo, um fofo! Concordamos em ter um relacionamento sério, nada além da linha vermelha, se é que vocês me entendem.

Uma coisa eu acho engraçada. A Athena desaprova meu namoro com Filipe. Ela diz que como ele era da turma do Adonnes, ele pode ser do mesmo jeito dele. Discordei. Filipe é um anjo. Mesmo ela pensando assim, continuamos super amigas. 

Hoje, um belo dia de sábado. Fui a casa dele para sairmos pro nosso encontro. Entrei e o esperei sentada no sofá. Ele veio se sentou, me beijou. Seus lábios tocavam os meus com muito carinho, suavemente. Sua voz angelical me deixava confortável. Mas… Havia algo estranho naquele ambiente…

– Cadê o pessoal da sua casa, Filipe?

– Saíram. Foram visitar um parente nosso. Estamos sozinhos.

Ai pára. Sinal de perigo. Já conheço essa história. Senti-me num dejá vu.

– Ai, meu Pai…

Filipe se levantou, fechou a porta da sala, tirou a camiseta, virou-se para mim e sorriu maliciosamente.

FIM DA TERCEIRA PARTE.

Para a primeira parte do conto, clique aqui: http://minilua.org/contos-minilua-no-limite-da-amizade-45/