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Contos Minilua: Manhã estranha #132

Sim, e para participar, não tem mistério. Para tal, envie o seu texto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Manhã estranha

Por: Lucas Nunes

Havia acordado cedo naquela manhã. Não era de costume, mas algo me preocupava durante o sono que deixou minhas pernas bastante irrequietas durante a noite. Os cobertores se entrelaçavam entre minhas pernas, minha camiseta torcia e apertava meu dorso e o par de meias já havia sido chutado há muito tempo. O lençol há muito já estava desalinhado e solto, enrolando-se junto com os cobertores numa dança sensual sem nexo nenhum.

Levantei-me, com os olhos turvos e os músculos fatigados de uma noite de sono agitada. Passei pelo corredor sentindo o piso frio contra meus pés descalços.

O sol começava a dar seu brilho no horizonte recheado de telhados vermelho cerâmica – alguns manchados de musgos, outros, brilhosos, lustrados e limpos. Um dia de sol e tempo claro, senhoras e senhores, aproveitem; seria o que algum locutor matutino de rádio diria para abrir o programa.

Já pela metade do corredor, o cheiro de café era intenso. A cafeteira automática, de fato, tinha sido um ótimo investimento. Trinta minutos antes do despertador tocar a máquina já fazia o belíssimo trabalho de moer, passar, aromatizar, filtrar, adoçar e aquecer o café. Faltavam dezenove minutos para o despertador tocar, mas eu não esperaria por ele para começar meu dia. Servi o café numa xícara que peguei do escorredor de louças ainda cheio, sentei-me à mesa e liguei a televisão pelo controle remoto.

A televisão tinha sintonizador de canais automatizado, o que me livrava, tal como a cafeteira, de realizar um trabalho manual. Quinze segundos, trinta, quarenta e cinco. Um minuto, dois. Encarei-a, com a xícara de café fumegante na mão por todo esse tempo, e ainda não havia sintonizado nenhum canal. Pus a xícara na mesa e fui verificar as conexões da parte posterior da televisão. Todos perfeitamente engatados, fixos, firmes e inteiros.

Manutenção de alguma antena, disse para a xícara de café que não refutou meu argumento. Sentei-me novamente e terminei de tomar o café, encarando os ladrilhos das paredes pensando em trocá-los no mês que vem.

O café foi revigorante. Nada de fadiga muscular nem olhos pesados; o dia havia de fato começado. Vesti uma camisa passada minuciosamente pela lavanderia, uma calça de sarja usada, meias limpas e um sapato preto de cadarço. Retoquei o cabelo com um pente fino, passei perfume nos pulsos e no peito mal depilado. Escovei os dentes e chequei o quão branco estavam no espelho embaçado do banheiro.

Pronto para mais um dia. Desci as escadas do prédio fazendo barulho com o salto do sapato, que, bastante usado, não rangia as dobras do couro. Dois lances de escada. Porta de saída. Estacionamento. Alarme do carro. Abro a porta e giro a chave. O motor roncou como um leão na garagem, intimidando o resto dos carros com motores medíocres. Apertei o botão do controle do portão da garagem. O caminho para o trabalho começou, senhoras e senhores.

Seis e vinte. O despertador devia estar tocando sozinho no apartamento, acordando os vizinhos que certamente estariam muito bravos por ninguém desligá-lo àquela hora da manhã. Liguei o rádio com a certeza de que não ouviria nada de agradável no caminho para o trabalho. Sintonizei numa rádio aleatória em que os radialistas tinham vozes sufocadas, abafadas e distantes, devido ao microfone antigo ou ao sinal que eu estava recebendo.

Muito provável que tenha sido a primeira opção. Rádio amadores não costumam investir em microfones bons, preferem optar por aparelhos de transmissão mais potentes para atingir mais ouvintes. Quantidades versus qualidade.

O dia estava belíssimo. O clima era seco, o céu era alaranjado, o vento era quente e o trânsito estava calmo – até demais. Via-se um ciclista já com o primeiro cigarro na boca, um estudante carregando uma pesada mochila, uma senhora carregando uma sacola parda repleta de temperos, e eu, ouvindo rádio amadora as seis e meia da manhã.

Parei num sinal vermelho num cruzamento onde não havia nenhum carro nas outras três pontas. Um tanto estranho, mesmo para um horário tão cedo. Nenhum ônibus, nenhuma moto, nenhum caminhão. A rua estava livre para mim e para o ciclista. O ciclista, esperto, aproveitou o fato de não haver carros e passou pelo sinal vermelho, olhando rapidamente da direita para esquerda querendo se certificar de que nenhum carro havia aparecido por ali de repente. Enquanto eu esperava. E ouvia os murmúrios do rádio.

O sinal abriu. Arranquei o carro. Baixei o vidro e acendi um cigarro. O primeiro da manhã e do dia. Seis minutos depois estava em frente à agência bancária. Estacionei. Fui até a cafeteria para comprar mais um café. Fechada. Tudo bem, devem abrir só as sete.

Desisti, portanto, do café, que iria se tornar muito apetitoso após aquele cigarro. Caminhei lentamente, sem pressa, até a porta do banco. Fechada. Trancada com correntes e cadeados. Tudo bem, o segurança ainda não deve ter chegado.

Sentei-me no meio fio, agora um pouco depressivo por não ter o que fazer até o banco abrir. O rádio amador era uma opção, dentre as pouquíssimas que eu tinha. Olhei novamente para a porta do banco, como se quisesse me certificar de que a porta fechada não era uma ilusão. Havia uma folha branca com palavras em azul, feitas com uma caneta de ponta grossa.

Curioso, fui até lá para ler. Esperançoso, caminhei sobre a calça de basalto com os olhos semicerrados, numa tentativa frustrada de ler de longe o que estava escrito ali. Foi então que, há alguns palmos de distância puder ler. Estava escrito: Não abrimos aos domingos.

Bem que eu vi que tinha algo errado naquele dia.