Contos Minilua: Maria #168

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Maria

Por: Ariane Pierini

 Mermaid_Ariel_by_AlenaLazareva

Eu sempre tive uma fascinação por mulheres de cabelos escuros, lábios carnudos, olhos verdes e corpos esculturais e Maria se encaixava perfeitamente nesses padrões. Não tão perfeitamente, é claro, pois seus olhos eram de um negro prateado profundo e frio que, ao contrário dos verdes, não eram quentes e românticos.

Eu a vi pela primeira vez em uma das baladas mais caras de Londres, e não exagero quando digo que todos os homens olhavam para ela quando passava pela pista de dança com passos suaves, impossivelmente suaves nos saltos agulha da sandália que usava e eram da mesma cor de seus olhos.

O seu vestido discreto era branco e leve, marcando suavemente os contornos do corpo perfeito sem parecer vulgar, diferente das outras garotas com vestidos muito curtos e extremamente justos empurrando os falsos seios numa posição que desafiaria a gravidade de Júpiter. Seu rosto era perfeito e ela não usava maquiagem, deixando a mostra algumas sardas discretas e os lábios eram de um vermelho quente e rosado.

Seu rosto demonstrava uma tristeza que estava além da minha compreensão, e eu pensava como alguém poderia magoar assim tão bela criatura. Ela levantou o rosto e me viu encarando-a, e então abriu um sorriso belo que ao mesmo tempo assustador. Aquela misteriosa mulher era algo além de humano, disso eu tinha certeza, mas o meu instinto de perigo estava desligado desde o momento em que a vi.

Ela me disse que se chamava Maria e era de algum lugar perto de Manaus, que eu não consegui entender bem onde ficava exatamente. Eu imaginei que uma mulher tão bela teria vindo de algum lugar da América Latina. Ela conversou comigo durante horas e me deixou completamente enfeitiçado com sua eloquência e inteligência. Ela sabia sobre tudo, Maria poderia conversar sobre paleontologia ou física nuclear em níveis que eu não pensava que aquelas pessoas eram educadas. Talvez fosse meu preconceito europeu.

Maria me contou histórias de sua pequena cidade, contos regionais e até encontros com tribos indígenas isoladas. Ela me disse que havia tribos que não tinham nenhum contato com o mundo moderno e tinham tradições macabras e invocavam criaturas monstruosas, as quais eu não imaginava que existiam. Ela me mostrou que havia um nível de maldade que eu até então desconhecia e mesmo agora me dá pesadelos terríveis.

O que mais me impressionou nas histórias de Maria, no entanto, foi quando ela me descreveu as sereias. Elas não eram lindas criaturas que cantavam para os homens e os levavam para o fundo do mar, não. Elas poderiam ser qualquer um, homem ou mulher, pois devorando uma pessoa elas incorporavam seu DNA e se tornavam híbridas, assim sendo possível se misturarem perfeitamente com suas presas, apenas para caçá-las. Naturalmente elas nasciam de ovos, pois eram um tipo de peixe, apenas mais inteligentes que as outras criaturas, mais inteligentes que os humanos, inclusive.

As sereias possuíam uma cabeça gigante de peixe, com dentes afiados maiores que os de tubarões, olhos grandes e expressivos que não demonstravam nada além de fome, angústia, dor e ódio. Seu corpo de peixe terminava em duas pernas grotescas, que vagamente lembravam pernas humanas até que elas devorassem seu primeiro homem ou mulher. Um frio percorreu minha espinha e eu quase acreditei em Maria, mas ela gargalhou e disse que estava apenas me assustando com uma lenda de uma tribo distante.

Após cerca de duas horas, ela pediu para me acompanhar até meu apartamento, e eu concordei, esperando algum benefício da linda morena. Posso dizer que os homens que me lançavam olhares invejosos estavam terrivelmente enganados. Eu trocaria de lugar com qualquer um deles depois daquela noite.

Eu a levei até meu carro e num impulso a beijei, e Maria correspondeu apaixonadamente. Seus lábios tinham gosto de frutas doces que eu não conhecia, e abacaxi com menta. Era viciante e eu não acreditava na minha sorte. Seus cabelos cheiravam a água doce e terra molhada. Como um peixe.

Entramos em meu apartamento e eu ofereci a ela uma bebida, que ela recusou educadamente antes de começar a me beijar outra vez. Eu já estava em êxtase quando a mulher mordeu o lábio inferior sensualmente e começou a retirar o vestido mais vagarosamente do que eu gostaria.
Seu vestido branco e impecável caiu até as sandálias e eu já não estava mais excitado. De seu estômago inteiramente aberto eu podia ver os seus órgãos trabalhando e ao redor do círculo aberto na pele, desde entre os seios até a virilha, haviam centenas de dentes afiados como agulhas, apenas um pouco mais grossos.

Ela sorriu e abriu os braços, me convidando a me aproximar, mas eu não conseguia mais ver ali apenas uma mulher – aquilo era algo monstruoso, algo que ela havia me contado existir apenas poucas horas atrás. 

Conforme eu me afastava dela, ela se irritava comigo. Ela gritou por aquilo que eu imaginei ser uma boca imensa, ruídos inumanos que eu nunca vou esquecer. Eu sabia que se ela se aproximasse, eu estaria morto. Corri até meu quarto e peguei um revólver que havia ganhado de um tio há alguns anos, e atirei entre os olhos de Maria. Sua cabeça pendeu morta, mas o restante de seu corpo ainda sobrevivia e a boca monstruosa gritou outra vez.

A coisa com a cabeça humana caída para trás tentava me alcançar, os cabelos balançando maliciosamente e a boca escancarada, com a língua pendente.
Então vi o pequeno coração de peixe batendo em um ritmo constante, dentro da boca, e atirei outra vez. Vi todos os órgãos parando de funcionar lentamente até que os dentes fecharam-se, como um zíper no abdômen, e a criatura mais inumana possível caiu no chão de carpete, manchando-o com um sangue violeta pegajoso.

Os vizinhos chamaram a polícia quando ouviram os tiros. Eles arrombaram a fechadura e me encontraram em estado de choque, sentado escorado na parede, ao lado da coisa morta. Eles se entreolharam, sem saber o que fazer em seguida. Eles conversaram entre si, num tom baixo demais para eu ouvir, e um deles saiu do apartamento com uma expressão preocupada, enquanto o outro tentava me fazer falar.

Alguns agentes em ternos pretos chegaram alguns minutos depois, dispensando os policiais. Eles levaram Maria e me deixaram no chão, apenas me recomendando esquecer tudo que vi e jamais dizer uma palavra sobre isso, ou eles voltariam a me procurar. Usaram um pequeno lança-chamas para apagar o sangue do carpete e saíram. Nunca mais vi qualquer um deles ou soube de algo sobre o que aconteceu naquela noite.

Era quase meio dia quando finalmente consegui me levantar e entrei embaixo do chuveiro, ajustando a água para uma temperatura desconfortavelmente quente, que me ajudou a parar de tremer. Eu nunca mencionei esse episódio para qualquer pessoa e uma coisa era certa na minha vida depois daquilo – eu sabia que o mundo não era o que parecia ser, e eu precisava de mais respostas.

  1. Cíntia Nascimento

    26 de fevereiro de 2014 em 15:18

    Eu adorei o texto, super bem escrito e a ideia da descrição foi muito boa. Parabéns!
    “Alguns agentes em ternos pretos chegaram…”

    [img]http://spd.fotolog.com/photo/45/44/17/danihpink/1294369945185_f.jpg[/img]

  2. Juliana Moreira

    23 de fevereiro de 2014 em 19:24

    Quero mais! Gostei muito! Interessante o modo como descreveu a sereia!

  3. Felipe de Albuquerque

    23 de fevereiro de 2014 em 15:51

    Legal

  4. Leo Zen

    23 de fevereiro de 2014 em 10:25

    M.I.B. ? ‘-‘

  5. -_thiago_-

    23 de fevereiro de 2014 em 09:47

    Muito bom Ariane, vc é muito boa escritora. Acho que já falei isso mas, vc deveria escrever mais. :3

  6. gato do apocalipse

    23 de fevereiro de 2014 em 08:29

    muito bom o conto, mas faltou um pouco mais de envolvimento entre os personagens, assim fazendo dele um conto simples.
    bem escrito e boa coesão.

  7. Lucas Rodrigues

    23 de fevereiro de 2014 em 07:19

    Gostei do conto. Bem suave e leve, nada em excesso, tudo na medida certa em perfeito equilíbrio.
    Entretanto, achei o final um pouco previsível, pois a partir do momento que ele conhece Maria e ela fala das lendas eu já suspeitava que ela fosse uma das monstruosidades que ela descreveu.
    Poderia ser mais desenvolvido, percebi que há algo mais a ser trabalhado, mais se caso houvesse uma parte 2 esta seria de terror, pois abordaria as tais criaturas, o final já deixa claro, o personagem quer ir atrás de respostas, quer desvendar os mistérios do mundo. Esta foi só uma sugestão para uma continuação, mas a autora não é obrigada a realiza-la.
    Nota: 8,0 – Bom
    PS: Quando vi a imagem do conto e o título me lembrei de uma novela mexicana kkkk

  8. Ariane

    22 de fevereiro de 2014 em 23:14

    Gente, vai ter continuação!!!!! Ps, vai demorar um pouco…

    • Lucas Rodrigues

      23 de fevereiro de 2014 em 07:20

      Legal, o conto merece mesmo uma parte 2 xD

    • Jabuscrêison

      22 de fevereiro de 2014 em 23:22

      Você escreve muito bem. Espero que a continuação seja postada logo 🙂

      • Ariane

        22 de fevereiro de 2014 em 23:24

        Obrigada!

    • Felino

      22 de fevereiro de 2014 em 23:18

      sabia :3

  9. Lucas D

    22 de fevereiro de 2014 em 23:09

    MIB fazendo uma ponta no conto, mas deve ser a segunda divisão, já que não tem a budega que apaga as memórias.

  10. Felino

    22 de fevereiro de 2014 em 23:06

    já vi que vai ter parte II,
    bom conto em Ariane, gostei bastante, só ficou meio vazio, por isso acho que vai ter uma parte 2
    piadas a parte só fiz esse comentário pra criticas,
    nota 10.00
    e também queria dizer que achei meio estranho por no titulo “Maria”
    e em seguida por uma foto de sereia tipo
    nosso cerebro já raciocina !MARIA É A SEREIA! ai da uma spoilerzada na história, mais de resto ta bom!

    • Ariane

      22 de fevereiro de 2014 em 23:15

      Culpa do Jeff e suas imagens

  11. Derpino

    22 de fevereiro de 2014 em 23:02

    Belo conto, mas essa imagem do post é Spoiler!! u.u

  12. Felino

    22 de fevereiro de 2014 em 22:55

    “Ela me disse que se chamava Maria e era de algum lugar perto de Manaus, que eu não consegui entender bem onde ficava exatamente. ” [insira piada sobre “que lugar é esse tal de manaus?” aqui!]

    • Marvelunatico

      25 de fevereiro de 2014 em 10:50

      Na verdade, ela devia ser do Acre.

  13. Vincent Valentine

    22 de fevereiro de 2014 em 22:49

    eu já desconfiava q ela era uma sereia

  14. Jabuscrêison

    22 de fevereiro de 2014 em 22:40

    Adorei o conto u.u

    • Ariane

      22 de fevereiro de 2014 em 23:24

      Que bom que gostou! ^^

      • Terrorista

        22 de fevereiro de 2014 em 23:38

        ADOREI VC U.U

  15. Jeff Dantas

    22 de fevereiro de 2014 em 22:40

    • Felino

      22 de fevereiro de 2014 em 22:49

      .
      Image and video hosting by TinyPic

      • Marvelunatico

        22 de fevereiro de 2014 em 23:02

        ce perde tempo fazendo esssas montagens…….mas vale a pena kkkkkkkkkkk

        • Felino

          22 de fevereiro de 2014 em 23:09

          na verdade eu nem tenho nada pra faze msm kkkkkkk
          (fiz essa em uns 3 minutos)

      • Vincent Valentine

        22 de fevereiro de 2014 em 22:55

        kkkkkkkk

    • O Mentalista

      22 de fevereiro de 2014 em 22:42

      Gostaria de saber se foi alguma usuária daqui que escreveu, se foi qual seria?

      • Lucas

        22 de fevereiro de 2014 em 22:43

        Ariane Pierini….. .-.

        • Ariane

          22 de fevereiro de 2014 em 23:19

          Algo contra meu nome? u_u

          • Lucas

            22 de fevereiro de 2014 em 23:22

            Nada, só tava respondendo o cara ali…

      • Ariane

        22 de fevereiro de 2014 em 22:43

        Fui eu rs

        • O Mentalista

          22 de fevereiro de 2014 em 22:45

          Parabéns pelo post!Muitas vezes leio alguns posts interessantes e não sei quem escreveu, muito bem mesmo 🙂

          • Lucas

            22 de fevereiro de 2014 em 22:49

            De nada… 🙂

          • Vincent Valentine

            22 de fevereiro de 2014 em 22:51

            q ?

          • Lucas

            22 de fevereiro de 2014 em 22:55

            Que o que?

        • Marvelunatico

          22 de fevereiro de 2014 em 22:45

          parabens!

    • Harry Alone Potter

      22 de fevereiro de 2014 em 22:41

      Que isso Jeff, dispensa nem as sereias?

      • Jeff Dantas

        22 de fevereiro de 2014 em 22:46

        • O Mentalista

          22 de fevereiro de 2014 em 22:50

          Humm….sereias segundo o Discovery : [img]http://animalplanet.discoverybrasil.uol.com.br/wp-content/uploads/2013/06/sereia-3-animal-planet.jpg[/img]

          A pipa caiu né? kkkkkk

  16. Garota Infernal

    22 de fevereiro de 2014 em 22:38

    Adorei o conto. Mostra a monstruosidade da beleza, como ela pode ser maligna por ser apenas encantadora e manipuladora. Merecia uma narração em tempo real e a categoria assustador.
    Prós: Apresenta uma boa e criativa história.
    Contras: Merecia uma narração diferente, envolvimento melhor com os personagens e que a história não fosse contada de forma tão mecânica, que houvesse mais raiva nisto.
    Jeff, eu te mandei a terceira parte do meu conto sem as imagens mas eu vou mandar elas amanhã, tudo bem?

    • gato do apocalipse

      23 de fevereiro de 2014 em 14:34

      eu também logo mando a minha segunda parte, o conto estendeu um pouco mais que eu imaginei

    • Emanuel Ribeiro

      23 de fevereiro de 2014 em 00:21

      Todo dia eu entro no minilua só pra ver se ja postaram a 3ª parte do seu conto ‘-‘

      • Garota Infernal

        23 de fevereiro de 2014 em 00:36

        Oh, que legal! Me sinto lisonjeada ao saber que meu futuro trabalho tem um valor tão grande! Bom, eu já mandei para o Jeff, mas ele não consegue ver, então eu vou pesquisar as imagens e mandar para ele novamente ^^

    • Lucas D

      22 de fevereiro de 2014 em 23:17

      Mais sentimento, não precisa ser raiva também.

      • Garota Infernal

        22 de fevereiro de 2014 em 23:54

        Realmente, mas foi uma sugestão minha, é que o conto pareceu gélido e distante, parece o depoimento que alguém deu para a polícia. Seco, frio.

        • Lucas D

          23 de fevereiro de 2014 em 00:17

          Acho que um depoimento pra policia não seria tão detalhado. e.e Claro que foi uma sugestão sua, não e como se tivesse alguém te obrigando a sugerir isso. ._.

          • Garota Infernal

            23 de fevereiro de 2014 em 00:27

            É detalhado sim, você não sabe como é depor, não é chegar e falar qualquer coisa, tem que explicar tudo. O que quis dizer é que foi muito frio, apesar de eu ter gostado bastante.

          • Lucas D

            23 de fevereiro de 2014 em 00:31

            É, eu não sei. Sim, um pouquinho mais de emoção não faria mal.

          • Garota Infernal

            23 de fevereiro de 2014 em 00:34

            Faria muito bem pois isso pode prejudicar a história de maneira significativa.

    • Jeff Dantas

      22 de fevereiro de 2014 em 22:44

      Nossa, que estranho! Até agora, só recebi duas partes… ^^

      • Garota Infernal

        22 de fevereiro de 2014 em 23:53

        Eu vou ver as imagens agora e te enviar.

  17. Harry Alone Potter

    22 de fevereiro de 2014 em 22:38

    Gostei bastante deste conto, ainda mais desta parte ”O seu vestido discreto era branco e leve, marcando suavemente os contornos do corpo perfeito sem parecer vulgar, diferente das outras garotas com vestidos muito curtos e extremamente justos empurrando os falsos seios numa posição que desafiaria a gravidade de Júpiter.” HAHA.

  18. Logan

    22 de fevereiro de 2014 em 22:37

    Legal…

  19. O Mentalista

    22 de fevereiro de 2014 em 22:34

    Gostei do post, um tanto estranho mas legal.

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