Contos Minilua: Nesta rua #115

Sim, e para participar, é muito fácil: Para tal, envie o seu texto para: [email protected]! A todos, uma ótima semana!




Nesta Rua

Por: Yasmin Kamei

Corro pelas ruas sombrias da cidade. Em minha companhia, apenas a lua e minha sombra escondida pela escuridão. Meu peito dói clamando por ar, minhas pernas reclamam pelo esforço incomum que exijo delas nesse momento. Não importa, apenas não pare.

As pessoas passam e desviam de mim, mas sinto como se elas não existissem. Elas não são importantes muito menos relevantes no momento. Apenas duas pessoas são importantes agora: eu e pessoa cuja voz ecoa na minha mente.
“Os dados do futuro já foram rolados. Está pronta para encaram quais quer que sejam os números rolados?” Balanço minha cabeça para tentar esquecer e apresso o passo.

Por quanto mais tempo tenho que correr? Quanto falta para minha liberdade? Quanto ainda tenho que pagar pelo que sempre me disseram ser de graça?
“Nós já ensaiamos as falas, planejamos e reunimos o público. Qual será o desfecho desse teatro de marionetes chamado vida?”Cale-se! Espere apenas mais um pouco, só mais um pouco… Se você não se calar, fraquejarei. E isso é a única coisa que não posso fazer agora.

Entro em uma rua estreita. A partir de agora, apenas um labirinto de ruas pequenas e mal iluminadas me separa de minha liberdade. Direita, esquerda, esquerda, direita, frente, esquerda, direita. É incrível como uma sequencia de direções que você sempre considerou inútil pode se provar o contrário em situações de risco.

Paro ofegante e encaro o lugar a minha frente. Um prédio velho e caindo as pedaços, onde a suja e rasgada fachada podia-se ler, com algum esforço, um nome nostálgico e cheio de falsas esperanças.
-Recanto da harmonia. –Disse para mim num sussurro o nome do lugar onde passei boa parte da minha curta vida.

Olho para traz para ver se me seguiram. Ninguém. Nada. Volto-me para frente e ando vagarosamente para aquele prédio. Se eu não soubesse que estava abandonado, podia jurar que ainda ouvia uma criança chorar sozinha na calada da noite. Eu.

Entro no local e me deparo com uma cena já esperada mas que continua ferindo meu coração. O lugar que antes era cheio de crianças fortes e esperançosas agora era apenas uma ruína. Os vidros, quebrados. A energia, cortada. Os móveis, cobertos. A escada, destruída pelo tempo.

Ando vagarosamente pelo local frio e abandonado. Lembranças de minha infância infestando minha mente. Aquele sofá velho e coberto, era onde sentávamos para contar histórias de terror no inverno.

Aquele canto embaixo da escada, o lugar onde nós ficávamos de castigo. Embaixo daquele quadro rasgado onde um dia esteve uma rosa pintada, o lugar onde eu ficava esperando algum casal vir falar comigo e me adotar.

Subo as escadas como se estivesse em câmera lenta. Essa curva na escada, o lugar de onde nós espionávamos quando os mais velhos faziam reuniões. Primeiro andar. Apenas um corredor com uma janela no fim. Segundo quarto a direita. Entro e me encosto a porta. Esse era o nosso quarto. Respiro fundo como se pedisse força e vou para o interior do quarto.

Quatro camas de solteiro de cada lado. No começo, tinham dois por cama. Mas eles foram embora, um atrás do outro. E só sobramos nós. Ando até a janela. Quantas noites nós não passamos sentados embaixo dessa janela, conversando e trocando palavras amigas, logo transformadas em juras de amor?

Abro a janela com o vidro já quebrado. Olho para a triste e nostálgica paisagem. Tudo parece tão… igual… e tão sujo. Sujo pela poluição, pelas pessoas, pelo mundo. Essa paisagem costumava ser tão limpa e pura… ou eramos apenas nós e nossos pensamentos infantis?

Respiro fundo e sento no nosso lugar especial. Você ainda se lembra? Da nossa musica favorita. Uma antiga e conhecida cantiga de roda que nós cantávamos um para o outro quando estávamos tristes.

-“Nesta rua, nesta rua, tem um bosque
Que se chama, que se chama, Solidão
Dentro dele, dentro dele mora um anjo
Que roubou, que roubou meu coração

Se eu roubei, se eu roubei seu coração
É porque tu roubastes o meu também
Se eu roubei, se eu roubei teu coração
É porque eu te quero tanto bem

Se esta rua, se esta rua fosse minha
Eu mandava, eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas, com pedrinhas de brilhante
Para o meu, para o meu amor passar.”

Sinto lágrimas descendo pelo meu rosto. Por que lembrar de você me traz tanta tristeza? Por que você não está mais aqui, comigo?
-Não se preocupe, estarei logo ao seu lado. Eu juro. – digo a mim mesma, fracamente.

Uma luz vermelha invade o quarto pela janela. Sirenes tocam, pneus cantam no asfalto velho do lado de fora. Como eles me acharam? Não importa. Já fiz o que queria. Mexo no bolso da minha calça e pego uma velha e pontiaguda faca. Eles estão subindo pelas escadas. Que escandalosos.

Um movimento rápido e certeiro. Dor. Alívio. Eles abrem a porta ruidosamente. Tarde demais pra vocês. Estou indo ao encontro do único que me importa. Até quando lhe convir novamente, vida.

  1. João Fernandes

    2 de julho de 2013 em 16:51

    Caramba, tenho que ler desde o conto 99 ate o 116. Eu esqueci de ler e acumulou.

  2. João Fernandes

    2 de julho de 2013 em 16:48

    Putz, esse conto foi muto fod@. Bem escrito e prende bastante a atenção.

  3. Lilian

    1 de julho de 2013 em 22:59

    Musiquinha antiga… Mamãe cantava pra eu dormir quando eu. Era menor…

  4. Jeff Dantas

    30 de junho de 2013 em 23:45

    Nossa, bons tempos da escola: “Se esta rua, se esta rua fosse minha… Eu mandava, eu mandava ladrilhar”. ^^

  5. Um qualquer

    30 de junho de 2013 em 23:02

    Poxa, que conto mais triste. Muito bem escrito

  6. Dark Vampire

    30 de junho de 2013 em 19:44

    Eu gostei, muito, aliás.

  7. Garota Infernal

    30 de junho de 2013 em 18:51

    Conto no domingo? o fato é que foi muito profundo e emocionante.

  8. Slenderzinho (Governante dos bosques)

    30 de junho de 2013 em 18:16

    “Respiro fundo e sento no nosso lugar especial. Você ainda se lembra? Da nossa musica favorita. Uma antiga e conhecida cantiga de roda que nós cantávamos um para o outro quando estávamos tristes.”

    Lugar especial: Banheiro ( Se é q vc me entende…)
    A Cantiga antiga: AHHHHHHHHHHHHHHHH LELEQUELEQUELEQUE.

    • Lilian

      3 de julho de 2013 em 18:40

      Kkkkkkkkkkkkkk

    • Raimundo Fagner

      1 de julho de 2013 em 10:16

      KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK, lOLZ

    • Jeff Dantas

      30 de junho de 2013 em 23:46

      Huahahahahaha, q maldade. Isso é coisa q se diga? hahaha

    • Lucas Rodrigues

      30 de junho de 2013 em 18:18

      kkkkkkkkkkkkkkk

  9. Lucas Rodrigues

    30 de junho de 2013 em 18:14

    Muito profundo esse conto e emocionante também, a personagem parece atormentada por não poder viver os momentos felizes que vivia, uma narrativa bem dramática com um final trágico (o que já é de se esperar desse tipo de conto), muito bem escrito também. Nota: 9,0 – Ótimo.

  10. John Rambo

    30 de junho de 2013 em 18:05

    ATATATATATATATATATATATATA!!!!!
    [img]http://i719.photobucket.com/albums/ww200/NarugaDenka/KenshiroATATATATATA-1.jpg[/img]

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