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Contos Minilua: No banco do ônibus #33

E antes de prosseguirmos, apenas um lembrete: Sintam-se a vontade para participar. Lembrem-se: os temas são livres, e sem nenhuma interferência do moderador. Uma boa leitura!

                                    No banco do ônibus

Por: Thiago Xavier

“Como essa cidade é sombria”, Alberto pensou. Tinha os olhos fixos na paisagem que mudava constantemente a medida que o ônibus seguia o percurso.

Já passava de uma da manhã e ele havia se atrasado, ao sair da faculdade, porque decidira ir ao bar com os amigos. Tivera que andar cinco quadras até chegar ao terminal para pegar o ônibus de graça, porque havia gasto o dinheiro da passagem no bar.

Chegou no terminal por volta de meia noite e encontrou o lugar deserto. Sentiu medo, é claro, porque a qualquer momento um marginal poderia abordá-lo e tentar levar o pouco que ainda havia com ele. Engoliu seco, pôs as mãos em ambos os bolsos da calça jeans e encostou-se em uma coluna.

Enquanto esperava o ônibus, viu uma senhora idosa cruzar à sua frente, arrastando um carrinho de supermercado cheio de sacos de pão e latas de refrigerante e cerveja. Alguns minutos depois, dois garotos passaram correndo, gritando alguma coisa. E por fim, o ônibus chegou.

Mas vazio como estava, o automóvel parecia tão sombrio quanto o terminal. Além dele, havia ali apenas o cobrador e o motorista, ambos com cara de poucos amigos porque poderiam estar em casa dormindo, ou bebendo uma cerveja ou comendo suas esposas ou namoradas.

Alberto sentou no último banco e pregou os olhos na janela para observar a cidade que passava ao seu lado. Uma cidade sombria, ele percebeu. Viu os prédios escuros, monstros que se erguiam em direção ao céu, árvores de ferro, aço e vidro que discrepavam do centro histórico da cidade. Mais além, viu uma praça deserta e depois o esqueleto do que um dia fora um parque de diversões, mas que agora era o lugar preferido dos sem-teto e dos traficantes.

Quando o ônibus parou em outro terminal, uma mulher entrou. Vestia-se como uma prostituta, mas era feia demais para ser uma. Usava uma minissaia feita de jeans rasgado e uma meia calça cheia de furos. A camisa era um top negro. Roupas completamente inadequadas, pensou Alberto, ao corpo grotesco que a mulher possuía. A barriga dela era uma coisa mole que caia por cima da “saia”, os cabelos eram oleosos, encaracolados e o rosto era quadrado, com olhos fundos, uma boca retorcida e nariz largo. E havia o fedor de cigarro, que Alberto sentiu logo que ela sentou, ao seu lado.

De tantos lugares disponíveis, ela sentou ao seu lado. Mas ele a ignorou enquanto o automóvel movia-se em direção ao próximo terminal onde Alberto desceria e seguiria o caminho a pé para casa.

-Tem fogo? – ela perguntou, após algum tempo. Tinha o hálito carregado de álcool. Alberto negou com um aceno e a mulher sorriu. -Que pena -disse em seguida.

– Meu nome é Keila – ela disse. Alberto acenou com a cabeça e seus olhos focaram-se nos olhos dela, ficando presos a eles. Ela sorriu. – Você não vai gritar, você não vai reagir. Você vai ficar paradinho, ok?

E contra a sua vontade, Alberto concordou. Em seguida sentiu a mão dela acariciar seu membro que relutou em ficar de pé. Ela abriu o zíper, o pôs para fora e o abocanhou. A ânsia veio rápida e por mais que tentasse Alberto não conseguia resistir. Observou o movimento de vai-e-vem que a cabeça dela produzia e apertou a mão no banco do ônibus. Esporrou, contra à  sua vontade.

– Muito bem, gatinho – ela disse, enquanto limpava da boca a semente de Alberto. Em seguida veio o beijo. Um beijo nojento, grotesco e tão obsceno que fez Alberto vomitar. Mas ela não se importou. Afastou-se dele sorrindo e ele viu os olhos dela faiscarem em um vermelho vivido. Ela abriu a boca e mostrou as presas.

Alberto ofegou ao ver a criatura saída dos livros de folclore para a realidade. Mas ele não conseguia se mover, havia caído no feitiço dela. Viu-a abaixar-se novamente e abocanhar seu membro e mordê-lo. A dor lhe cortou o corpo e ele não pode nem gritar. Seus olhos, desesperados, focavam-se no cobrador, torcendo para que ele visse aquilo e viesse ao seu auxilio, mais o homem tinha o olhar atento para frente.

A dor lhe corroía. Uma dor excruciante. Uma dor agonizante. Seu corpo começou a tremer e ela o largou, agora com a boca manchada pelo seu sangue. Ele olhou para baixo e viu o membro dilacerado e ensanguentado e as lágrimas da dor desceram dos olhos, porque era tudo o que ele podia fazer. A mulher lambeu seus lábios e em seguida foi até o pescoço. Outra dor. Outra pontada. E Alberto nada pode fazer; não pode lutar pela vida que lhe era tirada, no banco do ônibus.