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Contos Minilua: O anjo imortal #143

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O Anjo Imortal

Por: Don Rodriguez

Com o queixo repousando sobre as mãos entrelaçadas, William contemplava o tom alaranjado dos céus, pelo sol que se esvaia, pouco a pouco. Apreciava profundamente a beleza em suas mais variadas formas, desde um simples sussurro melodioso de vento aos mais esplêndidos espetáculos naturais. Através da janela, metodicamente acompanhava a transição do dia para a noite; uma dádiva diária, seu espetáculo pessoal. No interior da modesta casa de madeira, o cheiro adocicado de chá invadia a atmosfera, tão fresco, tão prazeroso. 

A melhor escolha que fizera foi optar pela vida campestre, longe do alarido dos feirantes e carroças da cidade. Aqui, nessas planícies, tudo era mais calmo, mais harmonioso, mais belo. Grande parte do tempo, William dedicava-se à arte: poesia, música, pintura. De fato, suas obras eram bem apreciadas pelos suntuosos nobres, e através delas, ascendia materialmente. Porém, riqueza nunca lhe interessara. Permitia-se ter uma longa e elegante casaca, adornada de fitas e laços, mas nada mais ostentador que isso. Nada mais ostentador além das suas próprias obras.

Um impertinente problema era que precisava dividir seu tempo entre afazeres domésticos e os estudos. William, apesar de jovem e altivo, não possuía uma mulher para cuidar de tais trívias, nem um discípulo-ajudante. Escravos nunca foram de seu interesse, pois possuíam uma beleza demasiada triste… Por hora, concentrava-se em acabar seu quadro. Sonhara algumas vezes com esta mulher, de beleza tão angelical, de feições tão perfeitas… Contudo, ao amanhecer, iria procurar uma solução para seu pequeno “impasse”.

O sol nascera e os pássaros cantarolavam alegremente. Passando as mãos pelos longos cabelos, jogou-os para trás, e tratou de situar-se em sua requintada carroça; traria mantimentos e alguém para ajudá-lo em casa. Algumas horas e estava em meio ao odor fétido das ruas, com os ouvidos surrados pela algazarra dos transeuntes.

Por Deus, como odiava aquilo! Ainda assim, possuía na face uma expressão calma, com um permanente esboço de sorriso. William comprou pães, frutas, uma bela tapeçaria que seduzira seus olhos, pigmentos para tintas… Não raro foi cumprimentado por estranhos e retribuiu o gesto. Agora, preparava-se para ir à escola de artes da capital, pois de certo, encontraria facilmente algum jovem disposto a ser seu aprendiz.

Ao montar no banco de madeira para guiar os cavalos, o tempo pareceu passar mais devagar. Os arredores ficaram cinza, as vozes berrantes pareciam simples zumbidos, sentia apenas o palpitar do próprio coração. Poucos metros à frente, a jovem dama, o anjo de seus sonhos, a mulher de feições perfeitas, aproximava-se em passos tímidos, absorta nos próprios pensamentos. Há tempos o rapaz não sentia esse típico frio na barriga. Seria um presente divino? Seu sonho tornara-se realidade! Precisava fazer com que sua musa notasse sua existência.

– Perdão! Perdão… – William descera rapidamente da carroça, com um largo sorriso no rosto. Permita-me que me apresente. Sou William Lawrence, e é uma imensa honra conhecer tão sublime donzela…

– Oh… Encantada… – falou a moça, que apesar de não relutante ao cortejo, parecia bastante tímida. Continuou: – Meu nome é…

– Doce donzela, não precisa dizer-me teu nome. Já te conheço, pois estás sempre a ocupar meus mais belos sonhos…- William interrompe, beijando-lhe a mão.

Com voz imutavelmente suave, o galante rapaz também dominava com primor a arte da sedução. Exalava confiança e ar de nobreza, e fazia malabarismos com palavras, olhares e toques. Em poucos minutos, convencera sua musa a acompanhar-lhe, pois seria imortalizada em um de seus impecáveis quadros. William estava obcecado, extasiado, eufórico, apesar da aparente serenidade em seus gestos.

Seu modelo de perfeição estava ali, bem ao seu lado. Aquela pele em marfim, os olhos expressivos e brilhosos como estrelas, lábios suaves e adornados em perfeitas linhas… A perfeição, a perfeição!

Sem demora, o rapaz tratou de preparar o local onde sua magnífica convidada pousaria. Um novo quadro seria feito, o mais belo de todos. Com mimos, convenceu a garota a despir-se, em nome da arte. Além disso, receberia boas quantias em moedas, como incentivo. E enfim, a obra inicia-se. Enquanto os minutos passam, persistente inquietação preenche o âmago de William. Estava convencido de que a graça daquela garota-mulher era ímpar, única. Jamais existiria algo tão encantador para contemplar, como aqueles traços… 

A natureza, agora, era injusta. O tempo não poderia corroer aquilo que era perfeito; aquilo que nunca poderia ser substituído! O que fazer?? Entre pinceladas e indagações, lembrou-se do que aprendera em suas longas viagens. Lembrou-se do que havia logo embaixo daquele tapete, no meio de sua sala. As horas passaram, e finalmente o quadro estava finalizado. Era a primeira parte da imortalidade da perfeição.

Afastando o tapete, William revelou uma pequena alça, um alçapão, aberto com delicadeza. A garota não conteve a curiosidade.

– O que é isso?

– É minha passagem secreta, minha donzela. Aqui, a perfeição irá imperar e perdurar pela eternidade. Gostaria de vir comigo? – William perguntou, oferecendo a mão como guia. A garota apenas sorriu, levantando-se e aceitando o convite.

Descendo uma breve escada, agora se encontravam em um lugar abafado, escuro, com cheiro acre, misturado em um quê etílico. Acendendo o candeeiro, os mórbidos detalhes são exibidos. A garota não segurou seu débil gemido de medo ao ver aquelas criaturas, estáticas, com olhos vidrados, voltadas para si. Sangue seco jazia na mesa colocada ao centro daquele denso cômodo. Vísceras flutuavam em vidros, e serras e facas esperavam pacientemente, penduradas por correntes. As sombras sádicas mexiam-se de acordo com a fraca chama que iluminava o recinto.

Em um rápido movimento, William precedeu-se e trancou a única saída de sua preciosa oficina de imortalidade.

– Sua beleza jamais morrerá, meu anjo… – William sussurrou.

A donzela mal teve tempo para gritar, pois foi sufocada por um pano umedecido, que curiosamente foi tirando-lhe as forças, deixando-lhe tonta… Foi posta deitada, com a face acariciada por seu obcecado algoz.

– Por quê?… Por… favor… não… não…-a garota, em seu delírio, ainda implorava, debatendo-se fracamente.

– Eu preciso fazer isso! Você não foi enviada a mim por acaso… Serás bela para sempre!

E sem hesitação, com um afiadíssimo punhal, William abriu aquele jovial corpo, do tórax à barriga. Não havia tempo para que esperasse a vida esvair. De certo, a garota viu seu estômago ser puxado pelas mãos do artista insano. Não podia gritar, pois estava fraca e sentia o sangue borbulhar na própria garganta. Enquanto uma lágrima escorria em seu frágil rosto, via o sorriso do seu carrasco, com respingos rubros a pintar-lhe toda a face. A garota assistiu alguns de seus órgãos serem retirados, antes que o brilho de seus olhos fosse roubado, em um último fôlego…

O dia virara noite, que novamente virara dia. Da janela, com o queixo repousando sobre as mãos entrelaçadas, William observava a enérgica manhã, com a brisa suave a lhe beijar o rosto. Estava feliz. A técnica que aprendera, de fato, também funcionava em pessoas. “Empalhamento”… Nome um tanto grosseiro para estupenda arte. 

Deleitava-se no momento sereno matinal, antes de banhar-se, para ir novamente à capital. Pretende comprar o mais formoso vestido, e mais tintas em tons de pele. Perfumes fortes adocicados e cera. A mais bela manequim em todo o mundo estava logo ali abaixo, esperando os retoques finais. William desistira de encontrar um ajudante, pois as coisas sempre funcionaram melhor em seu retiro, sua solidão. Não precisava de ninguém. Daria conta de tudo sozinho. Além disso, provara para si que poderia imortalizar a beleza mais divina que os olhos puderam ver.

– Oh, meu anjo, farei de ti ainda mais bela… Espera-me, logo voltarei…