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Contos Minilua: O despertar #219

Pois é, e para participar, não tem mistério! Para tal, envie o seu conto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

O despertar

Por: Aluizio Franco

Não tínhamos a menor ideia do que era aquela coisa. Jamais iríamos adivinhar que algo daquela magnitude existia. Aquilo fazia cair por terra todas às teorias de extinção em massa que os cientistas e pesquisadores levaram décadas para montar. Tudo desabava igual a um castelo de cartas.

Aquele era o nosso evento que traria a extinção. Um homem estava parado sobre a calçada vendo tudo aquilo acontecer sem poder acreditar. Aquele era George.

George estava estarrecido diante do televisor de uma loja assistindo o último discurso do presidente. Não havia mais nada a se fazer. Não havia para onde correr. Sair em disparada para qualquer lugar seria o mesmo que andar em círculos. George era um típico norte americano patriota fanático.

Ex-soldado, ele havia lutado na guerra do Afeganistão. Viu amigos morrerem em atentados de carro bomba, viu civis serem chacinados por guerrilheiros em outros países, viveu e sobreviveu a muita coisa distante de sua terra, longe de sua casa.

Por incontáveis noites ele dormiu sobre o chão sujo das ruínas da cidade de Cabul, outras incontáveis noites ele sequer pôde dormir. George não podia acreditar naquela dura realidade. Esse era o inimigo que ele não podia enfrentar ninguém poderia enfrentar.

Havia um pandemônio além da imaginação. Tudo que caminhava estava em pânico, tudo que voava estava com medo, tudo o que vivia sob as águas estava assustado. Rodovias congestionadas por razão irracional. Ninguém entendia que não importava mais. Não havia como fugir, não havia como se esconder. George entendeu isso facilmente depois de pouco tempo.

Os primeiros sinais de que aquilo aconteceria apareceram anos, décadas atrás. Terremotos em Porto Príncipe, tsunamis no ocidente, onde havia tempos que Fukushima deixou um rastro de destruição. Agora os alarmes chegaram ao fim e a realidade batia na nossa porta. O fim chegou. Nem todas as bombas de nêutron poderiam reverter àquela situação.

Tão tarde na história, eles explicavam em vão os atos atrozes praticados pela humanidade. Hiroshima e Nagazaki foram exemplos de sacrifício humano em prol da humanidade que não pôde ser explicado, colocando status de desumano em um país inteiro. Naquela época eles já sabiam o que aconteceria cedo ou tarde. Estavam ganhando tempo.

Só precisávamos de mais tempo para fugir, mas não houve mais tempo, a areia na ampulheta se esgotou. Tsar bomba era outro “sonífero” que a antiga União Soviética havia desenvolvido, mas os efeitos seriam severos demais. Foi uma entre tantas missões abortadas.

A “Arca” de Svalbard que construíram na Noruega era uma saída, uma fuga, mas falhou. O projeto conhecido por todos como “Svalbard global seed vault” não era apenas um cofre construído em uma ilha há mil e trezentos quilômetros do Pólo Norte.

Aquela coisa era uma cápsula de fuga projetada em um lugar estratégico e no momento exato as personalidades mais ricas do mundo zarpariam daqui, mas isso falhou. Tudo foi pelos ares nas dobras do cotovelo. Jamais imaginariam um fim assim.

Enquanto tudo acontecia debaixo dos nossos narizes, nós permanecíamos no escuro, o governo nos escondia a cruel verdade que agora já não fazia mais sentido ser segredo. Saques nas lojas abandonadas, a parcela burra da população acreditando estar na dianteira. Mal sabiam eles que já estavam mortos. Sensato mesmo era se entregar logo tudo acabaria, tudo se aquietaria, era questão de tempo.

E enquanto ainda podia, George assistia o discurso, em meio ao caos. Um telão suspenso desabava perto da infernal Times Square, mas isso não abalava a atenção de George, que fixava seus olhos no rosto do presidente dentro da tela da televisão que ainda funcionava em seus momentos finais dentro da vitrine ainda inviolada da loja. Logo a energia seria cortada, logo nada mais existiria.

Os ouvidos atentos, os olhos azuis arregalados e a boca de lábios finos entreaberta. Os punhos fortes cerrados, o corpo musculoso totalmente rígido, o ex-soldado não tremia, fazia o que foi treinado para fazer, não sentir medo. Mas o medo era essencial e George sabia disso.

Essencial para a sobrevivência, então ali não havia o porquê de senti-lo. Uma muralha de homem que daqui a pouco desabaria com seus quase dois metros de altura em um final inevitável.

O presidente amargurado encarava a câmera e como um bom capitão ele pretendia afundar com seu navio. Afinal essa era a única possibilidade. Entre suspiros e com os olhos mareados ele despejava suas explicações finais:

– “Nós estávamos errados”. A maioria de nós nunca saberia dessa situação, mas agora ela é a nossa verdade. A verdade de cada cidadão deste país ou de qualquer outro lugar desse mundo que por muito tempo nós chamamos de lar.

Agora nós não temos um nome para chamá-lo. Nós tentamos fazer tudo para impedir essa coisa de despertar, mas nesse momento nada irá adiantar. Daqui a pouco os tremores irão aumentar de intensidade e aí tudo estará acabado.

Há pouco mais de um século nós descobrimos que o planeta era literalmente uma criatura de proporção obeliscal que estava adormecido. Inúmeras vezes ele tentou despertar. Nós evitamos algumas vezes, mas agora nada o fará dormir novamente.

Os olhos direito e esquerdo da criatura se abriram no começo dessa semana. Um grande território da Rússia foi devastado. Milhares morreram. Os braços da criatura começaram a se afastar. Ele estava dormindo em posição fetal e isso o deixava com um aspecto arredondado, que nos enganou por vários séculos.

A criatura possui algumas cristas e quando elas começarem a abrir, provavelmente todos nós já estaremos mortos. Não há como escapar. Quando a criatura terminar de despertar, nós acreditamos que ele irá para outro sistema. É provável também que ele possa despertar outros iguais a ele.

Nós estivemos vivendo sobre as costas de um ser gigantesco por toda nossa vida. Fomos meros piolhos construindo e consumindo sobre as sujeiras dessa criatura. Fomos meros parasitas esse tempo todo.

Toda a vida que habitou essa coisa agora certamente morrerá. Espero que entendam que não estou tirando as esperanças de ninguém, estou apenas dizendo a verdade do que vai acontecer e é inevitável. Alguns souberam desse fato anteriormente e tentaram escapar, mas não conseguiram.

Estavam construindo uma cápsula de fuga em uma ilha da Noruega, mas quando os braços da criatura começaram a abrir, o cotovelo desse bicho destruiu a tal cápsula. Não haverá fuga para ninguém. Aparentemente o Ser não tem intelecto. Ele sabe da nossa existência, mas somos insignificantes, somos parasitas, então ele não evitará o nosso extermínio.

Essa coisa vive no espaço de forma semelhante ao modo das criaturas marinhas. Ele literalmente nada pelo espaço. Não sabemos o que ele come ou como ele respira, nem como ele funciona, tudo o que sabemos é que esse titã acordou.

Desejo boa sorte aos que tentarem sobreviver, mesmo sabendo que a situação não ajuda ninguém. A ordem, não só aqui nesse país como em qualquer outro, desabou. Não posso fazer mais nada. Sugiro aos que podem que fiquem os momentos finais com suas famílias. “Aos que quiserem tentar, que tentem com suas forças hercúleas e que Deus nos…”.

O sinal da emissora se perdeu, a televisão saiu do ar por alguns minutos e depois a energia se foi. George tirou seu celular do bolso e ligou para mim. Eu estava na estação espacial durante aquele apocalipse. Meu nome é Henry, sou irmão de George. Seus últimos momentos foram os mais angustiantes para mim. Estou sozinho e a deriva no espaço.

Daqui eu pude ver a cabeça do monstro se erguer. A boca incalculavelmente gigantesca se abrindo com seus dentes expostos. O urro da fera viajando pelo espaço me fez chorar de medo. O obelisco estava acordado.

A cara daquela coisa era parecida com a de um terrível dragão de pedra. O monstro começou a esticar os braços e logo depois as pernas. A Terra tinha formato humanóide no fim das contas. Era parecida conosco no formato do corpo. Quando a fera finalmente terminou de se espreguiçar, eu tenho certeza de que ele olhou para a estação, ele olhou para mim.

Eu imaginei que ele fosse me ignorar, mas acabei sendo carregado até muito perto de nosso vizinho vermelho depois ele simplesmente abandonou a estação espacial. A criatura também pegou a lua e a carregou consigo. Talvez aquilo fosse um ovo ou algo assim. A criatura nadou em direção a Marte e depois eu pude ver aquele outro planeta despertando também.

Era bem parecido com a Terra, mas Marte possuía uma calda. Depois os dois nadaram para longe levando as luas de Marte junto com eles. Deixaram-me aqui sozinho longe de qualquer lugar. Mas pensar em um lar agora é assustador e desolador. Não existe mais aquela bola azul flutuando no espaço. A Terra despertou e foi embora.

Meu oxigênio e o calor da estação estão acabando. Logo morrerei também. Espero que alguma forma de vida inteligente um dia encontre minha mensagem e consiga compreender o que estou contando. Espero que decifrem a minha linguagem.

Eu fui o último sobrevivente por acaso. A tecnologia estava em um alto grau de desenvolvimento. Eu tinha a possibilidade de conversar com meu irmão George, minha esposa Daisy, mesmo estando aqui nessa estação, mas apenas essas pequenas tecnologias não puderam nos salvar.

No final só restou a desesperança, o medo e o frio. Talvez esse seja o começo do fim para muitos outros distantes daqui. Havia um planeta por aqui e ele era um monstro.

Fim da transmissão.