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Contos Minilua: O dia do peixe #144

Pois é, e para participar, não tem mistério. Para tal, envie o seu texto para: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

 

O Dia do Peixe

Por: Lucas Nunes Medeiros

Era um dia de merda naquele mercado. Dia de peixe, pra falar a verdade. Aquele cheiro maldito impregnava das narinas até o cérebro e não existia nada que eu fizesse que o tirasse de dentro do meu nariz. Tudo cheirava a peixe, até as flores tinham cheiro de peixe, meu desodorante sem perfume tinha cheiro de peixe! Me impressionava que a única coisa que não fedia a peixe, era o peixe. Sabe por quê? O peixe tinha cheiro de mar. Por incrível que pareça.

Talvez o cheiro maldito vinha daqueles caminhões sujos que traziam o peixe de um lugar que eu não faço a mínima questão de saber qual é. Não me surpreenderia se o caminhão fosse movido a óleo de peixe em vez de óleo diesel. Parecia que aquele mercado todo era movido a peixe no dia do peixe. Era peixe nas placas, peixe nos caminhões, peixe no uniforme dos motoristas; peixe por todo lado. E é claro, meu uniforme era um avental emborrachado amarelo com um grande desenho na frente.

E, por mais imbecil que possa parecer, a estampa era de um urso. Dá pra acreditar? O urso é aquele bicho do tamanho de uma árvore que come peixe, brame e dorme como eu gostaria de dormir. Aquela estampa não refletia o que fazíamos ali: ursos comem peixes, não os vendem! E muito menos devem feder a peixe.

Não era nem quatro da manhã quando a sirene tocou. Faltavam quatro minutos no meu relógio para fechar as quatro horas. E é óbvio que fui reclamar com o gerente, afinal, quem ele pensa que é pra tentar lucrar meus quatro minutos? Meu chefe? “Faltam quatro minutos pras quatro horas, senhor.”, claro, mantive minha educação.“Se não quiser entrar agora pode ir pra sua casa.”, me respondeu aquele desgraçado.

Que se foda, então. Vesti o avental de urso com cheiro de peixe e comecei a descarregar um caminhão. E como pesavam aqueles bichos. Vinham em sacos de cinquenta quilos, uns mais leve que outros. Mas quem se importava? Eu que não.

Descarregamos os caminhões de peixe com cheiro de peixe movidos a óleo de peixe em duas horas e quarenta e três minutos. Tempo razoável para quatro descarregadores. Pusemos os aventais sobre a mesa de metal que havia dentro do açougue e esperamos aquele gerente que comeu meus quatro minutos de descanso.

O babaca ainda demorou oito minutos para nos encontrar ali e trazia consigo um punhado de notas de vinte reais. Largou quatro, uma do lado da outra, em cima da mesa de metal e agradeceu o trabalho. Fiquei puto. “A hora custa dez reais, seu filho da mãe, trabalhamos por duas horas e cinquenta e um minutos!”

“Mesmo assim são duas horas, filho. Aproveite seu dinheiro.” e saiu. O filho da puta desgraçado saiu com meus dez reais! Fora aqueles quatro minutos que me logrou antes do expediente.

Os outros três descarregadores retardados já tinham pego seus vinte pilas e ido embora sem reclamar. Vinte reais para aqueles caras deveria ser uma fortuna, nunca vi sorrisos tão grandes quanto o deles. Mas o meu; ah! o meu não viria tão cedo.

Peguei aquela nota maldita com a porra daquele macaco-dourado rindo de mim e sai dali. Pensei, vou pegar esses vinte reais e comprar quatro carteiras de cigarros e um chocolate. Enfiei aquele papel no bolso da calça e puxei uma carteira de Marlboro amassada de dentro da minha cueca. A única coisa no mundo que não conseguia pegar cheiro de peixe eram vinte cigarros lacrados dentro da minha cueca. Tinha cheiro de mim, pelo menos.

Acendi um deles com um palito de fósforo e segui caminhando até a estação de trem. Ainda estava escuro, e a rua, é claro, tinha cheiro de peixe. No meu pescoço, notei o peso do colar ganhado de presente há muito tempo, esquecido enquanto descarregava os caminhões. Nele, prendia um cartucho de uma AK-47, dourado, pouco arranhado, mas ainda assim, fedendo a peixe.

Foi quando encostei naquele colar que ouvi uma garrafa caindo no chão, bem atrás de mim. Era de vidro e certamente explodiu porque alguns cacos bateram na minha perna, enquanto tanto outros voaram muito a minha frente. Fiquei pensando que aquela porra era pra ter me acertado, então virei para trás sem perder o passo.

Tinha um cara me seguindo. Usava uma toca escrota com uma estampa de um dragão na frente – só o dragão, amarelo ainda por cima. -, e o desgraçado caminhava muito rápido. Esses brutamontes, ao contrário da lógica, são muito mais rápidos na vida real do que os magricelos. E ele vinha. E eu parei, foda-se, vou encarar esse desgraçado.

“Algum problema?”, perguntei levantando o queixo pra parecer mais homem.
E ele só me respondeu quando estava a quatro passos de mim.
“Me dá esses vinte reais! Agora!”, ele respondeu com uma voz gutural de quem fumava onze carteiras de cigarro por dia. Nessa exatidão: onze.

Antes de eu conseguir intimidá-lo, o desgraçado me tira um martelo da bunda e tenta me acertar, mas a babaquice era tamanha que o cara errou por dois palmos o meu rosto e caiu, deixando o martelo cair no chão. E foi aí que eu tive minha epifania! Se aquele filho da puta tentou me matar, ele podia ter conseguido! E se ele tentar de novo, talvez consiga.

Sem demora, me abaixei pra pegar o martelo e minha corrente rolou para fora da camiseta, fazendo brotar aquele cartucho de AK-47 que balançava na minha cara como se me convidasse para uma seção de hipnotismo.

O brutamonte gemia no chão molhado e chorava. E o cartucho balançava e me convidava: o que acha de dar um tiro, garotão? Ele perguntava isso. Pelo menos foi o que eu consegui escutar.
Arranquei-o do pescoço, segurei entre meus dedos como quando vamos pregar um prego na madeira. O mais legal é que não seria a madeira a ser perfurada hoje…

Peguei o martelo e fiz o que o nome dele remete pra eu fazer: martelei. Martelei um cartucho de AK-47 através do osso occipital do bebê chorão. Foi igual tirar a rolha de uma garrafa, só que ao contrário. Duas marteladas: fluct! Achei que o cartucho fosse estourar devido à porrada, mas nada fez.

O cartucho fedendo a peixe já estava enterrado na cabeça daquele otário, mas ele ainda chorava. Dei um chute na barriga dele, larguei o martelo em cima das costas dele e fui embora. Deixei o cara agonizando com uma bala na cabeça, pregada pela arma do crime que ele iria cometer em mim. A cinzas do meu cigarro já estavam voltadas para baixo de tão grandes, tirei-o da boca, bati-as, recoloquei-o na boca, e fui comprar minhas quatro carteiras de cigarros e meu chocolate.