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Contos Minilua: O pecado não fica offline #183

Pois é, e a cada semana, você confere os mais diferentes temas. Hoje, por exemplo, com um dos mais em voga dos últimos tempos.A todos, como, sempre, uma excelente leitura! PS: E-mail de contato: equipe@minilua.com!

O pecado não fica offline

Por: Anderson Mafra

 

São 7h quando o celular de Renato começa a tocar a sua música favorita. De olhos fechados e ainda com sono, Renato nem se lembra porque gosta tanto daquela canção, na verdade seu único desejo naquele momento era que ela não estivesse tocando.

Devagar, ele tateia o criado mudo, acha o aparelho, e com um toque na tela devolve o silêncio ao quarto.À medida que Renato ganha consciência, vai se lembrando por que escolheu aquela música do Raul: é uma maneira de tomar coragem para iniciar um novo dia em alto astral. E pra não correr o risco de pegar no sono novamente ele levanta da cama e caminha a passos tortos até o banheiro cantando mentalmente “Eu nasci! Há dez mil anos atrás…”.

Enquanto toma café, Renato acessa a sua agenda pelo celular e lembra que a primeira reunião do dia começa às 9h. Aproveita para dar uma olhada no trânsito e, só pra variar, descobre que a 23 de Maio tem mais carro do que gente na 25 de Março.

Renato chega em cima da hora para a reunião e senta numa cadeira que está no fundo da sala, ouve um imenso discurso de introdução sobre o balanço financeiro da Cia. e ao ver que a apresentação tem 48 telas, prefere pegar o celular e passar o resto do tempo ajudando alguns pássaros furiosos a recuperarem os seus ovos.

Perto do meio dia a reunião finalmente termina e Renato vai direto pro almoço. O restaurante é o mesmo de quase todos os outros dias, assim como o prato, o bem servido bife à parmegiana. Enquanto almoça, Renato tira uma foto daquele bife gigantesco e com 140 caracteres tenta aguçar o apetite de quem ainda não almoçou.

No Face, entre cutucadas, “curtis” e compartilhamentos, Renato repara na foto de uma tal de Gabriela Tentonato e tem a sensação de conhecer aquele rosto e sobrenome de algum lugar. Mais do que depressa ele passeia pelo perfil da moça e descobre que eles têm em comum vários amigos da época da escola e pra sua surpresa lembra que a tal Gabriela na verdade era a Gabi, a garota mais linda da sala e por quem ele era apaixonado.

Ele dá uma olhada no álbum de fotos, lê os últimos posts e procura saber mais sobre a moça, as informações são poucas, mas o suficiente para ele descobrir que ela também está estudando, que trabalha em uma empresa próxima dali e o melhor, torce para o mesmo time que ele. Só podia ser coisa do destino!

Sem pensar duas vezes, Renato solicita a amizade da Gabi e envia uma mensagem particular no estilo “lembra de mim?”. Antes que a última garfada no parmegiana fosse dada, ele recebe uma resposta pra lá de simpática da sua agora nova (antiga) amiga. As mensagens se multiplicam ao longo da tarde e depois de pouco trabalho e muitos caracteres, e-motions, rs, kkkks e hahahahas, Gabi recebe e aceita um convite para tomar alguma coisa (com colarinho, é claro) depois do expediente e colocar a conversa de anos em dia…

Renato é o primeiro a chegar ao Velha História, um barzinho aconchegante e bem conhecido pela redondeza, que além de tudo tem um nome que combina bastante com aquela situação. Gabi chega ao mesmo tempo que o garçom trazia o segundo chope, completamente corada de vergonha ela cumprimenta Renato e diz sim ao chope oferecido pelo garçom.

Começa aquela conversa tímida, meio sem jeito e, como se tivesse os mesmos 15 anos quando conheceu Gabi, Renato fica completamente maluco por aquela garota, que conseguiu ficar ainda mais gata, cheirosa e charmosa. Sem falar daquela cintura…

Ele só se perguntava:

– Meu Deus, que mulher é essa?

Os chopes vinham para diminuir a timidez, aumentar a intimidade e fazer companhia para a conversa que se desenrolava interessantemente numa mistura de saudosismo ao passado e curiosidade pelo presente. Renato, cheio de confiança, que só o bom e velho chope pode trazer, aproveita uma oportunidade e outra para jogar algumas indiretas. O clima vai esquentando até que Gabi se levanta para ir ao banheiro.

Ver aquele corpo escultural desfilar entre as mesas era o que faltava para Renato não ter mais dúvidas que era hora de partir para o ataque, mas antes de embarcar naquele avião, ele pegou o celular e fez um “check-in” seu no Velha História, marcando também o nome da Gabi em uma publicação do Facebook.

Como estratégia do grand finale, Renato aproxima sua cadeira da que Gabi estava sentada e poucos minutos depois dela voltar do banheiro, interrompe a conversa fiada e dá aquele beijo tão desejado, aguardado desde a sua adolescência. Gabi até que tenta se afastar, mas a vontade supera o medo com certa facilidade.

A pegação começa e só termina quando os dois ouvem um grito seguido por um palavrão. Renato abre os olhos e vê Gabi assustada, mais amarela do que a porção de polenta frita que estava em cima da mesa, e antes de conseguir se virar para ver o que tinha acontecido, recebeu um golpe na nuca. Era Paulo, namorado da Gabi, que estava conectado quando viu o nome da sua amada ser marcado por outro cara e resolveu ir até o bar para tirar satisfação.

Entre xingamentos, socos e pontapés, Renato se defendeu como pôde e ficou estatelado no chão enquanto Gabi e Paulo eram retirados pelos seguranças. Ainda jogado no chão, olhou para o lado e viu seu celular, companheiro de todas as horas, tão quebrado quanto o dono.

Ali, ainda atordoado, se deu conta que esse mundo moderno é dinâmico, muitoooooo dinâmico. Ao ponto da fruta do pecado já vir mordida de fábrica.