Contos Minilua: No país das maravilhas #37

E antes de começarmos, apenas um pedido: Sempre que possível, procure revisar o seu texto. Lembre-se: agindo assim, você garante uma maior agilidade. Uma boa leitura! 

                                                      No país das maravilhas

Por: Jasce Honorato

Inspirado em “Alice” de Lewis Carroll, com uma citação inspirada pela Raposa do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, os meus dois livros preferidos.

Encontrava-me em um jardim em plena primavera. Sempre gostei de jardins, o cheiro das flores me trazia lembranças doces. Também gostava das cores. Era tão bom estar em um lugar colorido, não sei por que, mas as cores me deixavam feliz.

Era apenas mais um dia comum, estava ali só passando o tempo, quando de cima dos muros brancos pulou um gato negro. O contraste nítido entre o gato e a parede me fez perceber sua presença rapidamente. Até então não havia nada de mais e eu não teria dado muita atenção ao gato não fosse o fato dele estar usando um colete enquanto andava ereto como um humano. Fiquei tão fascinada com a cena que tive que segui-lo. Levantei-me rapidamente deixando as flores de lado e corri para perto do bichano. Ele andava muito rápido e tive que chamar sua atenção.

- Ei gatinho espere! - e fiz o típico zunido que fazemos para chamar a atenção do felino.

O gato virou a cabeça para trás e continuou a caminhar, no entanto me assustou ao responder:

- Não posso, estou atrasado - e correu para o meio das casas da cidade.

O segui arduamente até vê-lo desaparecer por entre os telhados. Não desisti e continuei a segui-lo com muito cuidado. Logo pude ver sua cauda sumindo para baixo das telhas, no que parecia ser uma viela. Ao pular como o gato fez, fui surpreendida por uma queda muito alta. Cai lentamente até pousar delicadamente como uma pluma na relva macia.

Estava em uma terra completamente diferente da que conhecia. Apesar da semelhança entre ambas, o sentimento de estranheza me punha à pulga atrás da orelha. Não muito longe do local de minha queda, pude ver uma mesa absurdamente enorme. Nela havia inúmeras xícaras e bules de chá além de bolos, pães, docinhos e geléia.

Era uma enorme festa. Fiquei um pouco preocupada em me aproximar sem ter sido convidada, o gato que segui já estava sentado em umas das cadeiras e servia a bebida quente a uma mulher muito gorda que vestia uma roupa engraçada. Ela apertava algo em seus braços. Aproximei-me do gato cautelosa e perguntei-lhe:

- O que é isso?

- Ora é a festa do chá! – gritou a mulher gorda.

Neste momento pude ver que o que ela segurava nas mãos era um bebê, um grande bebê rosado.

- Mas que coisa!- o modo como ela apertava a criança me chocou, estava quase a sufocando – Não consigo entender!

-E o que quer entender? - perguntou-me o gato.

- Ora, não sei bem ao certo.

- Então como espera entender? - retrucou a mulher.

-Porque não se senta e toma um chá? -disse o gato.

- Pois bem, talvez assim eu compreenda algo.

Preparei-me para sentar ao lado da mulher, mas antes que pudesse me acomodar ouvi um miado alto.

- Aí não! – gritou o gato -Não pode sentar-se ao lado da Duquesa, não é digna disto, é da plebe.

- E onde devo me sentar? – perguntei irritada.

- Com o Chapeleiro! - respondeu.

- Que seja!

Nas pontas dos pés observei ao redor. A mesa era muito extensa para que eu pudesse ver todos os convidados, felizmente dei com os olhos em cima de um velho baixinho que usava uma enorme cartola. Era maior que qualquer chapéu que eu já havia visto, então deduzi que seria ele o tal Chapeleiro. Fui ao seu encontro e puxei uma poltrona lilás e aconchegante que estava ao seu lado.

- O senhor é o Chapeleiro? - perguntei incerta.

- Não é óbvio! -respondeu uma coisa peluda que estava pulando em cima da mesa.

- Uma lebre?

- Não é uma lebre, - disse o Chapeleiro irritado - É a minha lebre.

- E que diferença faz?

- Ora como assim? De todas as lebres do mundo está é a minha lebre, por isso faz diferença.

- Que motivo… As pessoas aqui são meio estranhas!

- E as do seu mundo não são?

- Até que não. Elas são bem sensatas.

- Sensatas? Então elas são loucas.

- Mas é claro que não! Vocês é que devem ser.

- Talvez você que seja.

- Ora, não sou.

Levantei-me irritada com a falta de educação do Chapeleiro e rumei até outra cadeira vazia.

-Mas já vai? - ele gritou -não quer continuar a questionar as pessoas?

- Não, não gosto de pessoas sem sentido!

- Então não fale com pessoas, ninguém sabe qual é o sentido delas.

Puxei uma cadeira de madeira e sentei-me novamente. Peguei uma xícara de chá e já ia me servir quando de repente algo se mexeu dentro do recipiente. Segurei a caneca mais perto a tempo de ver uma lagarta azul se desdobrar para me encarar.

- Quem tu és?

- Ah desculpe, não vi que a xícara estava ocupada.

- Quer chá?

- Claro, se peguei a xícara é porque quero!

- Poderia querer outra coisa. Poderia mudar de idéia.

- Porque mudaria? Aqui só tem chá!

- Porque tu és imprevisível, todos são, e não se deve querer apenas aquilo que lhe é oferecido.

- Não me diga que também é louco como o Chapeleiro.

- Não sou, mas o que garante isso?

- Bem, não sei. Sua palavra é válida, mas deve agir como uma pessoa normal.

- E como as pessoas normais agem?

- Ora, fazendo tudo àquilo que é comum a sociedade.

- Agir como todo mundo? Isso sim me parece loucura.

- Bem, é melhor eu ir, ficar aqui não me faz bem.

- Por quê?

- Porque estou desconfortável com as pessoas, elas são malucas e insistem em me contrariar.

- E tu não és maluca? Nem um pouco?

- Não, eu sou uma pessoa comum.         

- Pois isso me parece maluquice. Então é maluca. Todos são.

- Não, não sou e nem quero ser.

- Por quê? Acaba de dizer que ser normal é fazer aquilo que é comum a todos. Aqui o comum é a loucura. O que tu serias afinal?

- Bem, quando acordei hoje de manhã eu sabia quem eu era. Mas mudei tanto desde então. Só sei que não quero ser maluca, porque ninguém gosta de gente maluca.

- Então vá, mas não fujas. Não se pode fugir daqui. O único jeito de sair é comportando-se.

- Farei o possível.

Novamente procurei outro acento e encontrei apenas um banquinho vazio ao lado de uma mulher que vestia um vestido xadrez. Ela usava uma coroa, o que me fez pensar que se fosse uma rainha, não poderia sentar ao lado dela, afinal eu “era da plebe”.

Já estava muito arrependida de ter seguido o gato até aquele mundo sem sentido, então pouco me importei com o que iriam dizer. Deixei de lado as regras chatas e sem fundamento que pareciam reger aquele lugar e sentei-me no banco ao lado da rainha.

- Mas que bela garota! – disse ela quando sentei a seu lado.

- Obrigada majestade.

- Educada! Sabe cantar?

- Sim majestade.

- Cante-me uma canção.

Não conseguia me lembrar de nada, por isso cantei a primeira coisa que me veio à cabeça. Cada palavra saía de minha boca totalmente embaralhada, era como se o que eu havia dito se transformasse em coisas absurdas no ar. Ainda assim a rainha pareceu feliz.

- Sirva-me o chá.

Encarei-lhe por um instante.

- Não me agradecera pelo canto?

- É sua obrigação, deve me agradar, eu sou a Majestade.

- Ora não vou servi-la, sirva-se sozinha!

A rainha então me observou com os olhos cerrados, sua face ficou tão vermelha que tive medo que ela explodisse.

- E eu que pensei que fosse uma boa garota! – gritou.

- Mas eu sou apenas disse que…

- Cortem-lhe a cabeça!

Soldados levantaram-se da mesa e se aproximaram de mim. Recuei assustada.

- Mas majestade, minha cabeça… O que eu fiz?

- Não a usou corretamente, vou arrancá-la para que aprenda a obedecer. Vou cortar suas ideiazinhas insolentes.

- Mas…

Todos ficaram de pé e antes que eu pudesse argumentar vieram afoitos em minha direção. Corri para o lado contrário tentando achar um esconderijo. Mas quanto mais eu corria, mas parada parecia estar. De repente, em meio a minha agonia, avistei de longe uma porta. Precisava chegar até lá, precisava me esconder.

Olhei para trás, todos ainda me seguiam incansavelmente. Alcancei a porta com alguns passos de vantagem em relação a eles. Puxei a maçaneta, mas ouvi um grito de dor.

- Ai, que isso? – perguntei olhando para maçaneta.

- Estou trancada! – respondeu.

- Deixe-me passar.

- Não posso, não tenho a chave.

- E onde está?

- Com a Rainha, é ele que tranca as portas.

- Não, eu tenho que sair, deixe-me sair, eu preciso fugir!

- Fugir de que? Vai ser apenas um corte rápido, é o melhor para você, entenda.

- NÃO, DEIXE-ME IR, EU QUERO SAIR, EU QUERO SAIR DAQUI.

Senti alguém puxar o meu braço, virei a tempo de ver um dos soldados me segurando com força. Um segundo militar me agarrou pelo outro braço e ambos me obrigaram a ajoelhar. Então a Rainha parou em minha frente.

- Não se preocupe, não vai doer. Isso é para o seu bem.

- NÃO.

Senti um corte na garganta, o sangue quente escorreu pelo meu peito. Tudo foi ficando branco como uma luz forte até que desfaleci.

- Tudo bem enfermeiros, podem solta-la. Está dopada.

- Tem certeza Doutora?

- Sim, é sempre assim. Odeio quando esses loucos fazem escândalo para tomar os remédios. Da próxima vez não a levem ao jardim, quanto mais liberdade se dá, mais rebeldes eles ficam.

- Sim senhora.

- E pelo amor de Deus, quem trouxe esse gato para cá?

- Ele a seguiu até aqui Doutora, parece que gosta dela.

- O que? Gosta dela? Ninguém gosta de gente maluca.

“Tudo tem uma moral, se você conseguir simplesmente notar.”

Lewis Carroll

  1. Erissa Darfis

    9 de maio de 2013 em 16:05

    É inspirado na verdadeira história da Alice,que era uma menina louca. Podemos ver em ” O lado negro:Alice no país das Maravilhas”

  2. Willy Nery

    24 de fevereiro de 2013 em 13:11

    nunca entendi esse filme

  3. Gabriel Arcangelo

    26 de setembro de 2012 em 13:43

    Acessem meu site. Também gosto de contar historias xD.

  4. Jasce Honorato

    24 de setembro de 2012 em 10:58

    Obrigada por postar Jeff.

    Valeu pelos coments pessoal (os que comentaram sobre o texto né lol)
    • Aleister Crowley

      25 de setembro de 2012 em 14:52

      Por favor, faça mais contos.

      • Jasce Honorato

        25 de setembro de 2012 em 20:59

        Eu até penso em enviar mais contos, mas da um desanimo quando eu venho ver os coments e só tem gente zoando. Um ou outro leu de fato e absorveu algo. Esse conto assim como os meus outros dois que foram postados aqui são cheios de significados, mas de que adianta enviar se o publico do ML tem ficado cada vez mais chato? Sei lá se devo continuar enviando…

        • Aleister Crowley

          26 de setembro de 2012 em 13:03

          Não faça pelos outros, faça por você mesma.

          Se você se sente bem fazendo, apenas continue.
          • Jasce Honorato

            26 de setembro de 2012 em 16:40

            Nossa, acho que era só isso que eu precisava ouvir! (quer dizer, ler)

            Sério, obrigada, você me deu um chute motivacional aqui rerere
            Vou continuar enviando os contos!
          • Aleister Crowley

            26 de setembro de 2012 em 19:07

            Os leitores agradecem.

  5. Fernanda Baptista

    23 de setembro de 2012 em 18:42

    Gostei muito desse conto.  O final foi bem interessante…

  6. Dohkito

    23 de setembro de 2012 em 17:26

    dava pra vcs fazerem um livro com esses contos

  7. Wagner

    23 de setembro de 2012 em 17:20

    Conto muito foda. Tá de parabéns 🙂

  8. Charlotte Scarlet

    23 de setembro de 2012 em 09:14

    eu li com a maior má vontade achando que o conto iria ser um saco, mas o final me surpreendeu! gostei!

  9. Psycho The Cat

    23 de setembro de 2012 em 08:17

    Transtorno Esquizofreniforme. Interessante adaptação. 

  10. Psycho The Cat

    23 de setembro de 2012 em 08:14

  11. Psycho The Cat

    23 de setembro de 2012 em 08:14

  12. Psycho The Cat

    23 de setembro de 2012 em 08:00

    g45

  13. Um qualquer

    22 de setembro de 2012 em 23:33

    Puts, me surpreendeu.
    Excelente conto…

  14. Super

    22 de setembro de 2012 em 22:40

    sobre o que exatamente é? 

  15. Pedro

    22 de setembro de 2012 em 22:33

    eu achei que não gostaria, mas gostei…

    agora estou me sentindo estranho…
    • PATROCINADOR novato

      22 de setembro de 2012 em 22:36

      O SEU ESTRANHO SERIA O NORMAL DE OUTRAS PESSOAS

      • Pedro

        22 de setembro de 2012 em 23:02

        NÃO INTERESSA PRA VOCÊ GARDENAL

        • PATROCINADOR novato

          23 de setembro de 2012 em 00:08

          NA VERDADE É DIAZEPAM.

  16. Sarah Figueiredo

    22 de setembro de 2012 em 22:20

    Isso foi realmente fantástico!

  17. Tsukamoto Yakumo

    22 de setembro de 2012 em 22:16

    O final foi bem interessante

  18. Avril Lavigne

    22 de setembro de 2012 em 22:12

    Nossa já vi isso muito engraçado!

  19. jeandeassis

    22 de setembro de 2012 em 21:59

  20. Andreza Souza

    22 de setembro de 2012 em 21:58

    Já li história parecida… uahsuahsuahuas

    • Ichigo Hollow

      22 de setembro de 2012 em 22:00

      você leu tudo isso em 7 minutos?

      • Andreza Souza

        22 de setembro de 2012 em 22:04

        mas a maior parte é diálogo =]

        • Wagner

          22 de setembro de 2012 em 22:08

          Gosto mais de contos que tenham diálogos. Acho mais interativo 🙂

        • Ichigo Hollow

          22 de setembro de 2012 em 22:08

          mesmo assim é muita coisa

  21. VAMPIRO DOIDÃO

    22 de setembro de 2012 em 21:57

    …SAHLIVARAM SAD SÍAP UEM

  22. Mano Brown

    22 de setembro de 2012 em 21:56

    Grandinho, vo começar a ler, kkkkkkk

  23. Wagner

    22 de setembro de 2012 em 21:54

    Vou ler amanhã, pois minhas vistas estão doendo de tanto estudar probabilidade hoje -_-

  24. jeandeassis

    22 de setembro de 2012 em 21:53

    Prefiro Skyrim.(Pra mim aquele é um lugar maravilhoso.)

  25. Jeff Dantas

    22 de setembro de 2012 em 21:52

    E assim como a Jasce, gosto muito desse conto.. Não só desse, do Pequeno Príncipe tb. ^^

    • jeandeassis

      22 de setembro de 2012 em 21:54

      Quando eu vi essa imagem eu lembrei do Link.(do legend of zelda)

      • jeff zika Mc

        22 de setembro de 2012 em 21:56

        mentiroso.

        • jeandeassis

          22 de setembro de 2012 em 21:58

          é sério,eu lembrei dele e pelo jeito,vc também lembro.(PS: meu comentário tinha 4 segundos de diferença do seu,então no momento que eu mandei,o seu nem tinha aparecido aqui,porque não tinha atualizado a pagina.)

          • jeff zika Mc

            22 de setembro de 2012 em 22:02

            mais olhando bem ele parece o sayajin

          • jeandeassis

            22 de setembro de 2012 em 22:06

            Parece mesmo,e também me lembra o personagem principal(
            Vaan ) do jogo “Final Fantasy 12” do ps2.

    • jeff zika Mc

      22 de setembro de 2012 em 21:54

      Parece o Link 

  26. Hard Lohan

    22 de setembro de 2012 em 21:52

    viva la revolución

  27. VAMPIRO DOIDÃO

    22 de setembro de 2012 em 21:52

    …KNUF ETSIXE OÃN SAHLIVARAM SAD SÍAP ON

  28. jeff zika Mc

    22 de setembro de 2012 em 21:51

    Esses conto contem letras

    • jeandeassis

      22 de setembro de 2012 em 22:02

      Essa sua frase me lembrou uma coisa que minha professora me disse a alguns anos atrás….”Palavras verbais contem verbos” 

    • Ichigo Hollow

      22 de setembro de 2012 em 21:57

49 Comentários
mais Posts
Topo