Minilua

Contos Minilua: Reunião #88

Bem, e de coração, eu gostaria de agradecer a todos pela participação. Sem vocês, acreditem, nada disso faria sentido. E-mail de contato: equipe@minilua.com!

Reunião

Por: Wagner Cezário

Histórias diferentes, mas um mesmo lugar de encontro. A imensa vontade incompreensível às ações humanas é a única capaz de mudar e distorcer o conto de fadas para que sonhos e desejos sejam realizados.

CHAPEUZINHO VERMELHO

– “Pela estrada afora, eu vou bem sozinha

Levar esses doces para a vovozinha”

E lá ia ela, a doce e jovial Chapeuzinho Vermelho. Sempre seguindo um perigoso trajeto até a casa da avó, cantava alegremente com a sua linda voz de taquara rachada. Eis que em seu caminho surge um ser muito estranho.

– Olá garotinha!

– Quem é você?

– Não está me reconhecendo? Esses pêlos em meu corpo não lhe dizem nada?

– Ai meu Deus! Tony Ramos?!? O que você está fazendo nessa floresta?

– Ô estúpida! Eu sou o Lobo! E o que você ta falando, não segue mais roteiro não? Nossa vida depende desse emprego, então não estrague nada.

– Ah seu Lobo, sacomé. Essa vida de levar doce pra vovó não é para mim não. Tô muito enjoada disso. Nem as criancinhas que lêem essa história tão gostando disso.

– Como assim? Vá para a casa da sua avó agora! Mas vá devagar que eu preciso me fantasiar ainda e só depois você faz as perguntas de praxe.

– Seu Lobo, isso não engana ninguém mais. Imagine só quão retardada eu devo parecer fazendo perguntas para um lobo achando que é a minha avó? Vou correr por aí e traçar um novo rumo e tentar realizar meu sonho.

– E qual seria esse sonho?

– Não sei direito… Eu tenho um ótimo dom para o canto e meus passos de arrocha são demais. E ficar no mesmo roteiro todo vez acaba tornando meu talento de atriz inutilizável. Hmm… Já sei o que quero ser! Quero ser uma Chiquitita! HAHAHAHAH SIM, VOU SER UMA CHIQUITITA!!!!!!!

Igual a uma louca, Chapeuzinho saiu correndo deixando o lobo para trás. Foi realizar seu sonho, só não sabia como alcançá-lo. A sua vontade era imensa. Seu desejo era muito grande. E isso foi o suficiente para corromper o espaço-tempo em que estava. Um portal surgiu na sua frente. Sem medo, passou por ele.

BRANCA DE NEVE

– Espelho espelho meu. Existe alguém mais bela do que eu? – Perguntou a bruxa

– Ô, e como existe. Não seria melhor perguntar qual é a mais bonita de todas? Caso contrário você vai ter que dar maçã para todas as mulheres do mundo.

– Calado seu estúpido, sabe muito bem que pergunto sobre a Branca de Neve! Onde ela está?

– Ah, ta lá mais ao norte escravizando anões.

– Maldita, além de beleza também tem anões. Mas sei muito bem que vou fazer com ela. Vou lhe dar uma laranja, jamais desconfiará de que estará envenenada MUAHAHAHAHA!

Longe dali, mais ao norte, estava a jovem de pele macia e branca como a neve. Com um chicote na mão, não parava de gritar.

– Vamos seus imprestáveis! Por serem pequenos vão ter que fazer o trabalho em dobro!

E então começou a pôr ordem na casa.

– Atchim, vá tirar poeira dos móveis. Zangado, conte-me uma piada muito engraçada. Mestre, jogue os livros na fogueira porque está muito frio aqui. Soneca, vai ver o horário político para mim e conte-me depois nos mínimos detalhes.Dengoso, larga de manha e vá juntar as camas. Dunga, cante uma canção do Mc Koringa. E Feliz… Pare de ficar sorrindo! Aff seus imprestáveis, vou lá fora tomar um pouco de ar. E vocês parem de fazer suas coisas e vão catar ouro para mim.

Mal sai da pequena casa e no pequeno quintal depois da pequena cerca encontra uma mulher vendedora de laranjas.

– Ei moça, você quer uma laranja?

– Tá quanto isso aí?

– Ah, só ta custando uma vida só.

– Uma vida?

– Não, uma libra.

– Ah tá bom, me vê sete aí. Meus escravos necessitam de comida.

– Mas anões não podem comer, somente mulheres podem.

– Escuta aqui sua recalque, quem é que ta comprando?

– Sua filha da égua, come logo essa laranja ou a enfio goela abaixo.

De repente as duas saíram no tapa e no meio do arranca rabo surgiram os anões. Ao invés de ajudar, foram comer laranjas e como todas estavam envenenadas, acabaram falecendo. Depois que acabou de desmaiar a bruxa disfarçada, Branca de Neve sentiu-se triste. Não possuía mais escravos e isso fez com que ficasse com mais sangue nos olhos.

Queria mais escravos só que dessa vez maiores para poderem lhe satisfazer sexualmente. Sua vontade era enorme e um imenso portal apareceu na sua frente… Quem sabe através dele não tinha o que queria?

JOÃO E MARIA

Esculachados pela madrasta novamente, os pobres irmãozinhos decidiram botar o pé na estrada. Levaram apenas um pedaço de pão velho e mofado só que ao invés de usarem como comida resolveram marcar o caminho com ele caso ficassem arrependidos e quisessem voltar para casa. Pedaço por pedaço, iam se afastando cada vez mais.

– Joããão… Eu estou com uma necessidade muito grande de alimentar-se. Assim como Jesus você poderia disponibilizar desse pequeno pedaço de pão e dividir comigo?

– Não Maria, esse pão tá envenenado. Não está vendo a trilha de passarinhos mortos que está logo atrás da gente? Olha, ali na frente tem uma casa. Vamos pedir comida lá.

Antes que chamassem, uma mulher com os peitos pêra (pêraqui no joelho) veio recepcioná-los. Carregava debaixo de seu sovaco um pote de marmelada.

– Entre doces e adoráveis crianças. Estão convidadas para o jantar

– Papai disse para não aceitar alimentações de pessoas desconhecidas, assim como recusar seus convites para a entrada em seus domicílios – Retrucou Maria

– Para de show Maria! Vamos entrar logo e comer algo.

No interior da casa tudo era doce. A parede era doce, a mesa só tinha doce, as panelas eram doces e até o sal era doce! Depois da permissão da mulher, começaram a comer tudo… Pouco a pouco a casa foi sumindo até que se extinguisse por completo.

– Moleques malditos, vocês comeram a minha casa toda! Vocês vão pagar por isso, espere alguns minutos e colocarei os dois dentro de meu caldeirão e… Ei, por que estão me olhando assim? Parem agora, eu não sou comida! Ah seu viado, para de morder meu pé! Sua vadia metida a nerd, larga minha orelha!

Os doces apenas serviram para atiçar ainda mais as crianças, tornando-as incontroláveis. Assim como a casa, a senhora também foi comida (no sentido literal da palavra) pelos pequenos canibais. Eles queriam mais, muito mais. Tamanha vontade nunca havia sido vista e de repente, um portal surgiu.

A BELA E A FERA

Um dos homens mais bonitos do mundo havia se tornado uma fera por causa de uma bruxa que teve seu pedido de amor recusado por tal homem. Se ela não poderia se aproximar dele, ninguém mais poderia. Porém se ele sentisse o verdadeiro amor, o encanto seria quebrado.

Seu instinto assassino tornava-se cada vez maior com o passar dos dias. Ordenava que as mulheres mais lindas do país se dirigissem ao seu castelo. Se ele não gostasse de alguma, acabaria a devorando. Caso gostasse, a mulher viveria ao seu lado e compartilharia de sua fortuna e riqueza. Corpos e mais corpos foram mutilados durante anos.

Certo dia, uma plebéia passava diante de seu castelo. Nunca havia visto uma criatura tão linda. O “homem” resolveu se aproximar dela cuidadosamente, antes que ela pensasse em fugir. Porém, ao avistá-lo, a moça ficou parada e sorriu para ele.

– Você não tem medo mim?

– Claaaaaro que não seu bocó. Meu pai é dono de circo e desde novinha fico brincaaaaando com seus ursos e seus leões. Minha mãe é uma pééééssima cozinheira também, então o seu fedor também não me impressiona. Meu irmão tem uma verruga enoooorme que é muito cabeluda. Enfim, já passei por sustos beeeeem maiores.

– Sabia que você é muito bonita?

– Sim, sempre soube. Não é querendo me gabar, mas dou de deeeeez a zero na Megan Fox. E penso que dentro desse pêlo todo, existe um lindo rostinho. Ah, como sou esquecidaaaaaa!  Prazer, meu nome é Bela. E o seu?

– Genovaldo.

Estando muito afim dela, resolveu propor um convite.

– Por acaso você poderia morar comigo e me fazer feliz como a minha esposa? Poderia lhe dar todas as riquezas do mundo.

– Mas é claaaaaro que não. Cê tá doido? Imagine eu, Bela Fonseca Fossa, casada com um projeto de pastor alemão feito você? Ainda mais com um nome desses. Seu sobrenome é o quê? Quiaveneto? Nem o dinheiro do muuuuundo vale essa zoofilia toda.

Enfurecido, com apenas uma patada cortou Bela ao meio. Percebeu que era muito difícil o amor ser correspondido, e com isso uma vontade maior cresceu dentro dele: vingança. Após um urro de dor e sofrimento, um portal apareceu. Talvez se a bruxa estivesse lá dentro poderia matá-la e acabar com o feitiço. Não era uma má ideia.

PINÓQUIO

– Mas pai, eu não estou mentindo! – E de repente o nariz de Pinóquio cresceu.

– Filho, já falei para parar com as mentiras. Como não me obedeceu, vou deixá-lo de castigo. Vai ficar no canto do seu quarto, só que sem as pernas para não fugir!

Ninguém acreditava no coitado e nem em suas aventuras. Realmente ele passava por várias delas, só que exagerava nos fatos e seu nariz o incriminava assim que mentia.

Amanheceu e Pinóquio tinha que ir para a escola. Não era porque era um menino cara-de-pau que não poderia ir para escola e isso era a coisa mais humana que possuía. Não queria ser humano, pois com o seu corpo conseguia arrumar diversos empregos. Escrivaninha, lápis, toco de amarrar jegue, comida de cupim… Enfim, emprego nunca faltava.

Porém seu corpo era frágil. Não ficava na chuva para não apodrecer e também tinha que ficar longe dos cupins. Era apaixonado pela adorável Metalina, a menina de metal. Só que sequer conseguia conversar com ela sem ao menos se atrapalhar.

– O-oi Metalina, tu-tudo bem com você?

– Oi Pinó! Tudo bem sim. Você parece nervoso…

– Im-impressão su-sua- “Vuuuum”, seu nariz cresceu.

– Credo Pinó, que houve com seu nariz? Está mentindo de novo?

– Cl-Claro que não né – “Vuuuum”– Por que faria tal coisa?

– Uai, mas seu nariz não pára de crescer.

– É um aplicativo novo que o papai instalou em mim. Acho que está com defeito –“Vuuuum”.

– Pinó, você é de madeira. E veja só, tem cupins ao seu redor. Enfim, sabe do Metalinatus? Estou namorando ele. O que você acha?

– Nossa, q-que legal! – “Vuuuum”, direto na cara da moça.

– Ai meu olho!!! Vou embora, assim que você melhorar voltamos a conversar.

Ali, sozinho na praça, Pinóquio começou a chorar pó de serra. Correu para longe. Estava muito triste. Além de não conseguir se declarar para a menina que amava, havia perdido para outro que era mais parecido com ela.

Estava determinado a conquistar Metalina de qualquer jeito. O amor falou mais alto e sua vontade cresceu. Cresceu tanto quanto o seu nariz quando mentia. Só que dessa vez falava a verdade e atravessou o portal que aparecera logo após seu nariz ter voltado ao normal.

REUNIÃO

 

Uma capa vermelha.

Um rosto pálido

Açúcar e doces

Pêlos escuros.

Pó de serra.

Enfim, todos estavam reunidos.

Escuta-se uma voz no meio do breu.

– A vontade de vocês modificou a história original. Ganharam a oportunidade de conseguir o que querem. Talvez eu possa realizar seus sonhos, mas não garanto que isso tenha um final tão feliz quanto estão acostumados. Sejam bem vindos à Casa dos Contos e que a busca pela saída comece!

CONTINUA EM “A Casa dos Contos II: Sonhos e Desejos”