Minilua

Contos Minilua: Sonhos que sonhamos acordados #36

E confesso a vocês, jamais imaginei tanto sucesso para este quadro. Os textos então, um mais criativo que o outro. Valeu mesmo!

                                                         Sonhos que sonhamos acordados

Por: Wagner Cezário

Todas as noites, eu sonhava com um lugar maravilhoso. Estava sempre ao lado do meu pai e da minha mãe. Uma família novamente reunida. O ruim do sonho é que não era para sempre. Todas as manhãs, acabava acordando.

Desde que meu pai morreu, eu e minha mãe vendíamos picolés nas ruas. Essa era a nossa única fonte de renda. Antes de ir dormir, via minha mãe fazendo picolés para vender no dia seguinte e conseguir o pouco que nos fazia sobreviver. Estudava de manhã para poder ajudar minha mãe e minha única amiga nas vendas à tarde.

Tracei o meu rumo até a escola, o mais devagar possível. Detestava aquela escola. Detestava meus colegas. Detestava meus professores. Detestava tudo.  Muitos me julgavam por eu não ter mais um pai e também por não passar de um “pé-rapado”. Frequentava a escola porque pensava em dar um futuro melhor para a minha mãe (e para mim também). Ela merecia o maior conforto do mundo.

Depois de uma cansativa manhã na escola fui para casa. Em um momento, achei que estava sendo seguido. Logo depois eu tinha certeza. Uns cinco colegas meus me pegaram e me jogaram no chão de um beco. Lá começaram a me chutar e socar. Depois de passar mais de 10 minutos me batendo, resolveram ir embora. Tudo isso porque recusei passar cola durante a prova de umas horas atrás. Machucado, tracei meu rumo novamente para casa.

Depois de ver meu estado, minha mãe falou que conversaria com a diretora do colégio para que fizesse algo relacionado ao ocorrido. Eu disse para não fazer isso. Não queria apanhar mais. Ela olhou para mim e me abraçou fortemente. Nunca havia sentido tanto carinho em abraço como aquele. Era quente e confortável. Disfarcei o choro falando que ela estava me machucando. Desculpou-se e tratou das minhas feridas.

Mais tarde fomos vender picolés. Mãezinha (como a chamava constantemente) insistiu para que eu ficasse em casa, mas em um dia quente como aquele ela precisaria de toda ajuda durante as vendas. Esses dias eram os melhores. Poderíamos faturar mais do que o normal e isso cooperaria muito. Voltamos para casa quando estava quase anoitecendo. Como sentia dores no corpo, fomos bem devagar. Até que a noite chegou, estranhamente, bem rápida.

Faltando uns dois quarteirões para chegar à nossa casa, fomos abordados por um homem encapuzado que anunciou um assalto. Queria tudo o que tínhamos no momento. Minha mãe disse que entregaria a grana, porém não achei isso certo. Tanto suor e tanto esforço seria levado embora. Não poderia deixar que fizessem essa maldade com a minha mãe.

Pulei em direção do ladrão e gritei para mãezinha correr, mas ela não me escutou. O bandido me deu um soco e caí no chão. Dessa vez, minha mãe quem o atacou, mas antes de alcançá-lo, escutei dois tiros. Tiros no escuro. Um grito de dor e um último suspiro. O ladrão pegou o dinheiro e fugiu.

Na minha frente estava a única pessoa que eu amava nessa vida, porém estava morta. Ajoelhado ao seu lado, a envolvi em meus braços. Tudo aquilo foi minha culpa. Minha grande culpa. Levantei-me e corri para longe, para aonde meus pés e minha força pudessem me levar. Como um covarde, a deixei ali, sozinha.

Quando voltei a si, estava em um beco escuro. O mesmo de manhã? Não sei. Só sei que sem forças, deitei ali mesmo. Adormeci… Acordei.

Não estava mais em um beco, mas na minha casa. Estava tão claro. Uma porta se abriu e por aquela entrada apareceu minha mãe, ao lado do meu pai. Ela me abraçou fortemente. Nunca havia sentido tanto carinho em abraço como aquele. Nem mesmo no dia anterior. Era mais quente e muito mais confortável. Saí com eles para rua e tudo estava tão calmo. As pessoas pareciam gostar de mim.

Cumprimentavam-me, sorriam para mim. Não me jogavam olhares repugnantes como antes. Eu estava feliz. Muito feliz. Parecia um sonho.

E era um sonho.

Mas era tão bom… Minha família reunida novamente de um jeito que eu sempre quis. Aquela era a vida que eu desejava.

Queria ficar nesse sonho.

Queria presenciar esse sonho.

Queria viver esse sonho.

Queria estar acordado para sonhá-lo.

Não posso acordar. Não quero acordar. Não, eu não vou acordar. Quero que isso dure para sempre.