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Contos Minilua: Você entraria em uma floresta escura comigo? #199

E lembrando, mais uma vez, que todos podem participar! O e-mail de contato: equipe@minilua.com! A todos, uma excelente leitura!

Você entraria em uma floresta escura comigo?

Por: Layuni Rocha

Essa foi a pergunta que uma das minhas melhores amigas me fez para testar nossa amizade. Eu, que nunca fui muito fã dessas perguntas bobas típicas de um teste da Capricho, apenas revirei os olhos e ignorei. Mas a própria se prestou a responder: “Eu sei que você entraria”. E isso me deixou pensando por dias, roubando o meu pensamento uma vez ou outra. Eu entraria mesmo?

Ao contrário da infância/adolescência de muitas pessoas, a minha não foi recheada de desventuras amorosas e sim de desventuras “amistosas”. Eu poderia escrever um livro inteiro apenas sobre o meu nó de relações e amizades, mas resumindo as coisas, passei apenas por dois “grupinhos” em toda minha vida escolar. No primeiro deles eu entrei quando eu tinha 8 anos para sair definitivamente só com 11. No começo eles não eram exatamente bons amigos. Na verdade, eu era como a empregada dos populares, exatamente como naqueles filmes americanos que todo mundo já viu na Sessão da Tarde.

Mas na minha escola tudo é como um show business. Aja da maneira certa, seja amigo das pessoas certas, fale as coisas certas, tenha paciência e pá pum, você tá dentro. Depois de um longo e doloroso aprendizado (incluindo bullying) e começando a fazerem me levar a sério, aos meus 10 anos consegui ingressar naquela pequena elite. A esse ponto eu era o outro lado da moeda: tinha o meu próprio staff, meus próprios aprendizes na mesma longa jornada que eu. Se eu era amiga de alguém naquele grupo? Pode-se dizer que sim. É o que dizem: uma mentira sobre uma mentira gera uma verdade. Mas isso fica para depois…

Depois dos meus 15 minutos de fama, de repente simplesmente parei. Simples assim. Naquela horda de populares, eu tinha apenas uma menina que eu poderia chamar de “melhor amiga”: T (decidi colocar só iniciais). Ela era a pessoa mais arrogante e pretensiosa que eu tinha visto em toda minha vida.

Tinha feito bullying comigo, mas eu não liguei e quando consegui inverter as coisas, a transformei na minha “camarada” como uma espécie de vingança especial. No fim das contas acabamos juntas e sozinhas e estávamos bem assim. Apesar de ser só um título, eu tinha começado a gostar da minha “melhor amiga” T. Mesmo com todas suas características irritantes, eu consegui ensinar pra garota (filha de rico como boa parte daquele pessoal) um pouco de noção da vida, até que ela virou alguém decente.

A vida era cor de rosa para mim, tranquila. Até que uma antiga melhor amiga minha chegou, vou chamá-la de AB. Se eu fosse contar toda a nossa história, daria mais um livro, então resumindo mais de novo: eu era uma mimada e fiz bobagem com ela. Mesmo assim lá estava AB, como um passarinho assustado. Eu sempre tinha gostado muito dela e me arrependia da babaquice dos anos anteriores, então tentei equilibrar a minha atenção entre AB e T, mas isso só resultou em brigas, nas minhas tentativas idiotas de me redimir e dar um pouco de paz ao trio.

Ah, como eu me arrependi… Acabei chutada para fora, como se fosse entupida na boca de uma garrafa. T e AB eram melhores amigas e eu… Eu era só aquela que ficava quieta, no meu comodismo de sempre, tentando evitar brigas desnecessárias.
O tempo passou e o grupo cresceu. De três, fomos para cinco. Houveram brigas e mais brigas e eu sempre estava no meio, sem dizer nada, apenas me ajustando à situação. Comodismo, comodismo…

Consegui ficar anos nisso: eu não construía amizades, eu construía soluções, uma ponte debaixo dos meus pés. Eu era amiga de quem precisava ser e me conformava com as cartas dispostas sobre a mesa. Era tudo uma questão de necessidade, de sobrevivência ao ensino médio. Se eu já havia reparado no quanto isso era superficial? Claro que já. Mas sempre rebatia mentalmente: “Pare de bobagem, a sua amizade é verdadeira”. Lembram do que eu disse antes? Uma mentira sobre uma mentira gera uma verdade.

Apenas parei realmente para pensar nesse texto inteiro quando estava nos meus últimos dias do 3º ano, naquela época onde todo mundo fica poético e sentimental pelo fim dos anos dourados. Eu sentava bem no canto da sala, com vista para todo mundo. Me desliguei um pouco do professor e olhei para o rosto de cada uma daquelas pessoas. E então percebi. Eu percebi e admiti o quanto a minha vida tinha sido medíocre e superficial. Haviam tantas pessoas da qual eu gostaria de ter sido amiga ali… Pessoas com as quais eu estudava desde o maternal. Até os meus antigos praticantes de bullying me traziam nostalgia. Ah, o comodismo…

Acho que está na hora de voltar à primeira frase desse texto. Quem fez aquela pergunta foi T, no último dia de aula antes da formatura. Depois de pensar um pouco, olhei para as minhas quatro melhores amigas e senti meu peito apertar. Deus, como eu havia sido uma cretina, para não falar pior… Eu sempre havia sido egoísta, pensando em mim mesma. E elas estavam ali o tempo todo, sendo minhas amigas. Era muito mais do que eu merecia. Enquanto eu resumia nossa relação em comodismo, elas falavam em amizade.

Naqueles poucos segundos, fiz a pergunta para mim mesma: Você entraria em uma floresta escura com elas?
– Você iria, não é? – T perguntou de brincadeira, com um ar de ameaça
Eu apenas sorri e disse:
– É claro! Você ainda duvida?

***

Não sei o que minhas amigas teriam a falar sobre mim em um desses textos nostálgicos e sentimentais sobre amizade, mas essa é como uma carta de perdão. Para todo mundo que eu deixei de conhecer ou não tratei como deveria na escola. Para todas as oportunidades que eu perdi.
Era para as coisas terminarem nesse parágrafo, mas hoje foi o meu primeiro dia no curso de Cinema na UFRJ.

O que isso tem a ver? Quando entrei na sala, lá estava um grupinho de gente cult, rindo alto e fazendo piadinhas. Por um segundo uma imagem passou pela minha cabeça. Eu, no 3º ano do fundamental, conhecendo o grupinho de populares daquela minha antiga escola. Que baita déja vu…

Um deles olhou para mim e começou uma daquelas apresentações engraçadinhas. Eu podia apostar que era o palhaço de todos aqueles longos quatro anos. E eu também, naquele exato momento, poderia ter dado um sorrisinho e ficar na minha. Afinal, eu tinha experiência suficiente para saber como aquilo ia terminar. Mas, ao invés disso, ri e me aproximei.

Mas isso fica para uma outra carta de perdão, dessa vez daqui a 4 anos.