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“Deus seja louvado” em nossas cédulas, precisa mesmo?

Obviamente você já deve ter pego uma nota de Real na mão e a observado detalhadamente. Assim, notando a presença de várias marcas curiosas, algumas escritas e uma delas seria a seguinte frase, existente no canto inferior esquerdo: “Deus seja louvado”. Ok, mas pelo que consta na constituição, o Brasil seria um Estado laico, certo? Então porque louvar à Deus em assuntos que envolvem economia e política?

Estado laico é um país com uma posição neutra no que diz respeito a assuntos religiosos. Ou seja, não dá apoio e nem faz discriminação de nenhuma religião, dando liberdade religiosa à todos os cidadãos e não autorizando que qualquer tipo de corrente religiosa interfira em questões sociopolíticas e culturais. Na teoria funciona bem, porém na prática não é bem assim.

Em 1986, quando o Brasil adotou o Cruzado no governo de José Sarney – o então presidente, católico praticante – existiam 120 milhões de habitantes no país, sendo que 89% eram católicos, 6,6% evangélicos, 3,1% tinham outras crenças e apenas 1,6% não possuíam religião. Baseado nisso, Sarney ordenou ao Banco Central a inclusão da frase “Deus seja louvado” nas cédulas, fundamentado em alguns modelos econômicos mundiais, assim como os EUA que tinham, em seus dólares, a frase “In God We trust”, que significa “Em Deus nós confiamos”.

Não obstante, as pessoas começaram a notar que a frase presente na cédula expressava interferência religiosa direta à assuntos políticos da nação, o que, obviamente, feriria a laicidade do Estado presente na constituição. Ademais, as estatísticas quanto ao número de religiosos no país mudaram. O número de católicos caiu para 64,6%, os evangélicos se multiplicaram para 22%, outras crenças 5% e pessoas sem religião estavam em 8%, tudo isso segundo o censo de 2010 do IBGE.

Isso realmente tem interferência?

Houve uma tentativa da retirada da frase desde o ano de 2010 – período de impressão das novas cédulas da moeda -, movida pelo Ministério Público, com o procurador católico Jefferson Aparecido Dias, para que o país conseguisse cumprir com a legislação e considerasse todas as crenças existentes no país, sem separar e cingir a liberdade quanto a religião. Porém, dois anos mais tarde o pedido foi negado pela Justiça Federal, com o argumento, vindo da juíza Diana Brunstein, de que uma simples frase não interferiria no Estado laico, pois a citação não induzia nenhum indivíduo a escolher qualquer religião com base no dinheiro.

De acordo com as informações da Folha Online, Sarney, presidente do Senado, pronunciou-se da seguinte maneira: “Precisamos cada vez mais ter a consciência da nossa gratidão a Deus por tudo o que ele fez por todos nós, humanos, e pela criação do universo. De maneira que não podemos jamais perder o lado espiritual (…)”. Também descreve o Pedido do Ministério Público como “falta do que fazer”, e finalizou com a frase: “Eu tenho pena do homem que na face da Terra não acredita em Deus”, mais uma vez, ignorando quaisquer outras crenças existentes.

Hoje em dia, em meio a tanta confusão política e à uma enorme e crescente interferência religiosa nesses assuntos, a discussão foi deixada em segundo plano.

Mas será mesmo necessária essa “batalha” religiosa para evitar que a frase seja retirada? Se você crê em Deus, você acha digna a impressão de seu nome em algo tão sujo como o dinheiro, pelo qual muitos perdem a vida, o mesmo que os deputados enfiam em suas cuecas, que as pessoas usam para pagar por bebidas, prostitutas e toda a gama de coisas ilegais? O que você acha disso tudo?