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A maldição africana

O caso “Marco Feliciano” tem ganhado grande destaque na mídia ultimamente. Caso você esteja por fora, Marco Feliciano é um pastor da igreja Assembleia de Deus que com os votos de seu “público” elegeu-se “deputado federal”. Até aí, sem surpresas, o problema é que o pastor, conhecido por expor publicamente pensamentos preconceituosos e alvo de dois processos no STF por homofobia e estelionato, foi eleito presidente da CDH (“Comissão de Direitos Humanos e Minorias”). Irônico não?

 

A maldição

Dentre as declarações mais polêmicas de Marco Feliciano, está essa abaixo:

O pastor refere-se ao personagem bíblico Cam, filho de Noé mencionado no livro de Gênesis, que foi salvo do dilúvio junto com seus irmãos Sem e Jafé, na famosa “Arca de Noé”.

Conta a Bíblia que, após o dilúvio, Noé, que entre outras coisas era vinicultor, plantou uvas, fazendo vinho de sua colheita. Noé então embriagou-se e acabou adormecendo em sua cabana.

Cam, seu filho, teria se deparado com seu pai embriagado e desacordado, tendo ele visto a nudez de seu pai. Em vez de guardar o pudor e cobrir seu pai, Cam foi contar o sucedido aos seus irmãos. Quando Noé acordou, amaldiçoou o filho de Cam, Canaã, referindo-se a ele como o “escravo dos escravos”.

De acordo com a Bíblia, Cam foi um dos filhos de Noé que se mudou para o sudeste da África e partes das proximidades do Oriente Médio, e foi o antepassado das nações daquelas localidades.

Muitos, incluindo Feliciano, interpretam esta como a primeira passagem “homossexual” da Bíblia, apesar da mesma não dizer exatamente isso, veja abaixo o que especificamente o Gênesis 7:21 diz:

 

A maldição de Cam e a escravidão

Esta passagem, da maldição de Cam, foi muito usada ao longo da história por alguns membros de religiões abraâmicas (judeus e cristãos) para justificar o racismo e a escravidão de negros africanos, os quais acreditavam ser descendentes de Cam. Defensores da escravidão nos Estados Unidos invocaram consistentemente este relato da Bíblia ao longo do século 19 em resposta ao crescimento do movimento abolicionista.

Já no Brasil, a maldição de Cam serviu de justificativa para escravizar os índios, tendo o missionário da Ordem de São Pedro, João de Sousa Ferreira afirmado “Não há lei divina nem humana que proíba a possessão de escravos” e continuou “(e os índios brasileiros) são da descendência da maldição de Cam”. Os portugueses igualmente consideravam os negros descendentes de Cam. A cor era o sinal da maldição e justificava a escravidão.

 

O que você pensa sobre isso?

Em resumo, Feliciano acredita que a África tem sido atingida por males, como a pobreza e doenças, porque Cam teve uma “relação homossexual” com seu pai, que estava embriagado pelo vinho.

Mas e você leitor, concorda com isso, um continente inteiro pode pagar pelo erro de alguém no passado? Crianças africanas que ainda hoje morrem de fome, séculos de escravidão, torturas, injustiças, tudo se justifica por que é um povo descendente de alguém que foi amaldiçoado?

Aliás, seguindo a mesma lógica de uma herança bendita ou maldita, se os judeus eram o “povo escolhido por Deus”, aos quais o próprio ajudou em batalhas, na fuga do Egito, etc, como foi permitido que cerca de 6 milhões de judeus fossem cruelmente exterminados durante a segunda guerra mundial?

Nota: Perceba que não são afirmações e sim perguntas, queremos saber a sua opinião sobre este assunto polêmico e não “ofender” a crença de qualquer pessoa. Comente com sensatez! 😉

Nota 2: A petição que pede a destituição de Marco Feliciano já está com mais de 380 mil assinaturas, porém precisa chegar aos 500 mil, se você ainda não assinou, clique aqui para assinar. Se você discorda desta petição, por favor assista com atenção o vídeo abaixo:

Nota 3 (atualização): Somente para deixar claro, o texto reflete sobre a interpretação de Pr. Marco Feliciano. Mas as igrejas cristãs em geral não apoiam esta ideia, tanto que o “Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil” (Conic) também pediu o afastamento do deputado na presidência da CDH. Também foi publicado um manifesto apoiado por um extensa lista de pastores para esclarecer que esta opinião de Feliciano não reflete e muito menos representa a crença evangélica. Você pode lê-lo clicando aqui.