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Monte a sua matéria: O endeusamento dos músicos #98

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O endeusamento dos músicos

Por: Ricardo Alves

Não é de hoje que músicos são venerados e endeusados por parte de seus fãs e por parte das mídias. Mas será que eles realmente merecem todos esses holofotes constantemente virados pra si? Será que não estamos dando crédito demais a quem não merece tanto?

Estamos vivenciando um período musical no Brasil onde não existe mais uma pressão por qualidade musical tão grande. Todos os dias saem safras de duplas ou solos de sertanejos universitários, funkeiros com letras engraçadinhas e passinhos desconjuntastes. Ou funkeiras com danças sensuais e micro roupas que deixam os homens loucos. Rockeiros coloridos usando roupas infantis, e letras e instrumentais mais ainda, entre outros.

Em termos de exigência musical quase nula, o sertanejo universitário está disparado. E explico por que (na minha humilde opinião, é claro). Este estilo musical, que parece ter sido renovado com uma manada de novos artistas se mostra cada vez mais repetitivo, ultrapassado, descartável e temporal.
Andei ouvindo algumas das músicas mais conhecidas e percebi que existe uma tendência temporal em relação aos temas. Funciona da seguinte forma:

Um músico lança um single com o tema de carro, por exemplo. Caso esse tema faça sucesso, outros artistas vão se utilizar desse mesmo tema e escrever as suas versões. Ou seja, são as mesmas músicas, porém vendidas em embalagens diferentes.

Outro fato interessante (que já é do conhecimento de todos) são os refrões usados pelos sertanejos universitários. Os de maiores sucessos são refrões monossilábicos, onomatopaicos ou palavras inexistentes, criadas apenas com o propósito de rimarem com outras palavras. Exemplos:

“Aí se eu te pego, aí aí se eu te pego…”
“Bara bara barra, berê berê berê…”
“Tchu tchá tchá, tchu tchá tchá, tchu tchu tchá…”
“180, 180. 360 (mas hein?)”
“te colocar no colo e fazer o tchá tchá tchã”

O que mais me deixa profundamente desacreditado na música brasileira, não é o fato de músicas de tão fáceis, digo até débeis, composição ser escritas e cantas. Até por que, músicas desse tipo sempre existiram e sempre existirão. O fato mais preocupante é de que, artistas com músicas tão fúteis e “infantis” serem colocadas num pedestal como exemplos de profissionais.

E pior, serem endeusados pelos fãs e pela mídia por fazerem músicas que qualquer compositor meio-boca faria. Esses artistas tornam-se quase que intocáveis pelo simples fato de cantarem: “Aí se eu te pego.”. Isso é realmente motivo para uma pessoa virar um monumento colossal de admiração?

Obviamente que nem toda música tem que ter um conteúdo crítico ou ter algum conteúdo inteligente. Mas, a partir do momento que um artista começa a faturar milhões e milhões com letras fúteis e ridículas, e instrumentais tão primários, tem alguma coisa muito errada.

Em um comentário de um site de letras musicais, percebi uma coisa que não tinha percebido até então em uma das músicas mais cantadas dos últimos 2 anos. No mundo inteiro, inclusive. A música “Aí se eu te pego”. Percebam:

A música começa com:
“Nossa, nossa
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”

Logo depois:
“Delícia, delícia
Assim você me mata
Ai se eu te pego, ai ai se eu te pego”

Parecem estrofes diferentes, porém uma é a repetição da outra. Elas só se diferem no primeiro verso da estrofe. E a música segue assim durante torturantes 2 minutos e 46 segundos. As duas primeiras estrofes são repetidas 3 vezes (6 estrofes), e apenas duas vezes na música aparece a estrofe:

“Sábado na balada
A galera começou a dançar
E passou a menina mais linda
Tomei coragem e comecei a falar”

Analisando essa música, eu percebo que alguma coisa vai muito mal com nossos ouvidos e cérebro. Eles se acostumaram a ouvir (e gostar) de qualquer música que tenha um sistema de repetição maçante ou glossolalia musical. Fãs se aglomeram e cotovelam aos pés de hotéis de músicos. Choram, juram amor eterno e dizem fazerem qualquer loucura pelos seus ídolos. Dizem que suas vidas se resumem a existência de tais artistas. Artistas esses que embolsam milhões por show, em ingressos com preços assustadoramente altos e que mal se dão ao trabalho de se aproximar de seus fãs, se não em frente às câmeras.

Artistas esses que jamais aceitariam fazer shows com venda de seus ingressos a 20 reais. Que fazem shows de “graça” apenas por intermédio de grandes festivais televisionados (de graça, entre aspas, pois os fãs não pagarão pelas entradas, mas ganharão um cachê bastante gordo pelo show). Concordo que muitos deles deram duro pra chegar ao lugar onde estão. E que já devem ter pego cachês bem baixos no começo de carreira.

Porém, se continuam fazendo músicas com conteúdos tão desprovidos de criatividade e letras, então não merecem continuar onde estão.O novo queridinho da mídia é o “inovador” Naldo. Um músico que resume suas letras a cantar sobre suas aptidões sexuais, colocar auto tunes em determinada parte da música e contar até quatro. Separe um tempo (não vale a pena) para ver as letras músicas desse funkeiro tão inovador.

Garanto-lhe que, pelo menos, 80% de seus temas musicais será sexo. Inovação? Parece que para os fãs sim.É difícil entender por que as pessoas endeusam tanto artistas cujas músicas podem ser escritas por qualquer um. Já ouvi pessoas dizendo que veneram esses artistas pelo fato de fazer sons que lhe agradam os ouvidos. Tudo bem, eu até concordo com isso. Mas eu não vejo ninguém venerando um padeiro por fazer um pão que lhe agrada o paladar. Ou aglomerações aos pés de residências de engenheiros cujas obras lhes agradam os olhos.

O que esses artistas, de músicas tão simplistas fazem de tão importante para estarem, por exemplo, na lista “O Maior Brasileiro de Todos os Tempos”? O que esses artistas fazem que lhes sejam outorgados ganhar milhões em apenas uma noite, enquanto pessoas muito mais merecedoras ganham apenas um salário mínimo por mês?

Que merecimento esses artistas, de músicas tão ridículas têm de serem tratados como deuses, que de tão “importantes”, chegam a serem intocáveis? Intocáveis, inclusive, para aqueles que são a maior e principal fonte de seu sustento.Concordo que admirar um artista é completamente normal. Mas endeusa-los é o cúmulo do ridículo. Acho que a música brasileira não vai muito bem das pernas e muito menos das palavras, mas essa é só a minha opinião. Qual é a sua?