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Monte a sua matéria: O apocalipse de Nandy #20

Bom, galera, antes de tudo, gostaria de agradecer o carinho e a participação de vocês. Espero de antemão, que todos estejam gostando da seção, e mais do que isso, se divertindo ou aprendendo com cada post. Mensagem dada, vamos ao artigo desta semana. Escrito por Leonardo Martins, ele fala sobre a nossa querida e ilustre moderadora. Uma boa leitura!

                                                                   O apocalipse de Nandy

Por: Leonardo Martins

A história do Apocalipse de Fernanda Martins começou em uma manhã de outono quando ela aguardava ansiosamente a chegada do iPhone 4S que ela havia comprado pela Internet.

Mal sabia a humanidade que o Fim do Mundo começaria quando o correio chegasse. Se a encomenda tivesse demorado para chegar, talvez a sociedade tivesse tido mais tempo para poder ser avisada. Infelizmente, isso não aconteceu.

Às dez da manhã, na terça-feira, o correio chegou. Fernanda, conhecida pelo apelido Nandy, saiu de sua casa. Deu vinte passos, abriu a caixa de correio, pegou a encomenda, fechou a caixa de correio, deu mais vinte passos e fechou a porta.

Quando abriu a caixa, estava tão animada que poderia ter publicado, naquele dia, vinte postagens com imagens que fariam os visitantes do Minilua vomitar tantos arco-íris que suas mortes seriam denominadas como “Vômito excessivo de arco-íris. Seu rosto mudou rapidamente de expressão quando, no lugar de um iPhone 4S, havia recebido uma pedra.

A menos que aquilo fosse outro dos produtos “revolucionários” da Apple, sendo batizada de iStone, um mês de espera e US$ 499,00 caíram sobre os ombros de Nandy e ela jogou a caixa e a pedra no lixo. Mal sabia ela que aquilo não era uma pedra.

No momento em que o interior da lata de lixo tornou-se escura quando a tampa fora colocada de volta no lugar, uma luz vermelha piscou repetidas vezes no canto inferior direito da pedra. À 3.745.890 km de distância, no espaço, no meio do caminho entre a Terra e a incandescente e fonte de vida que nós, simples terráqueos, chamamos de Sol, uma nave alienígena recebeu um sinal.

Três segundos depois, Nandy pôde vislumbrar um feixe de luz azul projetar-se no meio de sua cozinha e, após uma série de processos de “rematerialização”, envolvendo milhões de partículas, um corpo foi projetado bem ali, no meio da cozinha, onde, quatro segundos antes, Fernanda derrubara um copo enquanto pegava suco de laranja.

Se aprendemos alguma coisa com os centenas de filmes e livros sobre encontros entre homens e alienígenas, é que, na maioria dos casos, o alienígena é mau e quer exterminar toda a raça humana.

Felizmente, aquele corpo projetado no meio de uma cozinha onde não caberiam mais de quinze pessoas carregava uma mente que passou 3.456.678.345 anos pensando em uma maneira de abrir um recipiente de “acronifonito”.

Um material tão resistente, mas tão resistente, que nem mesmo a supernova originada da morte da estrela Acto9-054, considerada a mais destrutiva de toda história dos arquivos Zumblker, poderia, sequer, causar uma rachadura. 87% do corpo do alienígena era revestido de “acronifonito”, incluindo seu cérebro, seu olho esquerdo e seu intestino.

Nandy esfregou os olhos. Olhou novamente para o alienígena. Esfregou-os de novo. Mais uma vez olhou para o alienígena. E, quando já havia esfregado pela terceira vez, o alienígena abriu a boca e de lá saiu uma voz que, se não fosse controlada por modeladores de voz electronátilos, teria feito os ouvidos de qualquer um sangrarem e os tímpanos e os nervos auditivos pegarem fogo e derreterem.

– Eu não sou uma ilusão.

Fernanda abriu a boca, mas nenhum som saiu. Seu cérebro tentava processar a informação. Certa vez um matemático alicroniano calculou que o cérebro de 26% das espécies da borda “cakinolini” do universo processava informações 1,5 vezes mais rápido que um “grenotilionino” demorava para andar meio quilômetro, sendo que 16 cekm (16 “cérequilômetros”) é a distância que cada neurônio tem de passar até conseguir obter uma resposta do cérebro. 1 cekm = 0,892323455322333245454 km.

Os grenotilioninos andam a uma velocidade de 37 m/h. A raça humana estava entre essas espécies. Quando Nandy abriu a boca, a primeira frase que disse se tornaria para sempre a primeira coisa que um ser humano disse ao ver e encontrar um alienígena:

– Q-q-quem é v-v-você?

Se o alienígena tivesse respondido aquela pergunta da maneira mais completa possível, ele teria contado toda a sua história de vida. E isso demoraria 127 anos lacitrômitos, e 1 ano lacitrônito = 36,5 anos terrestres.

E, como a expectativa de vida de um homem comum não é tão grande assim, o primeiro alienígena à fazer contato direto com um ser humano respondeu:

– Me chamo Zeniton.

Se ver o alienígena aparecer na sua frente fez com que o cérebro de Fernanda demorasse dez segundos tentando compreender a situação, antes que ele demorasse mais dez segundos tentando memorizar o nome do extraterrestre, Zeniton caminhou para fora de casa, à passos largos, mas não sem antes olhar para seu pulso, onde havia algo parecido com um relógio, embora não fosse propriamente um relógio.

O que procurava há tantos milhares de anos lacitrônitos encontrava-se na lata de lixo. Abriu-a, pegou a pedra que Nandy jogara, indignada por receber um objeto alienígena disfarçado de pedra no lugar de um iPhone, e olhou severamente para Fernanda.

– Por que você jogou isso fora?

Agora a mente de Nandy se acostumara mais com a situação e voltou a pensar direito. Seus braços e pernas puderam voltar a se movimentarem sem que parecessem estar sendo segurados pelo horizonte de eventos de um buraco negro, transformando-os em um milhão de átomos até serem sugados e desmaterializados.

Porém, Fernanda encarou aquilo como se fosse uma pergunta retórica e, antes que Zeniton tivesse tempo de dizer “não responda”, ela pegou a faca mais próxima, e foi logo se aproximando. Em sua mente, a decisão sobre matar ou não o extraterrestre.

Sem saber como agir, sua decidira o que dizer:

– Por que você está aqui?! – berrou tão alto que o vizinho acordou de seu sono e xingou-a ao abrir a janela e ver que estava atrasado para o trabalho, só que se acalmou ao lembrar-se de que estava desempregado.

O cérebro de Zeniton processava informações mais rápido do que qualquer outro cérebro humano. Seus neurônios mandavam informações e recebiam respostas à 45 cekm/h, enquanto o cérebro de um ser humano normal chegava até 23 cekm/h.

– É uma longa história. Aposto que você não gostaria que seus vizinhos vissem alguém como eu, não é?

Na verdade, a rua onde Nandy estacionava seu carro todas as manhãs já tinha visto coisas que deveriam ter ficado na primeira página de todos os jornais e revistas da cidade, mas que preferiram colocar como principal notícia o nascimento de mais um filho de alguma celebridade ou mais algum casamento de quinze minutos terminado em divórcio de algum casal famoso, também valendo a prisão de algum atriz ou ator por consumo excessivo de bebida alcoólica e/ou drogas.

Certa vez, um raio fez um cachorro de cinquenta tentáculos, e nenhuma pata, descer dos céus, entrar na casa de um dos moradores do bairro e sair de lá na forma de um gigantesco gorila de cinco olhos que desapareceu novamente por outro raio. Isto, porém, era assunto para outra hora.

Zeniton entrou novamente na casa e sentou-se no sofá da sala. Um sofá verde e gasto. Começou a contar, em poucas palavras, uma história que demoraria 127 anos para ser contada.

– Compreendendo os limites da mente humana e a sua atual incapacidade de compreender a complexa linha de eventos presentes no universo e os intermináveis cálculos que tentam tornar a compreensão desses eventos mais simples, sendo que nem a Grande Enciclopédia de Tharkglaaknaak conseguiu explicar até hoje, levando seu próprio autor à loucura quando este entrou em uma crise de identidade, eu tentarei resumir a história. Tudo começou quando há trinta bilhões de anos a divindade Kholuknaam decidiu criar o multiverso.

Cada universo foi criado para residir dentro de uma estrutura metálica circula gigantesca, similar à um CD, e todas orbitando o lar de Kholuknaam. O seu universo é considerado o Universo-1, por ser o universo que orbita mais próximo do lar de Kholuknaam.

Após a formação dos primeiros planetas e sistemas estelares e solares, a primeira das raças surgiu. Tratava-se de uma série de triângulos brilhantes multicoloridos chamados de Khaffernolks, capazes de calcular até mesmo quanta energia seria necessária para clonar o universo, mas incapazes de abrir uma porta.

Tomando conhecimento de suas limitações devido à falta de braços e pernas, os Khaffernolks escravizaram o povo dos Therominksis, habitantes da lua do planeta natal dos Khaffernolks, Trunimak. Os Khaffernolks usaram seus poderes para transformar os Therominksis em zumbis e retiraram deles seus cérebros, substituindo-os por aparelhos eletrônicos ligados às mentes dos Khaffernolks. Após terem construído e povoado milhares de planetas tanto artificiais como não artificiais, os Khaffernolks entraram em guerra civil após não conseguirem chegar à uma conclusão se deveriam ou não matar Kholuknaam e tomar-lhe o lugar.

Os Khaffernolks vermelhos, azuis e verdes – que não queriam matar Kholuknaam uniram-se contra os Khaffernolks amarelos, laranjas e marrons – que queriam matar Kholuknaam.

Quando a guerra já havia consumido e destruído quase uma galáxia inteira, os Khaffernolks azuis decidiram pôr fim à tudo aquilo e detonaram Trunimak, matando todas as outros tipos de Khaffernolks- exceto os amarelos, que sobreviveram. Os Khaffernols amarelos decidiram vingar-se e conseguiram prender os Khaffernolks azuis em uma outra dimensão e decidiram parar o fluxo do tempo, tentando mudar o passado.

Mas o problema é que o passado não pode ser alterado e, tomando o conhecimento de que o Universo-1 terminaria no Big Crunch, eles fizeram o tempo fluir para o futuro para alterar a linha do tempo da nova versão do Universo-1 que se formaria quando ocorresse o “Big Crunch”.

Nandy começou a sentir uma leve dor de cabeça.

– Mas os Khaffernolks azuis descobriram os planos dos Khaffernolks amarelos e decidiram construir uma última arma. Eles manipularam, também, o fluxo do tempo, e pegaram todo o conhecimento do universo e colocaram-no em um aparelho eletrônico indestrutível: uma xícara de café.

Quem tomasse o café produzido no interior da xícara iria adquirir todo o conhecimento necessário e poderes suficientes para vencer qualquer guerra. Quando os Khaffernolks amarelos ficaram sabendo disso, abriram uma brecha na linha que separava a dimensão dos Khaffernolks azuis do Universo-1.

Os Khaffernols azuis colocaram uma senha de acesso na xícara de café, e só quem soubesse a senha poderia ver a xícara produzindo, em seu interior, o café. Os Khaffernolks azuis fugiram de sua dimensão através da brecha criada pelos Khaffernolks amarelos e ambas as raças voltaram a entrar em guerra.

Enquanto os Khaffernolks amarelos criaram um robô – nesse caso, eu – para descobrir qual era a senha da xícara de café, os Khaffernolks azuis fizeram o tempo voltar a fluir. Um grupo de rebeldes dos Khaffernolks amarelos decide pôr fim à guerra de uma vez por todas e prenderam tanto os Khaffernolks amarelos como os azuis dentro de um campo que fez o tempo parar de fluir em seu interior e transformou todos os que ali se encontravam em estátuas. O grupo de rebeldes foi pegar a xícara de café quando foram atacados pelas tropas do Império Kranifornik…

A dor de cabeça de Fernanda aumentou.

– E, por fim, uma nova guerra começou. Enquanto eu tentava descobrir qual era a senha da xícara de café, os rebeldes Khaffernolks fugiram das forças dos Kraniforniks, que estavam dominando a galáxia, para construir um planeta artificial.

E para que um planeta artificial? Para que nesse planeta vivesse a única pessoa do Universo que tem gravado na memória a senha para desbloquear o acesso da xícara de café. Quem é essa pessoa?

Um robô orgânico criado pelos Khaffernolks azuis para que fosse o único, a saber, a senha, sendo que nem os próprios Khaffernolks azuis sabiam qual era a senha, pois não foram eles que a fizeram, e sim o robô orgânico.

O grupo de rebeldes Khaffernolks modificou o núcleo do planeta para que ele criasse vida e paisagens agradáveis para conviver com o robô orgânico capturado e o único ser do universo  a saber a senha. Quem é esse robô orgânico? É você Nandy.

Fernanda sentiu como se sua cabeça tivesse sido arrancada, desmaterializada, rematerializada e colocada de volta no lugar.

– Você foi quem criou a senha que impede que alguém use a xícara de café que retém todo o conhecimento do Universo, bem como é a única pessoa à saber a senha. Você foi construída pelos Khaffernolks azuis há bilhões de anos e foi capturada pelos Khaffernolks amarelos rebeldes e trazida até esse planeta.

Durante bilhões de anos você permaneceu dormindo enquanto eles tentavam invadir o seu subconsciente para ter acesso à senha.

Quando decidiram trocar de método, despertaram-na e forçaram o núcleo do planeta a construir formas de vida e todas as paisagens que você já viu, apenas para que, um dia, você se lembrasse de qual é a senha e dissesse para uma das formas de vida.

O planeta permaneceu camuflado e protegido por um escudo até que eu descobri uma maneira de violá-lo e resgatá-la para que você me trouxesse a senha que eu estou tentando descobrir a bilhões de anos.

A pedra que você jogou no lixo é um sensor que eu construí para que fosse enviado até o planeta e chegasse até você, para que eu descobrisse onde você mora.

Tudo o que eu preciso fazer é levá-la para a minha nave antes que o núcleo do planeta mande formas de vida para me matar e apagar da sua memória tudo o que eu lhe disse…

Um grande estrondo veio do jardim da casa.

Continua….