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Por trás da música: Além do Céu Cinzento #18

Na tarde de uma bela quarta-feira, em Porto Alegre, o locutor Márcio Paz apresenta seu programa de rádio diário chamado “Na Paz”, na rádio Atlântida FM, um dia como qualquer outro, mal sabia este locutor que havia alguém há caminho, alguém que iria fazer com aquele dia fosse lembrado para o resto de sua vida.

Era 18 de setembro de 2002, por volta das 15hs, um homem, de 27 anos, cabelos compridos, trajando uma roupa de borracha e com uma forte maquiagem preta sob os olhos, entra no prédio onde fica situado o estúdio da rádio. Ao chegar no estúdio ele agride alguns funcionários, saca uma arma e aponta para o locutor e funcionários presentes.

Com sua arma em punho, o homem exigiu que os funcionários deixassem o estúdio e enviassem à direção da rádio uma carta-manifesto, enquanto ficava a sós com o locutor, que a partir de então seria seu refém. Pouco depois, o vocalista entrou no ar, identificou-se como ‘Cram’ e disse que ‘não estava na paz’, brincando com o nome do programa.

Cram, ou Marcus Vinícius dos Santos, é o vocalista de uma banda chamada A.C.C. (sigla para Além do Céu Cinzento) e exigia que a estação, simplesmente, reproduzisse todo o CD da banda.

O CD, intitulado ‘Fases da Vida’, continha letras surreais, descrevendo um mundo futurista, situado após a 4ª Guerra Mundial. Segundo eles, a Terra, fragilizada no pós-guerra, teria sido invadida por extraterrestres do planeta RX-222, que impuseram um reinado de terror, usando os seres humanos como cobaias em experiências científicas. Mas um grupo de 10 mutantes teria conseguido se reunir para depor o imperador Oguh Rotciv no ano 5991, e o seu líder, Cram, teria se tornado o novo governador da Terra. Esse grupo de mutantes é o ACC.

Assim que a polícia foi avisada, o prédio da rádio foi evacuado e cercado por integrantes do BOE (Batalhão de Operações Especiais) e do GATE (Grupamento de Ações Tático Especiais da BM). Após reproduzir todo o CD e repetir ainda algumas das faixas, obrigando o locutor a ler o “manifesto” em que o cantor falava da “injustiça da mídia” e do “jabá nas rádios” entre uma faixa e outra, Cram finalmente se entregou a oficiais da Brigada Militar que negociavam sua rendição, por volta das 16h20.

Ao deixar o prédio, o locutor Márcio Paz, disse que estava apavorado e não tinha condições de falar. No entanto, chegou a dizer que conversou durante todo o tempo com Marcus e que falaram sobre dificuldades no mercado fonográfico. “Não é um marginal, mas sim um músico que tenta encontrar espaço há 10 anos”, justificou.

O pai do músico disse que o filho não tem nenhum vício e ficou muito surpreso com a atitude. “Não temos armas em casa e nunca tivemos”, garantiu. Antes de invadir a Rádio Atlântida FM, o músico esteve também em outras emissoras de rádio da capital, onde deixou o CD de sua banda.

Preso em flagrante, Marcus prestou depoimento, depois foi encaminhado ao Presídio Central onde passou a noite e foi transferido, em seguida, para o Instituto Psiquiátrico Forense. Após alguns dias, Marcus foi liberado, respondendo aos processos referentes ao caso em liberdade.

A ação foi semelhante a do filme “Os Cabeças de Vento”, de 1994, no qual integrantes de uma banda invadiram o estúdio de uma rádio nos EUA, obrigando o locutor a tocar o disco. O filme é com os atores Brendan Fraser e Steve Buscemi.

Algo curioso, é que as emissoras do grupo RBS (rádios, TV COM e a própria RBS) evitaram o tempo todo mencionar o nome da banda nos noticiários, para evitar contribuir com a popularidade da mesma. Entretanto, no mesmo dia, o jornalista Roberto Cabrini, que na época apresentava o “Brasil Urgente”, ao passar a notícia deu uma ênfase enorme à banda e ao CD, inclusive deixando tocar a música do grupo por um tempo dizendo “vamos ouvir… a música do grupo… (silêncio com a música tocando)”.

Enfim, vamos ouvir… a música do grupo…