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Por trás da música: A polêmica “E Por Que Não?” #11

Este é um dos casos, se não for “o caso”, mais recente de censura na música brasileira. “Se Sexo é o que Importa só o Rock é Sobre Amor!”, este foi o nome do álbum de estreia da banda “Bidê ou Balde”, deste CD é a música “Melissa”, cujo clipe rendeu à banda o prêmio de revelação no VMB 2001 da MTV brasileira.

Do mesmo CD vem a música “E por que não?”, a qual fez grande sucesso aqui no cenário do rock gaúcho. Alguns anos depois, em 2005, a MTV lançou o Acústico MTV: Bandas Gaúchas, um projeto que reuniu as bandas Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Ultramen e o cantor Wander Wildner (ex-líder dos Replicantes) em um único show, transmitido pela TV e lançado em CD e DVD em 2005. Foi um projeto inovador, pois juntou 4 artistas em um só acústico e, pela primeira vez, utilizou um tema pré-definido: o rock gaúcho.

Entretanto, a música “E por que não?”, que fez parte do acústico sofreu fortes penalidades por parte do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) e acabou sendo removida do acústico. O motivo? Bem, confira a letra da música:

 

E Porque Não?

Eu estou amando
A minha menina
E como eu adoro
Suas pernas fininhas
Eu estou cantando
Pra minha menina
Pra ver se eu convenço
Ela entrar na minha
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
Teu nome fui eu quem deu
Te conheço desde que nasceu
E por que não?

Eu estou adorando
Ver a minha menina
Com algumas colegas
Dela da escolinha
Eu estou apaixonado
Pela minha menina
Ouve o jeito que ela fala
Olha o jeito que ela caminha.
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
Teu nome fui eu quem deu
Te conheço desde que nasceu
E por que não?

 

Bem, se você tentou interpretar a letra acima certamente viu como uma grave apologia à pedofilia, correto? Foi a mesma conclusão a qual o TJ-RS chegou. Confira abaixo alguns trechos do acórdão:

É inegável que a letra da música “E por que não?”, da banda “Bidê ou Balde”, materializa apologia ao incesto e à pedofilia. O entendimento é da 7ª Câmara Cível do TJ/RS […] o Agravo de Instrumento foi interposto pelo Ministério Público que requereu a proibição da divulgação do CD “Acústico MTV Bandas Gaúchas” e a execução do CD “Se Sexo é o Que Importa, só o Rock é sobre Amor” e DVD, na faixa “E por que não?” […].

Como solução […] a Câmara impôs que os meios de comunicação e divulgação registrem, expressa e antecipadamente, toda vez que a composição for veiculada, que a mesma tem conteúdo que estimula e banaliza a violência sexual contra crianças, ao incesto e à pedofilia, assim reconhecida judicialmente. A mesma ressalva deverá constar na capa de novas produções que a contenham.

Em relação à comercialização do CD produzido no ano de 2000 (“Se Sexo é o que importa, só Rock é sobre Amor”), bem como do DVD da Banda Bidê ou Balde, que contenha a composição, impõe a multa de 10% de sua comercialização/faturamento […].

No que diz respeito ao CD “Acústico MTV Banda Gaúchas”, a multa fica estipulada em 20% sobre o faturamento da banda […].

Em shows onde estiver inserida a música deve ser recolhida a multa de 10% do total da arrecadação […].

Tenso, não?! Mas vamos procurar o outro lado da história, o que diz o grupo sobre o caso?

“[…] solicitações como essas provam que o pensamento, conseqüência da interpretação pessoal de cada ouvinte, é mais vil do que se costuma achar.”

Como assim? Confuso? Eu lhe explico. No Brasil costumamos lidar sempre com músicas erotizadas no topo das paradas, funks cariocas, “o jeito é dar uma fugidinha com você”, “foge mulher maravilha”, “quero ver mexer kuduro”, entre muitas outras “musiquinhas para fazer neném”, como diria o Miranda. Dessa forma, ao vermos a letra acima, logo assimilamos a alguma sacanagem.

Agora vamos fazer um exercício, esqueça que você já leu a letra e imagine que você possui uma filha pequena, a qual você se orgulha e ama muito, um puro e legítimo sentimento paterno. Leia a letra abaixo dedicando esta letra a ela (e no “ela entrar na minha”, entenda como conquistar o amor de sua filha, claro):

 

E Porque Não?

Eu estou amando
A minha menina
E como eu adoro
Suas pernas fininhas
Eu estou cantando
Pra minha menina
Pra ver se eu convenço
Ela entrar na minha
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
Teu nome fui eu quem deu
Te conheço desde que nasceu
E por que não?

Eu estou adorando
Ver a minha menina
Com algumas colegas
Dela da escolinha
Eu estou apaixonado
Pela minha menina
Ouve o jeito que ela fala
Olha o jeito que ela caminha.
E por que não?
Teu sangue é igual ao meu
Teu nome fui eu quem deu
Te conheço desde que nasceu
E por que não?

 

Se você seguiu a risca o exercício, percebeu que na verdade a letra trata do amor de um pai por sua filha, sem qualquer maldade ou malícia. Esta é a idéia da música, ela é interpretada de acordo com a tendência de sua mente, assim como uma pintura ou qualquer outra obra de arte. Faz sentido agora?

“[…] solicitações como essas provam que o pensamento, conseqüência da interpretação pessoal de cada ouvinte, é mais vil do que se costuma achar. […] A banda acredita que os questionamentos infundados, a ameaça de apreensão de CDs e de impedimento de veiculação da música restringem a liberdade de expressão e podem ser classificados como uma tentativa de censura, um dos maiores temores da imprensa e dos artistas desde os tempos da ditadura […] e não quer voltar a ver artistas enviando letras e músicas para prévia aprovação governamental.”

Como dito no início desta postagem, a música fez muito sucesso aqui no cenário gaúcho, desde 2000, entretanto, foi somente em 2005, quando a música teria uma exposição em todo o Brasil, e consequentemente uma maior arrecadação, é que a música foi fortemente penalizada, tendo a pior interpretação possível por parte dos magistrados da Justiça.

“[…] mostra o sentimento de um pedófilo e de um pai que nutre uma atração doentia pela filha […] quando sabemos todos que se trata de uma manifestação doentia de personalidade (tecnicamente uma ‘perversão’), que causa em suas vítimas profundos e indeléveis traumas, que carregarão por toda a vida.”.

E agora? O que vale? A pior interpretação possível? Todas as interpretações possíveis, mesmo sem haver uma clara menção? Sabemos que seguindo essa linha teríamos de censurar muita coisa por aí, músicas, filmes, obras de arte, quadrinhos, etc… O que você acha? Comente!

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